Ofélia, a única que enlouquece de verdade

Aula de origem: Hamlet, de William Shakespeare

Se existe uma imagem que resume Hamlet para quem nunca leu a peça, é esta: uma moça deitada numa água escura, cercada de flores, o rosto sereno diante da própria morte. É o quadro Ofélia, de John Everett Millais, pintado entre 1851 e 1852, hoje na Tate Britain, em Londres. Pré-rafaelita, e provavelmente o quadro mais reproduzido de toda a língua inglesa.

E a coisa mais estranha desse quadro é o que ele revela sobre a própria peça: essa cena não existe em Hamlet. Shakespeare nunca a encena.

O quadro que descreve uma cena ausente

Na tela, Ofélia está deitada num riacho de correnteza lenta. O vestido bordado ainda está inflado pelo ar que vai escapando aos poucos, as mãos abertas para cima como quem já não segura mais nada, a boca entreaberta, os olhos abertos, fitando algo que não está mais neste mundo. Em volta dela, cada planta é botanicamente exata, porque Millais passou cinco meses pintando aquela margem folha por folha antes de sequer começar a figura.

É uma imagem de uma precisão quase científica sobre um instante que a própria peça se recusa a mostrar. Na peça, a morte de Ofélia é contada, não encenada: é Gertrudes quem relata o que aconteceu, depois, para personagens que também não presenciaram nada. A imagem mais famosa de toda a obra de Shakespeare é a pintura de uma coisa que ninguém, dentro da própria história, chega a assistir acontecer.

Isso é exatamente o que acontece com ela do início ao fim

Essa ausência não é um acaso de composição. É o resumo do que Ofélia é na peça inteira: alguém a quem ninguém realmente olha de perto enquanto sofre.

O pai a usa como isca, posicionando-a para espionar Hamlet e descobrir a causa da suposta loucura dele. O homem que ela ama a manda embora para um convento, numa cena de crueldade calculada, e pouco depois mata o próprio pai dela, às cegas, atrás de uma cortina. Ninguém, em nenhum momento, para para perguntar o que está sobrando para Ofélia depois de cada um desses golpes.

A única loucura que não é encenação

E é justamente por isso que a loucura dela pesa diferente de tudo o mais na peça. Hamlet finge a loucura, e chega a avisar de antemão que vai fingir. Cláudio finge o luto pelo irmão que ele mesmo matou. Polônio finge o cuidado paterno enquanto manipula os próprios filhos como peças de um jogo. Os amigos de infância de Hamlet fingem amizade, a serviço do rei.

Ofélia é a única pessoa daquele castelo cuja mente realmente se parte. Ela sai distribuindo flores e dizendo a coisa mais lúcida de todo o texto, num instante em que todos ao redor a acham perdida:

"nós sabemos o que somos, mas nunca o que poderemos vir a ser." (Ofélia, Hamlet, Ato IV, cena 5, tradução de D. Luís I)

Enquanto o castelo inteiro representa um papel, a única pessoa sem máscara é a que enlouquece de verdade.

O preço que não foi cobrado dele

Há uma leitura possível para essa história inteira em que o preço da hesitação de Hamlet, do cálculo, da espada que não desce quando poderia, não é pago por ele. É pago por ela.

E o desfecho confirma isso até no ritual. Quando finalmente a enterram, o padre se recusa a conceder o funeral completo, porque as circunstâncias da morte de Ofélia são suspeitas, e ninguém sabe dizer com certeza se ela caiu ao colher flores ou se entrou na água por vontade própria. A mesma dúvida sobre o que existe depois da morte, que travou a mão de Hamlet diante do próprio tio, agora nega a Ofélia as palavras inteiras sobre o próprio caixão.

Ela nunca teve a peça a seu favor. Só ficou com o quadro.

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Perguntas frequentes

Por que Ofélia enlouquece em Hamlet?

Porque é usada por todos ao redor dela sem nunca ser protegida por nenhum deles. O pai a usa como isca para espionar Hamlet, o homem que ela ama a manda para um convento e depois mata o pai dela escondido atrás de uma cortina. Ao contrário do resto do castelo, ela não finge nada: é a única cuja mente se parte de verdade.

O quadro Ofélia, de Millais, retrata uma cena da peça?

Não uma cena encenada. A morte de Ofélia nunca aparece no palco em Hamlet, ela é apenas contada por Gertrudes depois, para quem não a viu. O quadro de Millais, de 1851, hoje na Tate Britain, pinta um momento que Shakespeare deixou fora de cena, e é a imagem mais famosa de Hamlet que ninguém, na peça, chega a testemunhar.

Quem, além de Ofélia, finge algo em Hamlet?

Quase todo o castelo encena. Hamlet finge a loucura e chega a avisar que vai fingir. Cláudio finge o luto pelo irmão. Polônio finge o cuidado paterno. Os amigos de infância de Hamlet fingem amizade a serviço do rei. Ofélia é a exceção: a única que realmente se quebra.

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