Quase todo mundo conhece a ideia de que existe, em algum lugar, a outra metade de nós. Ela vem de uma imagem linda do Banquete, de Platão, e explica muito bem a sensação de incompletude que muita gente já teve. O que quase ninguém conta é que o livro não termina nela. Mais adiante, uma personagem responde à imagem sem citar o nome do autor, e a resposta muda a pergunta. Vale conhecer as duas coisas: a história e o que ela deixa de fora.
A história de Aristófanes
No meio da noite do jantar em que todos elogiam o amor, chega a vez de Aristófanes, o comediógrafo, que escreve comédias (o anfitrião, Agatão, é quem escreve tragédias). Ele conta a história mais famosa do livro. Os primeiros seres humanos eram inteiros, com quatro braços e quatro pernas. Zeus os corta pela metade e, por isso, passam a vida inteira buscando a sua outra metade.
A imagem funciona porque nomeia uma experiência real: a de sentir que falta alguma coisa, e que esse pedaço está com outra pessoa. Se você pensou em "metade da laranja" ou em "alma gêmea", é a esta história que a expressão remete, ainda que o Banquete não use essas palavras.
O que ela deixa de fora
Agora repare no que a imagem não explica. Se amar é somente buscar a outra metade perdida, então amar é voltar a uma forma anterior, é recuperar o que já se tinha. Só que a pergunta que o livro faz, desde o começo, é outra: por que, quando conseguimos o que queríamos, continuamos sentindo que ainda falta algo? Se o amor fosse somente a metade que volta, isso bastaria. E, para quase ninguém, isso basta.
A história das metades descreve a falta, mas devolve uma resposta pequena demais. Ela não diz o que se procura, nem por que o encontro não encerra o desejo. Platão guarda a resposta para o último discurso, o de Sócrates, que por sua vez diz tê-la ouvido de uma mulher, Diotima de Mantineia.
A resposta de Diotima: ninguém ama a metade por ser metade
Diotima responde à história das metades sem citar nome. Na tradução de José Cavalcante de Souza, ela diz que corre um dito segundo o qual "são os que procuram a sua própria metade os que amam", e acrescenta:
"o que eu digo porém é que não é nem da metade o amor, nem do todo [...] pois até os seus próprios pés e mãos querem os homens cortar, se lhes parece que o que é seu está ruim." (O Banquete, passagem 205d-e)
E continua: o que cada um estima não é o que é seu só por ser seu, a não ser que se chame o bem de próprio e de seu, e o mal de alheio, "pois nada mais há que amem os homens senão o bem". Em outras palavras: ninguém ama a metade ou o inteiro somente por ser metade ou inteiro. Ama se for bom. A prova que ela dá é incômoda e certeira: as pessoas aceitam amputar o próprio pé ou a própria mão quando estão doentes. Se bastasse ser "seu", ninguém abriria mão.
O ganho: o que procuramos é o bem, e para sempre
É a virada do Banquete. O que nós procuramos não é o pedaço que nos completa: é o bem, e não um bem qualquer. Queremos o bem para nós, e queremos para sempre. A falta que sentimos não é a de uma peça que alguém tem e eu perdi, é a de algo que ainda não possuo por inteiro, inclusive o amanhã, que ninguém possui.
Daí uma das ideias mais bonitas de Diotima sobre o desejo. Como somos mortais e não temos o para sempre, fazemos o que os mortais fazem com o eterno: geramos, e geramos no belo, e deixamos algo que permanece depois de nós. Uns geram filhos, outros obras, outros poemas ou virtudes que ensinam. É o jeito humano de tocar a eternidade por um instante.
E é esse desejo do bem que a escada de Diotima organiza em degraus, do corpo ao conhecimento, tema de A escada do amor. Para ver como o livro inteiro se arma em torno disso, o ponto de partida é o resumo do Banquete. E para a pergunta que abre tudo, a da falta que aparece depois de conseguir o que se queria, o artigo sobre o mito de Eros conta de quem o amor é filho.
Nada disso desfaz a beleza da história de Aristófanes. Ela continua sendo uma ótima imagem da incompletude. Só que, no Banquete, é o ponto de partida da conversa, não o ponto final.
A tradução citada é a de José Cavalcante de Souza, e a indicação 205d-e segue a paginação de Stephanus, que serve para localizar o trecho em qualquer edição.
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Qual é o mito da alma gêmea, de Platão?
É a história contada por Aristófanes no Banquete: os primeiros seres humanos eram inteiros, com quatro braços e quatro pernas, e Zeus os cortou pela metade. Desde então cada metade passa a vida buscando a outra. A expressão "alma gêmea" é de hoje, mas é a esta imagem que ela costuma remeter.
Quem contou o mito das metades no Banquete?
Aristófanes, o comediógrafo, que escreve comédias. Não confunda com Agatão, o anfitrião, que é o poeta trágico. O discurso de Aristófanes vem no meio da noite e é a história mais famosa do livro.
O que Platão responde ao mito da alma gêmea?
Quem responde é Diotima, no discurso de Sócrates, sem citar o nome de Aristófanes. Ela diz que ninguém ama a metade, nem o inteiro, somente por ser metade ou inteiro: ama se for bom. A prova é que as pessoas aceitam amputar o próprio pé ou a própria mão quando estão doentes. O que procuramos é o bem, e para sempre.
Para Platão, existe uma metade que me completa?
Não como o mito sugere. Para Diotima, o amor não é voltar a uma forma anterior nem recuperar o que já se tinha. É desejo do bem, e como somos mortais, esse desejo se expressa em gerar no belo, deixando algo que permanece depois de nós.
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Aula de origem: O Banquete, de Platão | O que é, de verdade, o amor platônico