A Ilíada começa com uma palavra que não é "Troia", nem "guerra", nem o nome de um herói: é mênin, "a ira". Quem imagina o poema de Homero como o grande livro da guerra de Troia se surpreende ao abrir a primeira página e encontrar, em lugar de exércitos, um sentimento. O resto da obra é a história do que essa raiva faz com quem a sente, e a pergunta que a atravessa, e que a aula do Nous sobre a Ilíada tomou como fio, cabe numa frase: o que fazer com a raiva que tem razão?
Mênin, a primeira palavra
O primeiro verso diz, na ordem do grego: "Canta, deusa, a ira de Aquiles, filho de Peleu, a ira funesta que impôs aos aqueus dores sem conta" (Ilíada, I, 1-2). Os trechos da Ilíada citados neste artigo seguem o texto grego de Monro e Allen (Oxford, 1920), em tradução nossa, e os números são de canto e verso.
A escolha da palavra importa. Mênis (aqui na forma mênin, que é o caso gramatical do primeiro verso) não é qualquer raiva: é uma ira de peso quase religioso, que a poesia grega reserva sobretudo aos deuses. Dá-la a um homem já avisa o tamanho do que vai acontecer. E o poema não promete contar a guerra de Troia. Ele não narra o rapto de Helena, nem o cavalo de madeira, nem a morte de Aquiles, nem o calcanhar. Cobre apenas as últimas semanas do último ano de uma guerra de dez anos, e as organiza em torno de um único sentimento de um único guerreiro. Aristóteles, na Poética, elogia exatamente isso em Homero: ele não tentou compor a guerra inteira, e por isso parece divino ao lado dos outros poetas.
Briseida, Agamêmnon e a mão de Atena nos cabelos
A guerra já dura nove anos quando o poema começa, e o primeiro problema dos gregos vem de dentro do acampamento. Agamêmnon, o comandante, recebeu como prêmio de guerra a filha de Crises, sacerdote de Apolo. O pai chega com um resgate enorme, o exército todo acha justo aceitar, e Agamêmnon o expulsa com insultos. Apolo manda uma peste, os guerreiros morrem, e Aquiles convoca a assembleia. O adivinho revela a causa, e Agamêmnon concorda em devolver a moça. Mas ele não suporta ficar sozinho sem prêmio e toma o de Aquiles, uma jovem chamada Briseida.
Repare no que há de desproporcional nesse gesto. Agamêmnon não precisa de Briseida: quer mostrar quem comanda. Num mundo em que o valor de um homem se mede pelo prêmio que os companheiros lhe dão diante de todos, tirar o prêmio de Aquiles é desonrá-lo publicamente, sem que ele tenha feito nada. Aquiles leva a mão à espada. A cena que vem em seguida é das mais curiosas do poema:
"Parou atrás dele e agarrou o filho de Peleu pela cabeleira loura, visível só para ele; dos outros, nenhum a via." (I, 197-198)
É Atena, enviada por Hera. Aquiles guarda a espada. Note para quem ele cede: não ao rei, e sim à deusa. "Quem obedece aos deuses, esses o escutam de bom grado", diz ele (I, 218). A deusa o impediu de matar Agamêmnon, mas não de insultá-lo, e Aquiles se retira da guerra. Como se pode ler a cena de dois modos, como intervenção de fora ou como a forma visível do instante em que ele decide se conter, o texto deixa os dois à mão.
Causa justa, castigo injusto
Aquiles recolhe-se junto ao mar e chama a mãe, a deusa Tétis. O que pede a ela é o ponto em que a história vira. Ele sabe que viverá pouco, e a honra é a única compensação que essa vida curta lhe deixava; por isso a ofensa de Agamêmnon pesa tanto. Mas a reparação que exige não é apenas reaver a moça. Pede que Zeus dê a vitória aos troianos, até que os gregos sejam encurralados junto aos navios e todos, o próprio Agamêmnon à frente, entendam o erro de ter desonrado o melhor deles. Zeus concorda com um aceno de cabeça, o sinal que nunca se revoga, e o Olimpo treme.
Pense um instante no que isso significa. A raiva de Aquiles, neste momento, é justa: ele foi humilhado sem motivo, por um ato de prepotência. Mas o que ele pede é que os companheiros percam a guerra, ou seja, que morram. Aquiles puxa para dentro da briga gente que não tem culpa nenhuma. É aqui que o fogo acende: a causa justa pede um castigo injusto. E quem vai se queimar primeiro?
"Aquiles era mimado?" A raiva doce como o mel
Os leitores da Ilíada se dividem. Para alguns, Aquiles é um mimado: tamanha raiva por causa de uma ofensa de cerimônia (e, depois, pela morte de um amigo) soa excessiva. Para outros, ele responde à realidade, e quem não se ofenderia?
Aristóteles ajuda a entender por que a pergunta não se resolve fácil. Na Retórica (livro II), ao tratar das paixões, ele define a ira como o desejo de devolver um desprezo, e nota que há nela um prazer. Para ilustrar, cita o próprio Aquiles. No Canto XVIII, já disposto a largar a briga com Agamêmnon, Aquiles deseja que desapareça a discórdia entre deuses e homens, e a ira, "que leva a se enfurecer até o muito sensato, a ira que, muito mais doce que o mel que escorre, cresce como fumaça no peito dos homens" (XVIII, 107-110). Doce como o mel: essa é a imagem.
Quando estamos errados, a raiva passa, porque sabemos que erramos. Quando temos razão, ela fica, e é doce. Esse é o perigo específico da raiva justa. A culpa dissolve a raiva depressa; a razão a alimenta. E Aquiles, que tem razão, ainda por cima é o melhor guerreiro do exército: ninguém consegue demovê-lo. Quando Agamêmnon, mais tarde, cede e lhe manda uma embaixada com ouro, cavalos e a própria Briseida de volta, Aquiles recusa tudo. A raiva já é maior que a causa que a gerou.
Da mênis à hýbris: a raiva que troca de alvo
Se o poema parasse na recusa, Aquiles seria um orgulhoso teimoso. A virada vem com Pátroclo, o melhor amigo, que vai à guerra com a armadura de Aquiles e morre. A notícia faz Aquiles se jogar ao chão, cobrir-se de cinzas e arrancar os cabelos. Sua mãe o avisa: se matar Heitor, morrerá logo depois. Ele aceita na hora.
Repare na mudança. Aquiles negou entrar na guerra quando lhe ofereceram tesouros; agora entrega a vida sem hesitar. Não é pela glória, é pela vingança. Ele faz as pazes com Agamêmnon e anuncia que faz cessar a ira ("agora, de fato, eu faço cessar a ira", XIX, 67), e Briseida volta, intocada. Só que a ira não cessou: mudou de alvo. A mênis contra o rei vira uma fúria contra Heitor e contra todo troiano que aparecer, e o que era ira de honra ferida vira excesso, aquilo que os gregos chamavam de hýbris, a desmedida.
O resultado é o Aquiles mais terrível do poema. Homero o compara a um incêndio numa floresta, e ele mata tanto, e lança tantos corpos no rio, que o próprio rio se levanta e protesta, no Canto XXI, contra o morticínio. Depois de matar Heitor, Aquiles amarra o corpo ao carro e o arrasta, e durante doze dias, todas as manhãs, o arrasta em volta do túmulo de Pátroclo. Venceu, e não consegue parar. Quem o condena não é um grego, é um deus: Apolo, diante dos outros deuses, diz no Canto XXIV que não resta piedade nenhuma em Aquiles. É a mesma raiva do início, só que muito mais intensa.
O que a apaga, ao fim, não é uma vitória. É o velho Príamo, rei de Troia, que atravessa à noite o acampamento inimigo, ajoelha-se diante de Aquiles e beija as mãos do homem que matou o seu filho. Aquiles chora, e a raiva, que nenhum triunfo extinguiu, se desfaz no luto de dois homens que perderam tudo. Essa cena tem artigo próprio: Por que Aquiles chora diante de Príamo.
O que a Ilíada diz a quem tem razão numa briga
A Ilíada não nos ensina a não ter raiva. Aquiles tinha motivo, e o poema o reconhece. O que a Ilíada mostra é outra coisa, mais incômoda: a raiva com razão, a raiva justa, fere até quem não merece. A paixão sem freio destrói tudo o que está na frente, e a justiça da causa não poupa quem está na frente.
Por isso o poema serve a quem já teve toda a razão numa briga e, mesmo assim, perdeu o que valia a pena. Aquiles tinha razão contra Agamêmnon, e o preço dessa razão, levado até o fim, foi Pátroclo. A lição não é ceder. É mudar a pergunta. Na próxima vez que você estiver no meio de uma briga em que tem razão, a questão deixa de ser quem tem razão e passa a ser o que sofre a pessoa do outro lado. Homero levou vinte e quatro cantos para chegar a essa pergunta, e foi preciso que um pai idoso se ajoelhasse numa tenda para que Aquiles a ouvisse.
Para ler a Ilíada canto a canto
Quem quiser acompanhar o poema com um mapa na mão encontra no Clavis Libri o guia de leitura da Ilíada, com o resumo e a análise de cada canto, os personagens e os temas. Para a briga que abre tudo, comece pelo guia do Canto I no Clavis Libri, onde estão a peste, a assembleia e a cena de Atena.
Resumo para quem tem pressa
A Ilíada começa com mênin, a ira, porque o assunto do poema é a ira de um guerreiro e não a guerra de Troia. A raiva de Aquiles nasce de uma humilhação injusta, mas o castigo que ele pede, que os gregos percam, não é justo, e é essa distância entre a causa e o castigo que move o resto da obra. Aristóteles notou que a ira é doce como o mel, e que fica quando temos razão. Com a morte de Pátroclo, a raiva troca de alvo e vira excesso, até que o luto de Príamo e Aquiles a apaga. Para o artigo completo da obra, o resumo e análise da Ilíada segue na ordem dos cantos, e a morte de Pátroclo, ponto em que a ira muda de alvo, é o tema de Quem matou Pátroclo?.
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Ver as leituras recomendadasPerguntas frequentes
Qual é a primeira palavra da Ilíada?
É mênin, "a ira", no primeiro verso: "Canta, deusa, a ira de Aquiles, filho de Peleu". Homero não abre o poema com Troia, com a guerra nem com o herói, e sim com um afeto, e o resto da obra é a história do que essa ira custa, primeiro aos companheiros de Aquiles, depois a ele mesmo.
Por que Aquiles se enfurece com Agamêmnon?
Porque Agamêmnon, o comandante dos gregos, é obrigado a devolver a filha de um sacerdote de Apolo e, para não ficar sem prêmio diante do exército, toma de Aquiles a cativa Briseida. Num mundo em que o prêmio é o sinal público do valor de um guerreiro, o gesto humilha o melhor dos gregos diante de todos, sem motivo, só para mostrar quem manda.
A ira de Aquiles é justa ou exagerada?
As duas coisas, e o poema as mantém juntas. A causa é justa: Aquiles foi humilhado sem culpa. O castigo que ele pede à mãe, Tétis, não é: que os gregos percam a guerra, o que mata inocentes. A Ilíada não resolve o dilema, mostra o preço dele.
O que é mênis e o que é hýbris na Ilíada?
Mênis é a ira de Aquiles no começo do poema, uma ira de honra ferida. Depois da morte de Pátroclo, a raiva não cessa: troca de alvo, passa de Agamêmnon a Heitor e vira excesso, o que os gregos chamavam de hýbris. É a mesma raiva, só que sem medida.
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Aula de origem: Ilíada, de Homero