Quase ninguém que lê Thomas Mann sabe deste detalhe: o maior escritor alemão do século XX teve o Brasil dentro de casa. Sua mãe, Júlia da Silva Bruhns, nasceu em 1851 numa fazenda de Paraty, no Rio de Janeiro.
Uma infância entre o café e a mata
Júlia era filha de um comerciante alemão radicado no Brasil e de mãe brasileira. Passou a primeira infância numa fazenda da região de Paraty, num tempo em que aquele litoral fluminense ainda vivia da economia do café que descia da serra para ser embarcado. Ainda menina, foi levada para a Alemanha, para a cidade natal do pai, e ali cresceu, se casou e formou família, mas sem deixar de carregar consigo o que tinha vivido antes.
O Brasil no colo, nas histórias de ninar
É esse o detalhe que muda como se lê Thomas Mann. Ele mesmo reconheceu, ao longo da vida, uma sensibilidade que atribuía à mãe: um temperamento mais quente, mais afetivo, mais aberto à emoção e à ironia do que a rigidez comercial da Lübeck hanseática em que nasceu e que descreveria, anos depois, no romance Os Buddenbrook. O Brasil não entra nos livros de Mann como cenário, mas como disposição, como um contraponto interno à disciplina germânica que ele também herdou do pai.
O que Paraty ainda guarda dessa época
Paraty preserva hoje o traçado e a arquitetura colonial de um porto que, no século XIX, vivia a transição entre o ciclo do ouro e o ciclo do café, antes de o comércio se deslocar para o porto do Rio de Janeiro e a cidade entrar em décadas de isolamento que, paradoxalmente, ajudaram a conservar seu centro histórico até hoje. É essa paisagem, entre serra e mar, que viu nascer a mulher que, do outro lado do Atlântico, criaria um dos maiores romancistas da língua alemã.
Conhecer essa origem não muda o enredo de nenhum livro de Mann, mas muda a lente: por trás da erudição germânica de O Eleito está também, silenciosamente, uma fazenda em Paraty.
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É verdade que a mãe de Thomas Mann era brasileira?
Sim. Júlia da Silva Bruhns nasceu em 1851 numa fazenda de Paraty, no Rio de Janeiro, filha de pai alemão e mãe brasileira. Ainda jovem, mudou-se para a Alemanha, onde se casou com o comerciante Thomas Johann Heinrich Mann e teve, entre outros filhos, o futuro romancista Thomas Mann.
O que Paraty tem a ver com a obra de Thomas Mann?
Nada diretamente narrado nos seus romances, mas tudo na formação afetiva do autor: Mann cresceu ouvindo da própria mãe histórias e um temperamento que ele descreveu como vindo de outro mundo, mais quente e mais livre que a rigidez burguesa de Lübeck, a cidade alemã onde nasceu.
Por que Paraty era uma região de fazendas no século XIX?
Porque, ainda no período colonial e no início do Império, Paraty funcionava como porto de escoamento, primeiro do ouro vindo de Minas Gerais, depois do café produzido nas fazendas da região, antes que a rota comercial migrasse para o porto do Rio de Janeiro.
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