O que é o duplipensar (doublethink)?

Aula de origem: A Revolução dos Bichos, de George Orwell

Duplipensar, ou doublethink no original em inglês, é a capacidade de acreditar simultaneamente em ideias contraditórias. É um dos conceitos centrais de 1984, o romance de George Orwell publicado em 1949, e talvez o mais perturbador entre todos que o autor deixou como legado.

O mecanismo, não apenas a mentira

O duplipensar não é uma mentira comum. Mentir é dizer algo que se sabe falso, sabendo que é falso. O duplipensar é mais radical: é aceitar como verdadeiro o que se sabe, num outro nível de consciência, ser falso, sem que isso gere conflito interno. É necessário para que os cidadãos aceitem as contradições do partido sem que a estrutura mental deles rache ao meio.

Orwell ilustra o conceito com os três lemas do partido em 1984:

Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força.

Cada lema afirma diretamente o oposto do que as palavras parecem significar. Não é ironia, é doutrina: o cidadão precisa aceitar as duas metades da frase como verdadeiras ao mesmo tempo, sem resolver a contradição. A polícia do pensamento vigia e pune qualquer desvio ideológico, mostrando como um estado pode controlar não apenas as ações das pessoas, mas também suas emoções e crenças.

O duplipensar já mora na fazenda

Embora o termo tenha sido cunhado formalmente em 1984, o mecanismo já aparece plenamente formado em A Revolução dos Bichos. Napoleão se torna um ditador absoluto, as reuniões democráticas são abolidas, a história é reescrita e a memória dos feitos de Bola de Neve é totalmente apagada. Isso se assemelha diretamente ao conceito de duplipensar e apagamento histórico de 1984, onde o passado é constantemente reescrito pelo partido.

Quando Garganta de Bocão convence os animais de que suas memórias sobre os mandamentos originais estão erradas, ele não está apenas mentindo: está treinando a fazenda inteira a aceitar como verdade presente algo que contradiz o que eles próprios viveram e lembram. É o duplipensar em estado bruto, antes mesmo de ganhar nome.

Quem controla o passado, controla o futuro

Em 1984, Winston Smith trabalha no Ministério da Verdade reescrevendo documentos históricos para que o passado esteja sempre alinhado com a versão oficial do presente. É um dos momentos mais citados do livro:

Quem controla o passado controla o futuro. Quem controla o presente controla o passado.

O duplipensar é a peça que fecha esse sistema: não basta reescrever os documentos, é preciso que a própria mente do cidadão aceite a nova versão como se sempre tivesse sido verdadeira. É esse mesmo princípio que sustenta a novilíngua, a linguagem reduzida do partido que Orwell descreve como ferramenta complementar de controle, tema tratado em detalhe em o que é a novilíngua.

Por que o conceito continua útil

O duplipensar não exige um Ministério da Verdade para existir. Ele nomeia qualquer situação em que alguém aceita, ao mesmo tempo, duas versões incompatíveis da realidade porque uma delas é conveniente ou exigida socialmente. Orwell não estava apenas criticando o stalinismo: estava alertando sobre os perigos do controle absoluto do Estado sobre a mente, um alerta que a fazenda dos bichos já havia dramatizado, em escala menor, antes mesmo de 1984 ser escrito. Vale a pena revisitar a frase que resume essa traição na fazenda para ver o duplipensar em sua forma mais concentrada.

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Perguntas frequentes

O que é duplipensar (doublethink)?

É o conceito criado por George Orwell em 1984 para descrever a capacidade de acreditar simultaneamente em ideias contraditórias, aceitando-as como verdadeiras ao mesmo tempo. É o mecanismo psicológico que permite aos cidadãos de um regime totalitário aceitar as contradições oficiais do partido sem entrar em conflito interno.

Quais são os lemas do partido em 1984 que ilustram o duplipensar?

"Guerra é paz", "liberdade é escravidão" e "ignorância é força". Os três lemas afirmam diretamente o oposto do que parecem significar, e exigem do cidadão a aceitação simultânea das duas ideias contraditórias, sem que uma anule a outra.

A Revolução dos Bichos já antecipa o duplipensar?

Sim. Quando Garganta de Bocão convence os animais de que suas memórias sobre os mandamentos originais estão erradas, ele os treina a aceitar como verdadeiro o que sabem, ou sabiam, ser falso, o mesmo mecanismo que Orwell nomearia mais tarde, com precisão, como duplipensar.

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