Deus e o Estado, de Bakunin: liberta ou reinicia?

Aula de origem: 1984, de George Orwell

No meio da análise de 1984, vale uma digressão que ilumina o próprio livro de George Orwell por outro ângulo: Deus e o Estado, do pensador russo Mikhail Bakunin. É uma obra incompleta, ele nunca terminou de desenvolver o próprio pensamento nela, mas defende uma posição tão extrema, tão radicalmente anárquica, que ajuda a ver com mais nitidez o que está em jogo quando qualquer poder se torna absoluto.

Toda autoridade custa liberdade

O argumento central de Bakunin é direto. Para ele, a autoridade, seja ela religiosa ou estatal, só pode existir à custa da liberdade individual. Quando uma entidade se coloca acima dos homens, seja Deus, o Estado ou o Grande Irmão, ela acaba justificando todos os meios necessários para manter esse poder, incluindo a repressão, a violência e o controle do pensamento.

Quanto mais um homem crê, menos ele é livre.

Essa frase de Bakunin é o eco filosófico direto do lema do Partido em 1984: liberdade é escravidão. As duas obras, cada uma a seu modo, mostram que sob regimes de poder absoluto, sejam eles religiosos, políticos ou os dois ao mesmo tempo, a submissão do indivíduo é apresentada como um dever moral. A liberdade é redefinida aos poucos, até que o indivíduo nem consiga mais imaginar o que significa ser livre de verdade. É o mesmo processo que Winston Smith sofre sob tortura: ele não é considerado curado até que passe a amar o que o subjuga, a anulação completa do eu.

O efeito pêndulo

A posição de Bakunin pode ser lida como um efeito pêndulo. Ele reage com força total contra o que via como autoridade opressora, tanto no Estado quanto na religião, e a reação o empurra para o extremo oposto: a abolição total de qualquer autoridade institucional. É a lógica de todo movimento pendular. Quando algo está pressionado ao máximo num extremo, a reação tende a disparar com a mesma força para o extremo contrário.

O problema é que sair de um extremo para o outro carrega o próprio risco de instabilidade. Sem qualquer autoridade, existe o risco real de caos e desorganização. E sem um governo legítimo, o vácuo de poder pode ser preenchido por forças violentas, resultando de novo em opressão, só que de outro tipo. É o que acontece em muitas revoluções: o povo se liberta de um tirano e, no próprio processo de libertação, acaba criando outro.

Autoridade legítima não é o mesmo que poder ilegítimo

Vale a pena distinguir os dois antes de responder a Bakunin. Poder ilegítimo é quando alguém domina pelo medo, pela manipulação ou pela força, seja num governo, seja numa liderança religiosa. Autoridade legítima é quando as pessoas seguem porque acreditam, porque existe justiça, transparência e confiança, e a liderança inspira pela moralidade e pelo exemplo, não pela culpa e pela coerção. A crítica de Bakunin acerta em cheio no segundo tipo. A dúvida que ela deixa em aberto é se a resposta certa ao poder ilegítimo é abolir toda forma de autoridade, ou reconstruir a legítima.

A pergunta que a obra deixa em aberto

Bakunin e Orwell, lidos juntos, deixam o leitor no meio de um dilema real: totalitarismo de um lado, anarquismo total do outro. Nenhum dos dois extremos parece habitável por muito tempo. E a pergunta que Deus e o Estado deixa, sem resolver, é a que interessa de verdade: eliminar toda autoridade resolve o problema do poder absoluto, ou apenas reinicia o ciclo, com um novo tirano esperando para preencher o vácuo que sobrou?

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Perguntas frequentes

O que Bakunin defende em Deus e o Estado?

Mikhail Bakunin, pensador russo de posição anarquista extrema, argumenta que toda autoridade, seja religiosa ou estatal, só existe à custa da liberdade individual. Para ele, quando uma entidade se coloca acima dos homens, ela acaba justificando repressão, violência e controle do pensamento para manter esse poder. A obra ficou incompleta, ele não terminou de desenvolver o próprio pensamento nela.

O que significa "quanto mais um homem crê, menos ele é livre"?

É a frase central de Bakunin em Deus e o Estado, e ela ecoa diretamente o lema do Partido em 1984, "liberdade é escravidão". A ideia é que a submissão a uma autoridade absoluta, fé ou Estado, é apresentada como um dever moral até que o indivíduo nem consiga mais imaginar o que significa ser livre.

O que é o efeito pêndulo na crítica a Bakunin?

É o risco de que uma reação radical contra a opressão, como a abolição total de qualquer autoridade, empurre a sociedade para o extremo oposto: o caos. Sem governo legítimo, o vácuo de poder pode ser preenchido por forças violentas, e o povo que se liberta de um tirano acaba criando outro no processo.

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