Dilema moral: quando nenhuma saída é limpa

Aula de origem: Hamlet, de William Shakespeare

Existe um tipo de impasse em que qualquer coisa que você fizer vai quebrar alguma coisa. Não é indecisão, não é fraqueza, e não é falta de informação. É que as duas obrigações que puxam você para lados opostos são, as duas, verdadeiras. A filosofia moral tem um nome para isso, e vale a pena conhecer o nome, porque ele muda a forma como você carrega o próprio impasse.

O conflito que se resolve

A maior parte dos conflitos de deveres não é o que parece. Duas obrigações puxam para lados opostos, mas quando você olha de perto, uma delas é mais grave, e é ela que decide. Você falta a um compromisso para socorrer alguém que passa mal na rua. Havia dois deveres ali, chegar no horário e prestar socorro, um deles venceu, e você não fez nada de errado. É um conflito aparente: doeu escolher, mas a escolha certa existia, e ela era localizável.

O caso raro: o dilema moral genuíno

Existe o outro caso, e esse é raro. É o que a filosofia moral chama de dilema moral genuíno. As duas obrigações permanecem inteiras. Nenhuma cede. E qualquer coisa que você faça vai quebrar uma delas. Não existe saída limpa, só existe saída com custo. A diferença para o conflito aparente não é de grau, é de estrutura: no primeiro caso, olhar de perto resolve; no segundo, olhar de perto só confirma que as duas obrigações continuam de pé, inteiras, depois que você escolheu.

O caso que ilustra: Hamlet

É esse o caso em que Hamlet está preso, e vale entender por quê, porque o mecanismo é exatamente o descrito acima, sem atalho.

O fantasma do pai de Hamlet aparece e diz o que está passando com ele: condenado a caminhar de noite e a jejuar em fogo durante o dia, "até que as culpas que mancharam a minha vida estejam completamente expiadas e purificadas pelo fogo" (Hamlet, Ato I, cena 5, tradução de D. Luís I). E pede vingança contra o irmão que o assassinou.

Aí está a primeira obrigação: o filho deve ao pai. E aí está a segunda, que a mesma cena carrega sem precisar dizer em voz alta: vingança é o que a lei de Deus reserva para si, não para as mãos de um filho.

Se Hamlet obedece ao pai, mata um homem e se condena. Se obedece a Deus, deixa um assassino no trono, e trai o pai. Não existe uma terceira porta que resolva as duas ao mesmo tempo. É por isso que ele demora. Não porque não sabe o que fazer. Porque sabe as duas coisas ao mesmo tempo, e as duas continuam certas depois de ele decidir.

Nomear não resolve, mas muda a pergunta

Reconhecer um dilema moral genuíno não devolve a saída limpa que ele nega. O que muda é a pergunta que você faz a si mesmo depois. Diante de um conflito aparente, a pergunta certa é "qual dos dois deveres é mais grave aqui?", e ela tem resposta. Diante de um dilema genuíno, essa pergunta não tem resposta, porque os dois deveres seguem igualmente graves. A pergunta que resta é outra: qual custo você está disposto a carregar, sabendo que ele é custo, e não erro?

É essa distinção que separa quem se culpa por não ter achado a saída perfeita de quem entendeu que, ali, a saída perfeita não existia. Hamlet não é o homem que não conseguiu decidir. É o homem que percebeu, antes de qualquer outra personagem da peça, que as duas portas cobravam preço.

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Perguntas frequentes

Qual é a diferença entre conflito aparente de deveres e dilema moral genuíno?

No conflito aparente, duas obrigações parecem se opor, mas ao olhar de perto uma delas é mais grave, e é ela que decide: você falta a um compromisso para socorrer alguém passando mal, havia dois deveres, um venceu, e você não fez nada de errado. No dilema moral genuíno, as duas obrigações permanecem inteiras, nenhuma cede, e qualquer escolha quebra uma delas.

Por que Hamlet demora tanto para agir?

Não porque não sabe o que fazer, mas porque sabe as duas coisas ao mesmo tempo. Se obedece à ordem do pai, mata um homem e se condena. Se obedece à lei de Deus, deixa um assassino no trono e trai o pai. Não existe uma terceira porta.

Um dilema moral genuíno tem solução?

Não uma solução limpa. Há saída, mas toda saída cobra um custo, porque as duas obrigações continuam valendo mesmo depois da escolha. O que muda, ao nomear o dilema, é deixar de procurar a opção sem preço, que não existe.

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