O protagonista de Noites Brancas, de Dostoiévski, não tem nome. E não precisa, porque não é um personagem no sentido comum: é um arquétipo, um rosto que é mais do que um rosto, um espelho de quem já viveu mais por dentro do que por fora.
Não é herói, não é mártir
Não é um herói, não é um mártir. Não é um anti-herói trágico como Raskólnikov, o assassino atormentado de Crime e Castigo, nem um príncipe doce como Míchkin, o protagonista de O Idiota. É apenas alguém, alguém que sente demais, que observa o mundo de fora como se estivesse sempre do lado de dentro de uma vitrine, vendo a vida passar sem conseguir tocá-la.
Dostoiévski não descreve o sonhador com muitos detalhes físicos. Não diz como ele se parece, mas mostra como ele se sente. E o que se sente ao lado dele é uma espécie de vertigem: a vida real parece sempre distante, e é na vida sonhada que ele realmente existe. Anda pelas ruas de São Petersburgo, sim, mas é nos pensamentos que habita de verdade.
A vida vivida por dentro
Aqui Dostoiévski faz algo que marcaria toda a sua obra futura: não transforma a fuga da realidade em fraqueza, transforma em linguagem. O sonhador não é um covarde, é um criador, um poeta silencioso. Não vive nas margens porque quer, mas porque não encontra espaço no centro. O mundo é rápido, duro, literal. Ele é lento, terno, imaginativo.
Sua solidão não é dramática, é cotidiana. Não há grandes tragédias, há vazios pequenos e constantes, invisíveis aos olhos dos outros, mas que doem como agulhas. É por isso que o encontro com Nástienka é tão transformador: pela primeira vez, há alguém que o escuta, que responde, que o vê. E quando alguém vê o sonhador, ele floresce. O modo como fala com ela, como se entrega, como sorri, com uma alegria quase infantil, revela um coração que esperava há tempo demais por aquele momento.
Mas essa mesma entrega é o que torna sua história tão bonita e tão perigosa. Quem sonha demais ama demais, e quem ama demais sofre de uma maneira que o mundo, apressado e literal, muitas vezes não compreende. O sonhador vive na fronteira entre o real e o imaginado, e às vezes ele mesmo não sabe mais onde está. Ele ama não pelo que viveu com Nástienka, mas pelo que poderia ter vivido: ama o que não aconteceu, e esse é o tipo de amor que não se esquece.
Uma alma do século XIX que antecipa o século XX
É uma leitura que atravessa os séculos: uma alma do século XIX que antecipa milhões de outras do século XX, solitárias, sensíveis, transbordando por dentro e invisíveis por fora. Quantas pessoas você conhece assim? Quantas vezes você já foi assim?
Essa é a razão pela qual o sonhador não precisa de nome. No fundo, ele pode ser qualquer um de nós: o adolescente que sonha com um amor que nunca teve coragem de declarar, o adulto que carrega a lembrança de um quase que ainda arde, o idoso que olha para trás e se pergunta se aquele sempre foi ele. Dostoiévski cria, em poucas páginas, um espelho gentil e cruel diante de nós mesmos, e talvez seja por isso que, ao terminar Noites Brancas, você descubra que também sempre foi.
Para entender de que romance exatamente esse arquétipo nasce, e como Dostoiévski usa São Petersburgo para dar corpo a essa solidão, Noites Brancas, de Dostoiévski: resumo e análise é o ponto de partida deste cluster. E se essa breve novela despertou vontade de conhecer o resto da obra do autor, por onde começar a ler Dostoiévski traça o caminho.
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Por que o protagonista de Noites Brancas não tem nome?
Porque Dostoiévski o concebeu como um arquétipo, não como um personagem individual. É o sonhador que sente demais e vive de menos, e que por não ter nome pode ser qualquer um de nós.
O sonhador de Noites Brancas é um herói ou um anti-herói?
Nenhum dos dois. Não é um herói nem um mártir, não é um anti-herói trágico como Raskólnikov, nem um príncipe doce como Míchkin. É alguém que observa a vida como quem está sempre do lado de dentro de uma vitrine.
O que a fuga da realidade do sonhador representa em Dostoiévski?
Não é fraqueza, é linguagem. Dostoiévski transforma o sonhador num criador, um poeta silencioso cuja imaginação é a forma que ele encontra de viver o que o mundo real nega a ele.
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