Quem matou Pátroclo? A resposta curta é Heitor, e a resposta certa é mais interessante: Pátroclo morre em três golpes, de três mãos. Primeiro Apolo o desarma, sem que ele perceba. Depois o troiano Euforbo o fere pelas costas. E só então Heitor chega para o golpe de misericórdia. Quem lê a cena com atenção, no Canto XVI da Ilíada, vê que o poema faz questão dessa ordem, e é ela que explica o que acontece a seguir com a raiva de Aquiles.
Os trechos citados neste artigo seguem o texto grego de Monro e Allen (Oxford, 1920), em tradução nossa, com canto e verso entre parênteses.
A armadura emprestada
Para saber quem matou Pátroclo, é preciso começar por que ele estava lá. Aquiles, humilhado por Agamêmnon, está retirado da guerra, e os gregos perdem terreno. Do alto da nau, vê um guerreiro ferido ser trazido e manda o melhor amigo, Pátroclo, saber quem é. Homero faz o que faz tantas vezes: para a cena e conta já o fim. Sobre esse pedido banal, no Canto XI, diz que ali estava o início da desgraça de Pátroclo.
Pátroclo volta chorando e implora a Aquiles que entre na guerra. Aquiles, que ainda não pode, faz outra coisa: empresta as armas. É o plano: os troianos, ao verem a armadura, pensarão que Aquiles voltou; o exército inimigo se assusta, o fogo nos navios se apaga, e Pátroclo volta para casa. Somente isso. O poema diz com todas as letras que o pedido de Pátroclo é um engano trágico: "assim falou, suplicando, o grande insensato: pois ele ia pedir para si mesmo a morte funesta e o fado" (XVI, 46-47).
O limite que Aquiles repete
Aquiles põe uma condição, e a repete mais de uma vez: depois de afastar o fogo das naus, Pátroclo deve voltar. "E se o marido de Hera, de trovão forte, te der a glória da vitória, não queiras combater longe de mim contra os troianos amantes da guerra; porque me tornarás menos honrado" (XVI, 87-90). E acrescenta: nada de conduzir o ataque até Ílion, "para que nenhum dos deuses sempre vivos, vindo do Olimpo, intervenha; pois Apolo, que fere de longe, os ama muito" (XVI, 91-94).
A condição dá a Aquiles uma esperança e um medo, e ele os leva a Zeus numa prece: que Pátroclo afaste a guerra das naus e volte são e salvo, com as armas e os companheiros. O poema responde com uma frase seca: uma coisa o Pai lhe deu, outra recusou com um aceno. Afastar das naus o combate, isso concedeu; voltar são e salvo, recusou (XVI, 250-252).
O que Pátroclo faz com a armadura
Durante um tempo, o plano funciona. Os troianos, ao verem Pátroclo e o escudeiro brilhando nas armas, supõem que Aquiles largou a ira e fez as pazes. Pátroclo expulsa os troianos das naus, apaga o fogo e persegue os fugitivos. Mata, entre outros, Sarpédon, filho de Zeus, e o poema comenta o que se passa na cabeça dele com um verso que explica tudo: "e cometeu um grande desvario, o insensato: se tivesse guardado a palavra do filho de Peleu, teria escapado da má sorte da negra morte" (XVI, 685-687).
Pátroclo chega, enfim, às muralhas de Troia. Três vezes sobe no ângulo da muralha, e três vezes Apolo o empurra de volta. Na quarta, o deus lhe fala: "Recua, Pátroclo de linhagem divina! O destino não quer que a cidade dos altivos troianos seja destruída pela tua lança, nem pela de Aquiles, que é muito melhor que tu." (XVI, 707-709). Pátroclo recua. É a última coisa sensata que ele faz.
Primeiro golpe: Apolo desarma Pátroclo
A cena da morte começa com um deus. Apolo encontra Pátroclo coberto de névoa, de modo que ele não o vê, e lhe dá o golpe que o desarma:
"Pôs-se atrás dele e golpeou-lhe as costas e os largos ombros com a mão aberta, e seus olhos giraram. E da cabeça dele Febo Apolo derrubou o elmo." (XVI, 791-793)
O elmo rola sob os cascos dos cavalos. A lança se parte, o escudo cai no chão e o deus solta a couraça. Note o que isso significa: o elmo de Aquiles, que até então nunca tinha sido sujo de poeira, é entregue por Zeus a Heitor (XVI, 796-800). Pátroclo fica de pé, atônito, sem armas e sem defesa. Quem o desarma não é um homem, é um deus, e é a imagem do deus que bate com a mão aberta, e não com a lança, que fica na memória.
Segundo golpe: Euforbo fere por trás
Atônito, Pátroclo é ferido por trás por Euforbo, um troiano, que arranca a lança e foge, sem enfrentar o homem desarmado. O poema deixa claro o gesto: é o golpe de quem não ousa vir de frente. Pátroclo, ferido, recua para o grupo dos companheiros.
Terceiro golpe: Heitor mata
Só aí Heitor, vendo-o ferido, avança e o atinge no baixo-ventre. Ele se vangloria diante do morto, e Pátroclo, com pouca força, responde com o que se tornou a frase mais citada da cena:
"Agora, Heitor, vangloria-te à vontade: foi a ti que Zeus Cronida e Apolo deram a vitória, eles que me dominaram com facilidade, pois foram eles mesmos que me tiraram as armas dos ombros. Se vinte como tu me tivessem enfrentado, todos teriam morrido aqui, vencidos pela minha lança. Mas a Moira funesta me matou, e o filho de Leto, e entre os homens Euforbo; tu me despojas em terceiro lugar." (XVI, 844-850)
Pátroclo se recusa a dar a Heitor o lugar de matador. Ele conta os autores da própria morte: o destino, Apolo, Euforbo e, só em terceiro, Heitor. E acrescenta a profecia de que Heitor morrerá logo, pelas mãos de Aquiles (XVI, 851-854). Heitor responde com dúvida: quem sabe se Aquiles não perderá a vida antes, ferido pela minha lança? (XVI, 859-861).
A raiva que troca de alvo
Pátroclo foi para a guerra vestido de Aquiles e morreu no lugar dele. O fogo que Aquiles acendeu contra Agamêmnon queimou aquele que ele mais amava. Quando a notícia chega, Aquiles se joga no chão, se cobre de cinzas e arranca os cabelos, e o seu grito chega ao mais fundo dos mares. A mãe sobe para consolá-lo e avisa: se matar Heitor, morrerá logo depois. Ele aceita na hora.
A ira, porém, não cessa: muda de alvo. Aquiles faz as pazes com Agamêmnon, e a raiva que antes tinha um rei por destino passa a ter Heitor, e depois todos os troianos. É o que o artigo A ira de Aquiles acompanha do começo ao fim, e a decisão de pagar o preço com a própria vida é o tema de O que vale uma vida: a escolha de Aquiles. A corrida que termina nas mãos de Aquiles, três voltas em torno de Troia, está em Heitor foge de Aquiles.
Para ler a Ilíada canto a canto
O guia de leitura da Ilíada no Clavis Libri traz o resumo e a análise de cada canto, além de personagens e temas. Para a morte de Pátroclo, o guia do Canto XVI no Clavis Libri acompanha a cena passo a passo.
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Quem matou Pátroclo na Ilíada?
Heitor dá o golpe final, mas Pátroclo morre em três etapas: o deus Apolo o desarma primeiro, o troiano Euforbo o fere pelas costas e só depois Heitor o atinge e o mata. O próprio Pátroclo, ao morrer, enumera os três: o destino e Apolo, e entre os homens Euforbo, com Heitor em terceiro (Ilíada, XVI, 849-850).
Como Pátroclo morreu?
Depois de chegar às muralhas de Troia, Pátroclo é golpeado por Apolo, oculto numa névoa: o deus lhe bate nas costas com a mão aberta, derruba-lhe o elmo, quebra-lhe a lança e solta-lhe a couraça. Euforbo o fere de longe, e Heitor, vendo-o ferido e desarmado, o atinge no baixo-ventre.
Por que Pátroclo usava a armadura de Aquiles?
Porque Aquiles, ainda irado com Agamêmnon, não quis voltar à guerra, mas emprestou as armas ao amigo para que os troianos o tomassem por ele, se assustassem e recuassem das naus gregas. Era para ser só isso: afastar o fogo dos navios e voltar.
Aquiles mandou Pátroclo ir até Troia?
Não. Aquiles pediu o contrário, e mais de uma vez: depois de afastar o fogo das naus, Pátroclo devia voltar, e não conduzir o ataque até Ílion. Foi esse o limite que Pátroclo ultrapassou, e Zeus, ao ouvir a prece de Aquiles, concedeu só metade do que ele pediu.
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Aula de origem: Ilíada, de Homero