Vivemos numa cultura que sabe acusar, mas esqueceu como absolver. O erro, hoje, é eterno: um deslize fica gravado, circula, condena para sempre. E é exatamente essa ferida que O Eleito, de Thomas Mann, vem tratar, com a proposta mais incômoda e mais necessária do livro: existe, sim, um mecanismo para o irreparável.
O erro que nunca prescreve
Numa cultura de cancelamento, a memória não perdoa. Um deslize de anos atrás pode voltar a qualquer momento, arrastado para o presente como se o tempo não tivesse passado, como se a pessoa que errou fosse, para sempre, só aquele erro. Diagnosticamos a culpa, damos nome a ela, e depois não sabemos onde depositá-la. Uma culpa sem lugar não desaparece: apodrece por dentro.
A diferença entre condenar e absolver
Condenar é fácil: basta apontar o fato. Absolver exige outra coisa, um caminho, uma autoridade que reconheça a mudança e reintegre quem mudou. É essa segunda parte que a nossa cultura perdeu. Sabemos processar a acusação; não sabemos processar o perdão.
A contraproposta de Gregorius
É aqui que O Eleito se torna necessário. Gregorius comete o pecado mais grave que o livro consegue imaginar, um duplo incesto, e essa não é a última palavra sobre ele. Encarada a culpa, feita a penitência, dezessete anos acorrentado a uma rocha no mar, ele não fica marcado para sempre pelo pior momento da sua vida. É reintegrado. Eleito para o posto mais alto da cristandade.
Não é ingenuidade, é coragem
Isso não é leveza moral nem fingir que o erro não aconteceu. É reconhecer o peso inteiro da culpa e, ainda assim, afirmar que ela não é a última palavra sobre quem alguém pode se tornar. São Paulo resumiu essa lógica numa frase que o livro inteiro ilustra: "onde o pecado abundou, superabundou a graça" (Romanos 5, 20).
Se você carrega alguma coisa que julga irrecuperável, O Eleito propõe um caminho diferente do cancelamento perpétuo: encarar, não esconder; nomear, não abafar. É a mesma pergunta que atravessa o vídeo de origem desta leitura, e talvez a mais urgente do nosso tempo: existe uma culpa minha que não tem mais jeito? O livro responde que não.
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Por que dizemos que a nossa cultura acusa mas não absolve?
Porque desenvolvemos mecanismos eficientes para apontar o erro, o cancelamento, a exposição pública, a memória que nunca apaga, mas não desenvolvemos um caminho equivalente de reintegração. Diagnosticamos a culpa e damos nome a ela; raramente sabemos onde depositá-la depois.
O que O Eleito, de Thomas Mann, propõe diante disso?
Propõe que existe, sim, um mecanismo para o irreparável: a culpa encarada, não escondida, pode se tornar matéria-prima de outra coisa. Gregorius comete o pior pecado do livro e ainda assim é reintegrado, eleito para o posto mais alto da cristandade.
Existe alguma culpa grande demais para ser perdoada, segundo o livro?
Não, desde que seja encarada. O livro não trata isso como leveza moral, mas como o oposto: reconhecer o peso inteiro do erro e, mesmo assim, afirmar que ele não é a última palavra sobre quem alguém pode se tornar.
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Aula de origem: O Eleito, de Thomas Mann