Na Odisseia, o mentor nunca resolve por você

Aula de origem: Odisseia, de Homero

Quando você diz que alguém foi seu mentor, está citando a Odisseia, mesmo sem saber. Só que a palavra carrega mais do que uma etimologia bonita: carrega uma condição sobre como a ajuda de verdade se parece.

De onde vem a palavra, e um detalhe que quase todo mundo erra

Telêmaco tinha meses de idade quando o pai, Ulisses, partiu para a guerra de Troia. Vinte anos depois, é um rapaz cercado de pretendentes que devoram o gado da própria casa, e não sabe como agir. É nesse ponto que a deusa Atena decide intervir, e o jeito como ela intervém é o que dá nome à palavra que você usa hoje.

Vale ser preciso aqui, porque a cena costuma ser contada errado. No Canto I da Odisseia, quem aconselha Telêmaco ainda não é "Mentor": é Atena disfarçada de Mentes, um velho amigo da família recebido como hóspede. É só no Canto II, verso 267, que ela veste a segunda forma, a de um homem chamado Mentor, e acompanha o rapaz na viagem que ele empreende em busca de notícias do pai (Odisseia, tradução de Christian Werner, Cosac Naify, 2014). É desse segundo disfarce, o de Mentor, que sai o nome que sobrevive na palavra.

A ajuda que a deusa escolhe não dar

Aqui está o detalhe que faz do episódio mais do que uma curiosidade de dicionário. Atena é a deusa da inteligência: ela poderia resolver tudo sozinha, entrar na casa e expulsar os pretendentes em um único gesto, e o poema deixa claro que ela tem esse poder. Mesmo assim, ela escolhe aparecer como um homem velho que dá conselho, e manda o próprio rapaz agir: convocar a assembleia, enfrentar os pretendentes na frente de todos, viajar atrás de informação sobre o pai.

Não existe atalho para virar gente. A ajuda chega, mas chega na forma de alguém do lado apontando o caminho, nunca na forma de alguém resolvendo o problema em nome de quem precisa aprender a resolver.

Repare também no que a cena não é. Atena não convoca a assembleia por Telêmaco, não confronta os pretendentes por ele, não embarca sozinha em busca de notícias do pai. Ela entra e sai da narrativa como conselheira, e o rapaz é quem precisa estar presente em cada uma dessas cenas, com o próprio corpo e a própria voz. É esse detalhe, mais do que o disfarce em si, que separa o mentor do salvador.

Ninguém é formado por quem anuncia que vai formar

Há uma segunda coisa que o episódio ensina, e que costuma passar despercebida. Atena nunca se apresenta como formadora. Ela não diz que veio para educar ninguém. Disfarça-se de conhecido da casa, senta ao lado do rapaz, e conversa. A formação de verdade quase nunca chega anunciada: chega disfarçada de conversa comum, de pergunta feita na hora certa, de alguém que aponta e depois vai embora.

Pense em quem te ajudou a decidir algo difícil, um professor, um colega mais velho, um livro que caiu na sua mão no momento certo. Repare no que essa pessoa fez, e principalmente no que ela não fez: não tomou a decisão por você, deixou que você decidisse sabendo, agora, para onde olhar. É esse mecanismo que a Odisseia nomeia há quase três mil anos, muito antes de a palavra "mentoria" virar item de currículo de empresa.

Se você já teve alguém assim, alguém que apontou o caminho sem nunca ter feito o trabalho no seu lugar, agora você sabe de que livro vem o nome que se dá a essa pessoa, e o que ele realmente exige de quem o carrega.

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Perguntas frequentes

De onde vem a palavra mentor?

Vem da Odisseia. No Canto II (verso 267), a deusa Atena assume a forma de um homem chamado Mentor, amigo da casa de Ulisses, para acompanhar e aconselhar Telêmaco, filho do herói. É desse nome que sai a palavra usada até hoje.

Quem foi Mentor na Odisseia?

Mentor era um itacense de confiança de Ulisses. Na trama, é a forma que a deusa Atena escolhe assumir para orientar Telêmaco. No Canto I, antes disso, ela já havia aconselhado o rapaz disfarçada de outra pessoa, Mentes, hóspede da família.

Por que Mentor é considerado o primeiro mentor da história?

Porque o poema descreve exatamente o mecanismo que a palavra passou a nomear: alguém com mais experiência que aconselha e aponta o caminho, mas não faz o trabalho no lugar de quem precisa aprender. Atena podia resolver tudo sozinha e escolhe não fazer isso.

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