Thaumazein: o espanto que não se contenta

Aula de origem: Por que a filosofia nasceu na Grécia, e não no Egito ou na Babilônia

Todo povo, em toda época, já olhou para o céu e se espantou. Já perguntou por que a chuva cai, por que se morre, de onde vem tudo o que existe. O espanto diante do mundo não é privilégio grego, nem privilégio de nenhum lugar. Então por que dizemos que a filosofia nasceu ali, naquela costa, e não em qualquer outro povo que também se espantou?

A resposta não está no espanto. Está no que se fez com ele.

O que Platão e Aristóteles disseram sobre o espanto

Platão e Aristóteles, escrevendo séculos depois do nascimento da filosofia, olharam para trás e tentaram nomear o que a tinha começado. Os dois chegaram à mesma palavra: thaumazein (θαυμάζειν), espantar-se, admirar-se, ficar perplexo.

Platão, no Teeteto, 155d, diz que esse pathos, o espanto, é próprio do filósofo, e que a filosofia não tem outra origem. Aristóteles repete a ideia na Metafísica, I, 2, 982b: foi pelo espanto que os homens começaram a filosofar, tanto agora quanto no princípio.

Repare que os dois concordam em algo que parece simples e não é: a filosofia não começa numa conclusão, começa numa perplexidade. Alguém olha para o que sempre pareceu óbvio, o sol nascendo, a água virando gelo, a morte chegando, e deixa de achar óbvio.

Até aqui, porém, isso ainda não distingue um filósofo de qualquer pessoa curiosa. E é exatamente nesse ponto que a maioria das explicações para, satisfeita com a definição, quando o que importa está um passo à frente.

A diferença entre curiosidade e investigação

A diferença que separa a pessoa curiosa do filósofo não é de talento. É de disciplina.

Curiosidade é uma reação. Ela acende diante de algo estranho e apaga logo depois, pula de assunto com facilidade, e se satisfaz com a primeira resposta que soe bem. Nós todos temos curiosidade, e ela, sozinha, não sustenta nada: nem uma tese, nem um método, nem uma tradição de pensamento que atravesse séculos.

Investigação é outra coisa. É o que acontece quando o espanto é submetido a método. Você formula a pergunta de um jeito que ela possa ser respondida errado, ou seja, de um jeito que admita refutação. Você diz de que a sua resposta depende, quais são as condições que a sustentam. E você aceita, de antemão, que outra pessoa possa derrubá-la com um motivo melhor.

O nascimento da filosofia não é o nascimento do espanto. Todo povo se espantou. É o nascimento do espanto que não se contenta.

Essa frase carrega o argumento inteiro. Espantar-se é fácil e é humano. O difícil, e o que a Grécia antiga fez pela primeira vez de modo sistemático, é recusar-se a parar na primeira explicação satisfatória, e insistir em perguntar de novo, e de novo, até que a resposta resista ao exame de outra pessoa.

As perguntas que o espanto disciplinado abriu

Quando o espanto se organiza em investigação, ele passa a fazer perguntas que não envelheceram. Algumas delas ainda são as nossas.

Uma: do que tudo é feito? É a pergunta pela origem última das coisas, a raiz do que hoje chamamos de física e de metafísica.

Outra: existe uma ordem por trás disso? Ou seja, o mundo é caos, ou tem uma estrutura, uma inteligibilidade que a mente humana pode acompanhar.

Outra ainda: como eu sei que isso é verdade? A pergunta que examina o próprio instrumento do conhecimento, e que um dia se chamaria teoria do conhecimento.

E a que parece a mais simples, e é a que ninguém termina de responder: como se deve viver?

Repare no que essas quatro perguntas têm em comum. Nenhuma delas se responde por autoridade. Nenhuma se fecha porque alguém de posição mais alta assim decidiu. Todas admitem que você discorde e apresente o seu motivo. Nasceram, desde o início, com a porta aberta para o exame.

Por que isso ainda importa

Se a filosofia fosse apenas o espanto, ela teria nascido em qualquer lugar, em qualquer tempo, porque o espanto é universal. O que a fez nascer justamente ali foi um hábito muito mais raro: a recusa em se contentar. A recusa em tratar a primeira resposta boa como a resposta final.

É esse hábito, mais do que qualquer resposta específica, que continua vivo em toda investigação séria, dentro e fora da filosofia. E é esse hábito, também, que separa quem consome uma explicação de quem a examina.

A aula completa do canal percorre como esse espanto disciplinado nasceu numa praça específica, com um alfabeto específico, e por que isso não teve nada a ver com a democracia ateniense, ao contrário do que costuma se repetir.

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Perguntas frequentes

O que significa thaumazein?

Thaumazein (θαυμάζειν) é o verbo grego para espantar-se, admirar-se, ficar perplexo diante de algo. Platão, no Teeteto, 155d, chama esse pathos de próprio do filósofo, e diz que a filosofia não tem outra origem. Aristóteles repete a ideia na Metafísica, I, 2, 982b: foi pelo espanto que os homens começaram a filosofar, tanto agora quanto no princípio.

Qual a diferença entre curiosidade e espanto filosófico?

É uma diferença de disciplina, não de talento. Curiosidade é reação: acende e apaga, pula de assunto e se satisfaz com a primeira resposta que soe bem. Investigação é o espanto submetido a método, quando alguém formula a pergunta de um jeito que ela possa ser respondida errado, diz de que a resposta depende, e aceita de antemão que outro possa derrubá-la.

Por que nem todo povo que se espantou criou filosofia?

Porque o espanto sozinho não basta. Todo povo, em toda época, se espantou com o céu, com a morte, com a origem das coisas. O que nasceu na Grécia não foi o espanto, foi o espanto que não se contentou com a primeira resposta, e que se organizou em perguntas que podem ser contestadas por outro sem que isso seja ofensa.

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