Perto do fim da Ilíada, um velho entra sozinho num acampamento inimigo, ajoelha-se diante do guerreiro que matou seu filho e beija as mãos dele. E o homem que recebe o beijo começa a chorar junto com ele. É a cena mais comentada do poema, e a pergunta que ela deixa em quem lê é simples: por que Aquiles chora? O Canto XXIV responde, e a resposta está menos na compaixão do que na lembrança de um pai.
O que vem antes da tenda
Para sentir o peso do choro, é preciso lembrar em que estado Aquiles chega ali. Ele matou Heitor no Canto XXII e, durante doze dias, todas as manhãs, arrastou o corpo em volta do túmulo de Pátroclo. Venceu, mas não consegue parar: matou quem tinha de matar, e mesmo assim a ira continua. Quem condena isso não é um grego, é um deus. No Canto XXIV, Apolo diz diante dos outros deuses: "Toda a piedade falece ao Pelida" (Ilíada, XXIV, 44, tradução de Carlos Alberto Nunes, Nova Fronteira). Pelida é Aquiles, filho de Peleu. Negar o funeral de um morto era, para os gregos, uma ofensa enorme, e é essa ofensa que os deuses mandam um velho consertar.
Os deuses mandam um homem fazer o impossível. Príamo, o rei de Troia, sai de noite levando tesouros de resgate, atravessa o acampamento grego guiado por Hermes, entra na tenda de Aquiles e se ajoelha.
A súplica de Príamo
O que Príamo diz é o que torna a cena irrepetível. Na tradução de Nunes, ele afirma que chega "a fazer o que nunca mortal fez na terra: beijo-te as mãos, estas mãos que a meus filhos a Morte levaram" (XXIV, 505-506, numeração do original). Um rei que beija a mão do matador dos seus filhos mede o gesto pela distância que percorreu, e o poema o mede com ele. Príamo ainda diz que, se Aquiles quiser matá-lo, que mate, contanto que ele possa antes abraçar o filho uma última vez.
Mas a fala de Príamo faz outra coisa, e é nela que está a resposta à pergunta do título. Ele pede a Aquiles que se lembre do próprio pai, da mesma idade que ele, no limiar da velhice.
O que Aquiles vê naquele velho
É aí que algo toca o coração de Aquiles. Ele chora porque vê no velho o próprio pai. Peleu também envelhece, e nunca mais vai ver o filho, porque, como o destino já previa, Aquiles morre em Troia. O choro de Aquiles é a consequência concreta de uma escolha feita no meio do poema, quando ele escolheu a glória e, com ela, ficar em Troia e morrer. A glória tinha esse preço, e o preço tem rosto: um pai velho, em casa, esperando.
O poema é preciso no que diz. O texto não conta que Aquiles perdoa nem que se arrepende. O que diz é que os dois, lembrando, choram: Príamo, prostrado aos pés de Aquiles, chora Heitor, o matador de homens; Aquiles chora o pai e, outras vezes, Pátroclo, e o gemido deles enche a casa (XXIV, 509-512). São dois tipos de choro. Aquiles já tinha chorado por Pátroclo, com cinzas na cabeça e um grito que chegou ao fundo do mar. Este é outro: ele chora como uma criança.
Dois homens com o coração quebrado
Há um dado que o texto acrescenta e que vale registrar: o próprio Aquiles diz a Príamo que já havia decidido devolver o corpo, por ordem de Zeus transmitida pela mãe, Tétis. A ordem dos deuses empurra, mas não explica o que acontece na tenda. O que a súplica acrescenta é o pai lembrado e a lágrima dividida. Quando o pranto de Aquiles se sacia, ele se levanta, ergue o velho pela mão e o convida a se sentar. O fogo que não se apagou em todas aquelas páginas começa, ali, a se apagar. Aquiles entrega o corpo de Heitor a Príamo e concede onze dias de trégua para o funeral.
Daí a frase que resume a cena: a vitória não apagou a raiva, o luto do outro apagou.
O quadro de Ivanov
Quem quer ver isso sem palavras pode olhar a pintura que o pintor russo Alexander Ivanov fez em 1824, Príamo pede a Aquiles o corpo de Heitor, hoje na Galeria Tretyakov, em Moscou. O quadro mostra Príamo de joelhos, com as mãos de Aquiles aproximadas dos lábios. E Aquiles não tem postura de vencedor: está sentado, com o rosto virado para o lado, como alguém que não consegue olhar nos olhos do pai que se humilha pedindo o corpo do filho.
Há ainda um detalhe no chão, o bastão com duas serpentes, símbolo do deus Hermes, que foi quem conduziu Príamo até a tenda. O pintor entendeu o que o poema diz: naquela tenda não há vencedor. Príamo perdeu o filho. Aquiles não verá mais o pai e perdeu o amigo. Sobram dois homens com o coração quebrado.
O que a cena ensina
A Ilíada começa com a palavra ira e passa a maior parte do caminho mostrando o que a ira faz. A cena da tenda não diz que Aquiles não tinha razão para a raiva; ele tinha. O que ela mostra é que a raiva justa fere até quem não merece, e que ela só cede quando alguém olha o sofrimento do outro. Por isso a pergunta que o poema deixa não é quem tinha razão, é o que sofre a pessoa do outro lado.
Para ler a Ilíada canto a canto
Se você quiser percorrer o poema inteiro com calma, o Clavis Libri tem um guia de leitura da Ilíada com resumo e análise de cada canto, personagens e temas. Para esta cena, vale começar pelo guia do Canto XXIV no Clavis Libri.
A cena fica ainda mais forte quando se sabe como o poema termina: não com a queda de Troia, e sim com um funeral. Vale ler, em seguida, como termina a Ilíada.
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Ver as leituras recomendadasPerguntas frequentes
Por que Aquiles chora diante de Príamo?
Porque a súplica do velho o faz lembrar do próprio pai, Peleu, que envelhece longe e nunca mais verá o filho, já que Aquiles escolheu a glória e a morte em Troia. Ele também chora por Pátroclo, o amigo morto. Os dois pranteiam, cada um, os seus mortos.
Aquiles chora por Heitor?
Não. O poema diz que Príamo chora Heitor, prostrado aos pés de Aquiles, e que Aquiles chora o pai e, por vezes, Pátroclo. O pranto é o mesmo, os mortos são diferentes, e é isso que aproxima os dois inimigos naquela tenda.
O que mostra o quadro de Alexander Ivanov sobre Príamo e Aquiles?
Príamo ajoelhado, com as mãos de Aquiles aproximadas dos lábios, e Aquiles sentado, com o rosto virado, sem postura de vencedor. No chão, o bastão de duas serpentes de Hermes, o deus que guiou o velho até a tenda. A leitura da aula é que ali não há vencedor.
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Aula de origem: Ilíada, de Homero