O canto das sereias na Odisseia: o que elas prometem

Aula de origem: Odisseia, de Homero

Quase todo mundo já ouviu que as sereias da Odisseia cantam bonito demais para resistir, e que é a beleza da voz delas que afunda os marinheiros. O texto de Homero promete outra coisa, mais interessante do que a lenda que sobrou: as sereias não oferecem prazer, oferecem saber. E o que Odisseu, ou Ulisses, no nome que o latim consagrou, faz diante dessa oferta é uma das cenas mais lúcidas do poema inteiro sobre autoconhecimento.

O que todo mundo imagina

A ideia comum é a de uma sedução por beleza: vozes tão perfeitas que ninguém resiste, um canto que hipnotiza pelo puro prazer sonoro. É uma leitura que se explica sozinha, porque canto e sedução andam juntos em quase toda tradição depois de Homero. Só que não é isso que está escrito no poema.

O que o texto diz de verdade

As sereias chamam Odisseu pelo nome, e o que prometem em seguida é conhecimento, não prazer:

"Sabemos tudo que, na extensa Troia, aguentaram argivos e troianos por obra dos deuses. Sabemos tudo que ocorre sobre a terra nutre-muitos." (Odisseia, XII, 184-191, tradução de Christian Werner, Cosac Naify, 2014)

A armadilha se fecha exatamente porque oferecem o que aquele homem específico mais quer. Ele é o herói que se vira porque entende, o mais inteligente entre os gregos que voltaram de Troia, e elas oferecem entender tudo o que existe.

Amarrado ao mastro: querer ouvir, sem poder obedecer

O que Odisseu faz diante disso é de uma engenhosidade que ainda hoje surpreende. Manda tapar com cera os ouvidos dos companheiros, para que remem surdos ao canto, e pede que amarrem a ele mesmo ao mastro. Ele quer ouvir. Só não quer poder obedecer.

Repare no que essa escolha significa. Ele não tenta resistir à tentação por pura força de vontade, nem finge que não vai sentir o chamado. Ele torna a própria rendição impossível, sabendo de antemão que não teria como resistir se estivesse livre.

O sábio não confia na própria força de vontade

É essa a lição que atravessa quase três mil anos e chega inteira até hoje: Odisseu sobrevive justamente porque não confia em si mesmo. O sábio, no poema, não é quem se acha imune à tentação. É quem se conhece o suficiente para se amarrar antes dela chegar.

Na ilha das sereias, o texto descreve uma pilha de ossos (Odisseia, XII, 45-46). De quem eram esses ossos, o poema não diz, e vale marcar a diferença: dizer que são os ossos de quem confiou que ia aguentar é leitura nossa, não afirmação do texto.

Waterhouse pintou aves, não mulheres-peixe

Uma curiosidade ajuda a medir o quanto a imagem das sereias mudou com o tempo: no grego antigo, elas não são metade mulher, metade peixe. São aves com rosto de mulher, e foi assim que o pintor inglês John William Waterhouse as retratou em 1891, empoleiradas no barco, entre asas escuras batendo perto do mastro. A sereia-peixe que a maioria imagina hoje vem de outra tradição, a das sereias marinhas nórdicas, que só depois se fundiu com a grega.

O canto das sereias, no fim, não é sobre música. É sobre a tentação mais perigosa para quem vive de pensar: a de achar que dá conta de saber tudo, sem pagar o preço de nunca mais voltar para contar.

Leituras do Nous

Leia os clássicos com profundidade

A nossa lista de mais de 230 livros recomendados, comentados e organizados por tema, para você não ler no escuro.

Ver as leituras recomendadas

Perguntas frequentes

O que as sereias da Odisseia realmente oferecem?

Não oferecem prazer nem beleza. Chamam Odisseu pelo nome e prometem saber tudo o que aconteceu em Troia e tudo o que se passa sobre a terra (Odisseia, XII, 184-191). É a isca perfeita para o herói da inteligência: elas oferecem entender tudo.

Por que Odisseu pede para ser amarrado ao mastro?

Porque quer ouvir o canto, mas sabe que, se ficar livre, vai obedecer ao impulso de ir até elas. Ele não confia na própria força de vontade, e por isso torna a rendição impossível antes de precisar resistir a ela.

As sereias da Odisseia eram metade mulher, metade peixe?

Não no texto grego. A forma antiga é a de aves com rosto de mulher, e foi assim que o pintor John William Waterhouse as retratou em 1891. A imagem de mulher-peixe é posterior, da tradição nórdica das sereias marinhas.

Continue: Ninguém é o meu nome: Odisseu e o Ciclope · Métis: a inteligência de Odisseu · Odisseia, de Homero: resumo e análise · Uma cultura que acusa e não absolve
Aula de origem: Odisseia, de Homero