Entre os vícios que o Pequeno Príncipe encontra nos planetas dos adultos, um dos mais atuais é a alienação: o processo pelo qual uma pessoa deixa de habitar a própria vida e passa a viver fora de si. Saint-Exupéry a retrata em dois personagens distintos, o vaidoso e o bêbado, que são as duas faces de uma mesma perda.
O vaidoso: viver do olhar do outro
O vaidoso não busca poder, busca confirmação. Tudo o que faz está voltado para uma única direção, o reflexo. Ele não quer ser amado nem compreendido, quer ser visto. O seu valor depende inteiramente do olhar alheio, e a ausência de aplausos é, para ele, o mesmo que a morte.
Aqui a obra dialoga com Jean-Paul Sartre, que em O Ser e o Nada afirma que, ao sermos vistos, somos transformados em objeto: a consciência do olhar alheio nos aliena de nós mesmos, e deixamos de ser quem somos para nos tornar aquilo que o outro projeta. O vaidoso é essa alienação levada ao extremo. Ao buscar o olhar como única fonte de valor, condena-se a viver numa prisão de espelhos. Já em 1943, Saint-Exupéry antecipava o mundo das curtidas, das selfies e dos seguidores, onde cada gesto é performance e cada silêncio, fracasso.
O bêbado: fugir de si mesmo
Se o vaidoso vive para ser visto, o bêbado bebe para não ser visto, nem por si próprio. Ele bebe para esquecer que tem vergonha, e tem vergonha de beber. A alienação, aqui, é fuga: o álcool é apenas o sintoma do vazio que ele tenta calar. Diferente da culpa, que diz "fiz algo errado", a vergonha diz "eu sou errado", e corrói o senso de valor essencial. O bêbado está tão alienado de si que preferiria esquecer quem acredita ser.
A máscara que engole o rosto
Nos dois casos, o que se perde é o contato com o próprio ser. O psicólogo Carl Jung diria que o vaidoso vive identificado com a sua persona, a máscara social que construímos para nos relacionar com o mundo. A persona é necessária, mas, quando confundida com a totalidade do ser, torna-se prisão. É o que ocorre nesses planetas claustrofóbicos: os homens tornaram-se apenas a imagem de si.
O Pequeno Príncipe não os julga nem debate. Apenas vê, de verdade, e segue viagem, porque onde não há escuta não há encontro. A sua partida é um convite silencioso: largar o palco, rasgar a máscara e, enfim, tocar o que somos. Para acompanhar a análise completa desses personagens, assista à aula.
Leituras do Nous
Leia os clássicos com profundidade
A nossa lista de mais de 130 livros recomendados, comentados e organizados por tema, para você não ler no escuro.
Ver as leituras recomendadasPerguntas frequentes
O que é a alienação no Pequeno Príncipe?
É a perda de si mesmo. Aparece sobretudo no vaidoso, que só existe pelo olhar dos outros, e no bêbado, que bebe para fugir da própria vergonha. Ambos deixaram de ser quem são.
Quais personagens representam a alienação?
O vaidoso, refém do aplauso e do reflexo, e o bêbado, preso ao ciclo da fuga e da culpa. Cada um mostra uma forma de deixar de habitar a própria vida.
Como a obra dialoga com a filosofia sobre isso?
Com Sartre, para quem o olhar alheio nos transforma em objeto, e com Jung, que alerta contra confundir a persona, a máscara social, com a totalidade do ser.
Aprofunde: Os 7 planetas e o que significam · A racionalidade instrumental · O Pequeno Príncipe: resumo e análise
Aula de origem (YouTube): O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry (NousCast)