O que é ter um amor platônico, segundo Platão

Aula de origem: O Banquete, de Platão | O que é, de verdade, o amor platônico

Quando alguém diz que viveu um amor platônico, todo mundo entende a mesma coisa: um amor que ficou somente na vontade, que nunca chegou a acontecer e, por isso mesmo, ficou perfeito na lembrança. É um sentido tão firme que dispensa explicação. Só que o texto que deu origem à expressão diz, praticamente, o contrário. Esse texto é o Banquete, de Platão, e nele o amor começa, sim, com um corpo: por um rosto que alguém achou bonito.

O sentido que você usa, e de onde ele vem

O sentido corrente não nasceu do nada. A ideia de um amor que se contenta em olhar de longe tem algo de verdade: ela guarda a intuição de que existe uma beleza maior do que a posse. O que se perdeu pelo caminho foi o movimento. Na boca de quem fala hoje, "platônico" quer dizer parado. No texto de Platão, quer dizer o contrário: um amor que não parou.

Para ver isso, vale lembrar a cena. Um poeta trágico, Agatão, tinha acabado de vencer um concurso de tragédias em Atenas, no ano 416 antes de Cristo, e reúne os amigos em casa para comemorar. Como todos haviam bebido demais na véspera, combinam uma coisa curiosa: naquela noite ninguém bebe muito, e cada um faz um discurso de louvor ao amor. Os discursos vão subindo. Um fala do amor como deus antigo, outro separa o amor nobre do vulgar, o médico diz que o amor harmoniza os opostos do corpo e da natureza. Todos elogiam o amor, mas ninguém diz o que ele é. A resposta fica para o último, Sócrates.

O que o Banquete diz: o amor começa pelo corpo

Sócrates não faz discurso. Pergunta, como sempre, e leva o anfitrião a admitir o que parecia óbvio e ninguém havia dito: nós desejamos o que nos falta. Depois conta que aprendeu o resto com uma mulher, Diotima, sacerdotisa de Mantineia, e é ela quem descreve a subida que séculos depois levaria o nome de amor platônico.

E ela começa pelo corpo. Segundo Diotima, tudo parte de alguém que ama um corpo belo, e não há vergonha nenhuma nisso, porque é dali que o caminho começa. Depois a pessoa percebe que a beleza desse corpo é parente da beleza de outro, e o apego a um só se afrouxa. Descobre então que a beleza de uma alma vale mais do que a de qualquer rosto, e segue para a beleza das ocupações e das leis, e só depois, e somente depois, para a beleza do conhecimento. Na tradução de José Cavalcante de Souza (O Banquete, Abril Cultural), é assim que o texto descreve o caminho, na passagem 211c:

"subir sempre, como que servindo-se de degraus, de um só para dois e de dois para todos os belos corpos, e dos belos corpos para os belos ofícios, e dos ofícios para as belas ciências"

Repare no que a frase não faz: não manda abandonar o corpo. Ele é o primeiro degrau, e nenhum degrau é desprezado. Diotima acrescenta uma condição que quase sempre se esquece: essa subida precisa de alguém que conduza bem, porque ninguém sobe sozinho.

O erro não é começar: é parar

Aqui está a virada. Se o corpo é só o primeiro degrau, o problema de um amor não é ter começado ali. O problema é parar ali, achando que já se chegou ao topo. Quem faz isso tem a sensação de que falta alguma coisa, e falta mesmo, porque aquilo era somente um degrau.

É por isso que a falta que se sente depois de conseguir o que se queria não é, para Platão, um defeito de quem sente. É o sinal de que o desejo ainda tem para onde ir. Lá no alto da escada, diz Diotima, quem chegou vê de repente uma beleza espantosa, que não é mais um corpo belo, uma lei bela ou uma ideia bela: é o próprio Belo, aquilo pelo qual todas as coisas são belas. E o "de repente" importa, porque ninguém fabrica essa visão. A pessoa sobe de degrau em degrau e, no fim, ela é dada.

Amor platônico, paixão e amor romântico: qual é a diferença?

Quem busca a diferença entre amor platônico e paixão, ou entre amor platônico e amor romântico, costuma esperar uma comparação entre dois sentimentos. O Banquete não trabalha com essas palavras, e seria forçar o texto dizer que Platão as distingue. O que ele oferece é uma distinção de movimento, e dela dá para tirar uma resposta honesta.

O que o sentido corrente chama de amor platônico é um amor que não aconteceu. O que o texto chama de amor é o que acontece e não para: ama um corpo, reconhece a beleza em outros, sobe. Já o apego que se fecha num só, tomando a pessoa amada pelo topo da escada, é justamente o degrau em que Diotima manda não parar. E a conclusão que a aula tira disso é o contrário de um conselho para largar quem se ama: subir não é abandonar a pessoa, é amá-la sem pedir a ela que seja o topo da sua escada.

Em qual degrau você está?

Voltando à abertura, a aula resume assim: o amor platônico no sentido corrente é o amor que nunca se realizou, e no sentido de Platão é o amor que não parou. A pergunta que o texto deixa é simples e incômoda: se todas as coisas belas são degraus, em qual você está agora, e será que está confundindo o degrau com o topo?

A conversa completa, com o discurso de Diotima na ordem em que Platão o escreveu, está na aula do Nous sobre o Banquete. E se a vontade for ler o diálogo, ele cabe em uma ou duas noites, e o coração dele está na fala de Sócrates.

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Perguntas frequentes

O que é ter um amor platônico, segundo Platão?

No Banquete, não é um amor que ficou só na vontade. É um amor que sobe: começa pelo corpo, por um rosto que alguém achou bonito, passa à beleza das almas, dos ofícios e do conhecimento, e chega ao próprio Belo. O erro que o texto aponta não é começar pelo corpo, é parar nele.

Qual a diferença entre amor platônico e paixão, ou amor romântico?

O Banquete não usa essas palavras, mas a distinção que o texto permite é de movimento. Quem para num corpo belo, achando que chegou ao topo, sente que ainda falta alguma coisa, e falta mesmo, porque aquilo era um degrau. O amor de que Diotima fala é o que não para ali: o apego a um só se afrouxa, a beleza do outro se reconhece parente de outras, e o desejo continua subindo.

Para Platão, o amor platônico exclui o desejo pelo corpo?

Não. Diotima diz que tudo começa quando alguém ama um corpo belo, e que não há vergonha nenhuma nisso. O corpo é o primeiro degrau da subida, e nenhum degrau é desprezado. O que o texto condena é tomar o degrau pelo topo.

Onde Platão fala do amor platônico?

No Banquete, no discurso de Sócrates, que relata o que aprendeu com Diotima de Mantineia. A subida pelos degraus do belo está na passagem 211c. A expressão "amor platônico" aparece muitos séculos depois, para nomear essa ideia.

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