A anatomia do medo em Macbeth, de Shakespeare

Macbeth é a mais curta das grandes tragédias de Shakespeare, e também a mais sombria. Sem subtramas, sem alívio cômico, ela faz uma só coisa, com precisão de bisturi: disseca o medo, cena após cena, até o osso.

Um general leal escuta três bruxas na estrada. Elas dizem o que ele sempre quis ouvir: a grandeza é sua, é só uma questão de tempo. Para encurtar esse tempo, Macbeth mata um rei. O que vem depois não é o triunfo, é o medo, no comando do reinado. Entender Macbeth é entender como esse medo é construído.

A profecia não ordena, ela revela

As bruxas preveem, mas em momento algum mandam matar. Banquo ouve a mesma profecia e não mata ninguém. A diferença não está no oráculo, está no coração de quem o escuta. A profecia funciona como um espelho: ela revela o desejo que já estava ali. Por isso o crítico Harold Bloom insistia a vida inteira que Macbeth é o autor da própria ruína. Ele acredita na profecia o suficiente para matar, mas não para esperar.

O crime nasce na imaginação

Antes do assassinato, Shakespeare coloca diante de Macbeth um punhal que flutua no ar, apontando o caminho. Um punhal que não existe. A mão ainda não agiu, mas a imaginação já cometeu o crime. Depois do assassinato, a mesma faculdade cobra a conta: no banquete, só Macbeth vê o fantasma de Banquo sentado em sua cadeira, como só ele tinha visto o punhal. A imaginação abre o caminho do mal e depois apresenta a fatura.

O punhal antes do crime, o fantasma depois. A culpa venceu onde nenhum exército venceria.

A culpa que nenhum exército vence

Lady Macbeth, que dizia que um pouco d'água limpa qualquer ato, termina sonâmbula, esfregando as mãos noite após noite: "Sai, mácula maldita!". Macbeth, que ganhou tudo o que as bruxas prometeram, chama a própria vida de "som e fúria, significando nada". Os dois conquistaram o trono e perderam a si mesmos. Essa é a anatomia completa: o desejo vira crime, o crime vira medo, o medo vira culpa, e a culpa esvazia a vida de sentido.

Por que a peça ainda fala com você

As nossas bruxas não usam capuz. Elas falam na voz da pressa, da comparação, do atalho, de tudo que promete o trono sem perguntar o que vai restar de você quando sentar nele. Quatrocentos anos depois, Macbeth continua fazendo a mesma pergunta a quem decide que o tempo de Deus está atrasado: você confia o suficiente para esperar?

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Macbeth, de William Shakespeare, em vídeo

O professor Rodrigo Bitencourt analisa a peça cena a cena, com a lente filosófico-cristã do Nous, no nosso canal do YouTube.

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Perguntas frequentes

Por que Macbeth é chamada de anatomia do medo?

Porque Shakespeare disseca o medo cena a cena: o medo de perder o trono, o medo da culpa, o medo da morte. É a mais curta das grandes tragédias, sem subtramas e sem alívio, concentrada na decomposição interior de um homem que força o próprio destino.

Qual é o tema central de Macbeth?

O conflito entre destino e livre-arbítrio. As bruxas preveem, mas não ordenam: a profecia revela o desejo que já estava em Macbeth. O tema é o que acontece com a alma de quem decide que o tempo está atrasado e assina pelo destino com as próprias mãos.

Macbeth foi vítima do destino ou autor da própria ruína?

A leitura de Shakespeare aponta para o segundo. Banquo ouve a mesma profecia e não mata ninguém. Macbeth acredita na profecia o suficiente para matar, mas não para esperar: é autor da própria ruína.

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