Odisseu e Calipso: os sete anos do Canto V

Aula de origem: Odisseia, de Homero

Contada em uma frase, a história parece simples: um homem levou vinte anos para voltar da guerra para casa, passou parte desse tempo com outras mulheres, e a esposa segurou tudo sozinha. Essa leitura não está errada. Ela enxerga certo o que vê no resumo da Odisseia. Só falta ver o que o Canto V, onde Homero finalmente mostra o que aconteceu entre Odisseu e a ninfa Calipso, conta sobre esses sete anos específicos, e conta de um jeito mais preciso e mais duro do que a acusação sozinha.

O que o leitor já sabe, e o que o Canto V acrescenta

Dos vinte anos que Odisseu passa longe de Ítaca, dez são de guerra em Troia. Dos dez que sobram, sete são na ilha de Calipso. É a esse período que a queixa sobre "outras mulheres" mais se refere, e é justamente esse período que o Canto V descreve com uma precisão desconfortável, que não favorece nem a acusação fácil nem a defesa fácil.

Odisseu só aparece no poema neste canto, quase um quinto do livro depois do início, no sétimo e último ano do cativeiro. Antes disso, os quatro primeiros cantos são sobre o filho dele, Telêmaco, tentando virar homem numa casa cercada de pretendentes. É só aqui que a câmara, por assim dizer, volta para o herói.

Sete anos sentado na praia, olhando o mar

O retrato que Homero faz do cativeiro está em poucos versos, e eles não deixam margem para dúvida sobre a natureza da coisa. Odisseu passa os dias sentado nas pedras da praia, olhando o mar aberto, chorando. E à noite, diz o poema:

"Mas à noite dormia, obrigado, na cava gruta, sem querer, junto a ela, que queria." (Odisseia, V, 154-155, tradução de Christian Werner, Cosac Naify, 2014)

Não é uma frase ambígua. O poema marca, com todas as letras, quem quer e quem não quer. Calipso, do lado dela, não é tratada como vilã: ela chega a reclamar aos deuses que toleram que eles mesmos tomem mortais, mas puna as deusas que fazem o mesmo. O poema registra a queixa e segue em frente, sem decidir quem tem razão. O que fica claro, dos dois lados, é que aquilo não é um romance em igualdade de condições.

A oferta de imortalidade, e a recusa

Calipso oferece a Odisseu a única coisa que nenhum mortal recebe de graça: nunca envelhecer, nunca morrer, ficar naquela ilha para sempre, ao lado dela. E argumenta, com razão, que é mais bela do que a esposa que o espera.

Odisseu não nega o argumento. Reconhece que Penélope é, sim, inferior a Calipso em beleza e estatura, e que uma é mortal e a outra é uma deusa sem velhice. Mas responde que quer, ainda assim, voltar para casa e ver o dia do retorno. Ele concede a premissa inteira, e recusa a conclusão. Não escolhe Penélope por ela ser melhor. Escolhe a vida mortal por ela ser a sua, numa ilha pequena e pedregosa onde ele vai, um dia, morrer.

Isso não faz dele um santo. Não é essa a leitura que o poema propõe, nem a que este artigo defende. Faz dele uma coisa mais interessante do que um santo: um homem a quem ofereceram tudo, o fim do medo e do tempo, e que escolheu voltar.

Nu na praia, sem nome: o que sobrou dele

Livre da ilha, Odisseu constrói uma jangada com as próprias mãos, e Posêidon a destrói numa tempestade. Ele chega à terra dos feácios sem barco, sem roupa, sem companheiros, e dorme debaixo de oliveiras, coberto de folhas, como um bicho. É o fundo do poço do poema: não sobrou nenhuma das quatro peças que faziam dele alguém, nem terra, nem bens, nem testemunha, nem a possibilidade de dizer o próprio nome a alguém que o reconheça.

É desse ponto, e não de antes, que começa a reconstrução contada em Odisseia, de Homero: resumo e análise. E é bom notar o que isso muda na leitura dos sete anos com Calipso: eles não são o meio da história de Odisseu, são o fim de uma fase e o início do desmonte mais completo que o poema lhe reserva.

Por que essa cena importa para quem lê a Odisseia hoje

A acusação que abre este artigo não está errada nos fatos que enumera. O que ela deixa de fora é o que o próprio texto registra sobre a vontade de quem estava lá: um homem contra a vontade, chorando todos os dias, que recusa a imortalidade para voltar a uma mulher que vai envelhecer. Quem decide, no fim, se essa escolha basta, não é este artigo, nem o leitor de hoje sozinho: é Penélope, no Canto XXIII, a única pessoa da casa com autoridade para julgar os vinte anos inteiros, e ela aplica a Odisseu um teste que nenhum outro personagem do poema passa.

É essa mesma cena, lida verso a verso e com a tradução na mão, que a aula do Nous sobre a Odisseia desenvolve, junto com o resto da trajetória de Odisseu, do naufrágio ao reencontro.

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Perguntas frequentes

Odisseu traiu Penélope com Calipso?

Odisseu passou sete dos vinte anos de ausência na ilha de Calipso, uma ninfa que o retinha contra a vontade dele: o poema diz que ele dormia com ela "sem querer, ela querendo" (Odisseia, V, 154-155). Ele chorava todos os dias olhando o mar, e recusou a imortalidade que ela oferecia para poder voltar a uma esposa mortal.

O que Calipso ofereceu a Odisseu?

A imortalidade e a juventude eterna, para que ele ficasse com ela na ilha para sempre. Odisseu recusa, reconhecendo que ela é mais bela do que Penélope, mas escolhendo a vida mortal que é a sua, não a que lhe ofereceriam.

Quem foi Calipso na Odisseia?

Uma ninfa que vive sozinha na ilha de Ogígia. O nome dela é próximo do verbo grego para "esconder", e é o que ela faz com Odisseu por sete anos, depois do naufrágio que o deixa à deriva no mar.

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