"Você jura dizer a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade?" Num tribunal, todos respondem "juro" sem hesitar. Mas pare a cena e pergunte à testemunha, ao juiz, a você mesmo: o que é, exatamente, essa verdade que se jurou dizer? E o silêncio se instala.
Acontece com ela o que Santo Agostinho dizia do tempo: se ninguém me pergunta, eu sei; se me pedem para explicar, já não sei. A resposta clássica não é uma definição solta, mas uma subida em degraus, e cada degrau só se firma no de baixo. São três: a correspondência, a coerência e a revelação.
Primeiro degrau: a verdade como correspondência
O degrau mais básico é aquele que você pisa o dia inteiro sem reparar: uma afirmação é verdadeira quando corresponde à realidade. "As chaves estão na gaveta" é verdade se as chaves estiverem lá, e você confere abrindo a gaveta. A medida da verdade não está na sua cabeça; está na coisa. Os gregos tinham uma palavra para isso, alétheia, desvelamento: tirar o véu e deixar a realidade aparecer. A filosofia clássica fechou a ideia numa fórmula de Aristóteles e Tomás de Aquino, veritas est adaequatio rei et intellectus, a adequação entre a coisa e o intelecto. É a sua mente que se ajusta à coisa, e não o contrário: por isso a verdade se descobre, não se inventa.
Segundo degrau: o teste da coerência
Mas como conferir que a mente alcançou a coisa? Aqui entra um critério mais fino: uma afirmação é verdadeira quando se encaixa, sem contradição, num conjunto coerente. Na matemática ele parece soberano, porque não há um mundo lá fora para apontar com o dedo. Só que há uma rachadura: uma boa teoria da conspiração é perfeitamente coerente e mesmo assim pode ser inteiramente falsa. A coerência é um excelente teste da verdade, não a sua definição. Ela confirma o primeiro degrau, está a serviço da correspondência.
O abismo: o relativismo
Quando a escada fica firme, aparece uma voz dizendo que ela não leva a lugar nenhum: "não existe verdade, cada um tem a sua". Soa humilde e cobra caro, porque tira o chão de todos. E se desfaz por dentro com uma pergunta: e isso que você disse, é verdade? Se for, já existe ao menos uma verdade absoluta. Existem verdades universais, dois mais dois são quatro no Brasil e no Japão, e o princípio de não-contradição vale para todos. Não confunda opinião com verdade: a opinião é de cada um; a verdade é o critério pelo qual todas as opiniões são medidas.
O topo: quando a verdade tem um rosto
No alto da escada, o cristianismo acrescenta o que a razão sozinha não deduz: a verdade não é só uma propriedade das frases certas, é antes de tudo uma pessoa. Diante de Pilatos, que pergunta "Que é a verdade?", está Aquele que dissera "Eu sou o caminho, a verdade e a vida". E o Evangelho de João abre com a razão de tudo: "No princípio era o Logos". O mundo pode ser pensado porque foi pensado antes de ser feito; a razão encontra ordem na Criação porque a Criação saiu de uma Razão. É o que Tomás de Aquino chamou de verdade ontológica: as coisas são verdadeiras porque correspondem à ideia que Deus teve delas.
Não foram teorias soltas, mas degraus de uma mesma subida. A verdade existe, é uma só, está fora de você, e é alcançável, subindo, degrau por degrau.
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Leitura aprofundada da obra de Daniel Rops, onde Tomás de Aquino e toda a escolástica, que fundam a verdade em Deus, aparecem por inteiro.
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A verdade existe?
Sim. Existem verdades universais, válidas em todo lugar e para todos: dois mais dois são quatro no Brasil e no Japão, e uma mesma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo sob o mesmo aspecto. Negar toda verdade se contradiz: se "tudo é relativo" fosse verdade, já haveria ao menos uma verdade absoluta.
Qual a diferença entre verdade e opinião?
A opinião é de cada um; a verdade não pertence a ninguém, porque é o critério pelo qual todas as opiniões são medidas. Uma afirmação verdadeira corresponde à realidade e não tem contradições, seja quem for que a sustente.
O que significa veritas est adaequatio rei et intellectus?
É a fórmula clássica de Aristóteles e Tomás de Aquino: a verdade é a adequação entre a coisa e o intelecto. É a mente que se ajusta à realidade, e não o contrário. Por isso a verdade se descobre, não se inventa.
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Aula de origem (Comunidade NousCast): A Ideia de Verdade (F&T 1.7)