Depois de vinte anos fora, disfarçado de mendigo, Odisseu volta para a própria casa e não é reconhecido por ninguém. Nem a esposa, nem o pai. Quem o reconhece primeiro não é gente nenhuma: é o cão que ele criou antes de partir para a guerra, agora um bicho velho, largado, esperando havia duas décadas.
Um cão criado antes da guerra
Argos era filhote quando Odisseu embarcou para Troia. Duas décadas depois, é só um cachorro velho, cheio de carrapatos, jogado sobre um monte de esterco em frente à própria casa, sem ninguém que cuide dele. É nesse estado que Odisseu o encontra ao voltar, disfarçado de mendigo, sem que ninguém na casa saiba quem ele é.
O reconhecimento que não pede prova
Ao ver o dono se aproximar, o cão reage. A tradução que a casa usa para conferir o texto do poema descreve a cena assim:
"Ele abanou o rabo, deixou cair as duas orelhas e depois não conseguiu mais perto de seu mestre chegar. E ele, olhando para longe, secou as lágrimas." (Odisseia, Canto XVII, tradução de Christian Werner, Cosac Naify, 2014)
Repare no que separa essa cena de todas as outras. O filho vai reconhecer Odisseu pela palavra. A ama, por uma cicatriz na perna. O pai, mais adiante, pelas árvores do próprio pomar que ele mesmo deu de presente ao filho quando criança. Cada um desses reconhecimentos precisa de alguma prova, um sinal que convença. O cão não pede nada disso. Reconhece e pronto, e nem tem mais força para se levantar.
Odisseu, para não se entregar diante dos pretendentes que tomaram a casa, enxuga a lágrima escondido, sem deixar ninguém perceber.
Vinte anos, e o poema não volta ao assunto
O que vem em seguida é dito em uma linha só, sem qualquer preparação:
"Apanhou-o o destino da negra morte assim que viu Odisseu no vigésimo ano." (Odisseia, Canto XVII, tradução de Christian Werner, Cosac Naify, 2014)
Argos morre ali mesmo, no instante em que reconhece o dono, depois de vinte anos de espera. Homero gasta poucos versos nisso e nunca mais volta ao assunto. Não há discurso, não há cerimônia, não há ninguém na casa que perceba a cena além do próprio Odisseu, disfarçado, incapaz de reagir sem se denunciar.
O que o poema diz sobre o abandono do cão
Homero não deixa a cena só na comoção. Um pouco antes, o porqueiro Eumeu explica por que um animal criado com cuidado termina largado daquele jeito, e a explicação não é sobre o afeto que falta em uma casa tomada pelos pretendentes: é sobre servidão.
"De metade da excelência priva Zeus ampla-visão ao varão que o dia escravizador agarra." (Odisseia, Canto XVII, tradução de Christian Werner, Cosac Naify, 2014)
Ou seja, quem vira propriedade de outro perde, segundo o poema, metade do próprio valor, e é essa perda que explica por que ninguém mais na casa cuida do cão de caça que já foi o orgulho de Odisseu. A cena de Argos não é só sobre um cão fiel. É sobre o que a ausência do dono da casa desmonta ao redor dele, começando pelo que ninguém acha que vale a pena manter.
O reconhecimento mais puro do livro
É por essa economia, e não apesar dela, que a cena atravessa quase três mil anos sem perder força. Todos os outros reconhecimentos da Odisseia são negociados: alguém testa, alguém duvida, alguém pede confirmação antes de aceitar que aquele homem é mesmo quem diz ser. O cão não testa nada. Reconhece o dono do jeito mais simples que existe, antes de qualquer palavra ser trocada, e é o único personagem do poema que não precisa de motivo nenhum para saber a verdade.
A cena de Argos é uma peça pequena dentro de um poema sobre o que significa ser reconhecido depois de muito tempo fora, tema que a Odisseia trabalha do início ao fim. A aula "Odisseia, de Homero" percorre os outros reconhecimentos da obra, um a um, até a prova mais rigorosa de todas: a de Penélope.
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Quem é Argos na Odisseia?
É o cão de Odisseu, criado por ele quando ainda era filhote, antes de partir para a guerra de Troia. Vinte anos depois, velho e abandonado em um monte de esterco em frente à própria casa, é o primeiro a reconhecer o dono disfarçado de mendigo.
Por que Argos reconhece Odisseu antes de todo mundo?
O poema não explica o mecanismo, só mostra o efeito: o cão abana o rabo e abaixa as orelhas ao ver o disfarce se aproximar. É o único reconhecimento da obra que não depende de prova nenhuma, nem cicatriz, nem palavra, nem objeto reconhecível.
O que acontece com Argos depois de reconhecer Odisseu?
Ele morre logo em seguida, no mesmo instante em que vê o dono, depois de vinte anos de espera. Odisseu, disfarçado, enxuga uma lágrima escondida para não se entregar diante dos pretendentes.
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