Se a Eneida, de Virgílio, era a estrutura da obra de Bernini, as Metamorfoses, de Ovídio, eram a pele. E a diferença entre os dois poetas explica um traço central da arte de Bernini que passa despercebido a quem olha só para a técnica.
Um poeta moralmente ambíguo
As Metamorfoses é um livro radicalmente diferente da Eneida: onde Virgílio é solene, épico e moralmente claro, Ovídio é vertiginoso e ambíguo. As histórias de transformação que ele narra, ao longo de quinze livros e cerca de 250 mitos, não terminam necessariamente bem, às vezes é redenção, às vezes punição, às vezes apenas o cosmos indiferente ao sofrimento humano.
A permissão que Ovídio dava a Bernini
Bernini se apoiava em Ovídio exatamente por essa ambiguidade, algo que nenhum tema estritamente cristão conseguia oferecer da mesma forma: a permissão para mostrar o poder sem julgá-lo, o desejo sem domesticá-lo, a transformação sem explicá-la por completo. É o que torna esculturas como Apolo e Dafne e O Rapto de Proserpina tão desconfortáveis e tão duradouras.
A transformação como tema central de tudo
O tema que atravessa as Metamorfoses, a ideia de que tudo se transforma e que a única constante é a mudança, é também o tema central de toda a escultura de Bernini. Ele não esculpia o antes nem o depois de um evento. Esculpia o durante, o instante exato da mudança, o único material capaz de capturar o que o tempo, por definição, não pode preservar.
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Qual a relação entre Bernini e as Metamorfoses de Ovídio?
As Metamorfoses inspiraram diretamente duas das esculturas mais célebres de Bernini, Apolo e Dafne e O Rapto de Proserpina, mas sua influência vai além dessas obras específicas, moldando o tema central de toda a sua escultura, o instante da transformação.
Por que Ovídio era diferente de Virgílio para Bernini?
Onde Virgílio é solene e moralmente claro, Ovídio é vertiginoso e moralmente ambíguo. Suas histórias não terminam necessariamente bem, e essa ambiguidade dava a Bernini permissão para mostrar poder e desejo sem julgá-los.
Qual o tema central que Ovídio e Bernini compartilham?
A transformação. As Metamorfoses afirmam que tudo se transforma e que a única constante é a mudança; Bernini esculpia justamente o instante da transformação, não o antes nem o depois, mas o durante, algo que só o mármore poderia capturar.
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