Grilo, de Plutarco: o porco que não quis voltar

Aula de origem: Odisseia, de Homero

Na Odisseia, Circe transforma os homens de Ulisses em porcos, e o detalhe mais perturbador não é o corpo de bicho: é que a mente continua inteira lá dentro. Oitocentos anos depois, um filósofo grego pegou essa cena e fez a pergunta que ainda incomoda: e se um deles não quisesse voltar?

Circe, os porcos e a mente que não muda

Na ilha de Circe, no Canto X da Odisseia, a feiticeira recebe os homens de Ulisses com fartura, comida e vinho, e transforma todos em porcos, exceto Euríloco, que ficou de fora por desconfiança e é ele quem volta correndo para contar o que viu. O poema descreve a transformação com uma precisão que é o verdadeiro horror da cena:

"Eles, de porcos, tinham a cabeça, o som, as cerdas e o corpo, mas a mente era firme como antes." (Odisseia X, tradução de Christian Werner, Cosac Naify, 2014)

Não é perda de identidade. É aprisionamento dentro dela. Eles sabem exatamente o que aconteceu, e não podem dizer nada. Ulisses escapa com a ajuda do deus Hermes e de uma erva chamada moly, e obriga Circe a desfazer o feitiço. Contado assim, o episódio fecha como um conto de resgate. Só que, para pelo menos um leitor antigo, ele não fechava.

Oitocentos anos depois, um porco toma a palavra

Plutarco, biógrafo e filósofo grego que também serviu como sacerdote em Delfos, escreveu nos Moralia, a mesma coleção de tratados práticos de onde vem Como Ouvir, um pequeno diálogo que ficou conhecido pelo nome do seu personagem principal: Grilo (o texto integra o tratado hoje chamado Bruta animalia ratione uti, Moralia 985D-992E). Nele, Ulisses volta à ilha de Circe e pede que ela devolva a forma humana aos gregos que ainda vivem na pele de bicho. Circe concorda, com uma condição: que ele pergunte a eles primeiro se querem voltar.

E um dos porcos, chamado Grilo, toma a palavra. E diz que não quer.

O argumento do porco que não quer voltar

O argumento de Grilo não é birra, é comparação, e é por isso que o texto sobrevive vinte séculos depois. Ele diz que a coragem e a temperança, que em um ser humano custam uma vida inteira de treino e ainda assim falham na hora certa, em um animal já vêm prontas, por natureza. O bicho não precisa de discurso de general antes da batalha para agir com coragem, e não precisa de força de vontade para comer o que basta e parar por ali. Onde o ser humano luta, e com frequência perde, o animal simplesmente é.

Em outras palavras: Grilo está dizendo a Ulisses que ser homem é um mau negócio.

Por que essa objeção continua viva

Repare no que está em jogo. Ulisses passa a Odisseia inteira sendo desmontado, perdendo navios, nome, companheiros e posição, e lutando para se remontar peça por peça. Grilo foi desmontado do mesmo jeito, perdeu a forma humana, e a diferença é que ele gostou do resultado. Enquanto porco, não precisa lembrar quem era, não precisa provar nada a ninguém, não precisa ser reconhecido por mais ninguém. A exigência inteira de voltar a ser gente, com tudo o que ela cobra, deixou de existir para ele.

Ulisses quer voltar. Grilo não. É a única diferença entre os dois, e é o motor de duas obras separadas por oitocentos anos: uma que celebra o retorno como o maior feito de um herói, outra que pergunta, com toda a seriedade que o gênero permite, se valia mesmo a pena.

É essa tensão, entre quem atravessa o mundo para voltar a ser alguém e quem prefere não voltar, que a aula do Nous sobre a Odisseia percorre no encontro entre Ulisses, Circe e o próprio Grilo. Vale assistir para ver como Homero e Plutarco, lidos juntos, discutem entre si sobre o que de fato significa recomeçar.

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Perguntas frequentes

Por que Circe transforma os companheiros de Ulisses em porcos?

Na Odisseia (Canto X), a feiticeira Circe recebe os homens de Ulisses com fartura e os transforma em porcos com uma bebida enfeitiçada, menos Euríloco, que ficou de fora por desconfiança e volta para avisar o resto da tripulação. O detalhe mais perturbador é que a mente de cada um continua humana dentro do corpo de animal.

Quem foi Grilo, o porco de Plutarco?

Grilo é o nome que Plutarco deu, no diálogo conhecido como Grilo (dentro dos Moralia, 985D-992E), a um dos gregos transformados em porco por Circe. Quando Ulisses pede à feiticeira que devolva a forma humana a eles, ela manda perguntar primeiro, e Grilo responde que prefere continuar porco.

Qual é o argumento de Grilo para não querer voltar a ser humano?

Grilo argumenta que a coragem e a temperança, que no ser humano exigem uma vida inteira de treino e ainda assim falham, no animal já vêm prontas por natureza. Para ele, ser homem, com todo o esforço que isso cobra, é um mau negócio.

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