A Apologia de Sócrates é curta o bastante para se ler em uma tarde, e é exatamente isso que vale a pena fazer antes de repetir a frase mais famosa que ela guarda. O texto de Platão reconstrói o julgamento de Sócrates em Atenas, no ano de 399 a.C., e é o relato mais próximo que temos das palavras que ele disse diante do tribunal que acabaria por condená-lo à morte.
O que é a obra
"Apologia", aqui, não quer dizer pedido de desculpas: vem do grego apología, defesa. É exatamente isso que o texto é, um discurso de defesa, dividido em três momentos que seguem o próprio rito do tribunal ateniense. Primeiro, Sócrates responde às acusações, e o julgamento termina em veredito de culpa por margem apertada. Depois, já condenado, ele tem o direito de propor uma pena alternativa à que os acusadores pediram. Por fim, fala aos dois grupos, aos que votaram pela morte e aos que votaram pela absolvição, em duas despedidas diferentes.
Não é um tratado. É um homem falando para salvar, ou não salvar, a própria vida, e essa diferença é o que torna o texto tão direto de ler.
As passagens que a fama simplificou
Boa parte do que se repete sobre Sócrates sai desta obra, quase sempre cortado ao meio. A mais conhecida é a frase "só sei que nada sei", que não está na Apologia nessa forma. O que o texto traz, em 21d, é mais estrito: "não acredito saber aquilo que não sei" (Platão, Apologia de Sócrates, 21d). Mais adiante, em 29d, ele explica por que passou a vida incomodando os atenienses: para lembrar cada um de cuidar da própria alma antes do dinheiro e da reputação. Nenhuma das duas passagens é o centro deste artigo, e nenhuma delas precisa ser aqui, porque a que interessa agora é a terceira, e é a que quase ninguém lê no contexto em que foi dita.
A frase dita no pior momento possível
Já condenado, na hora de propor a própria pena, Sócrates resume, em uma frase só, o que defendera ao longo de toda a fala, que vale a pena examinar a própria vida e a dos outros:
"Uma vida sem esse exame não é digna de ser vivida." (Platão, Apologia de Sócrates, 38a, na edição As Grandes Obras de Platão, Mimética, 2019, trad. Carlos Alberto Nunes)
Hoje essa linha circula como sabedoria de calendário, frase bonita para abrir o ano. Ela não nasceu assim. Foi dita por um homem de setenta anos, em um tribunal, na única brecha em que ainda podia salvar a própria pele: o costume ateniense abria a réus condenados a chance de propor uma pena alternativa à da acusação, e o exílio, aceito quase sempre pelo tribunal, era a saída óbvia. Bastava concordar em viver calado em outra cidade.
Sócrates recusa. E é recusando que ele diz a frase: estão lhe oferecendo a vida em troca do silêncio, e ele responde que uma vida assim não é vida de gente.
Depois do veredito, ainda houve tempo
A Apologia termina com a condenação, mas a história de Sócrates não. Depois dela ainda houve dias, amigos que organizaram uma fuga, e uma última conversa sobre se fugir seria justo. Essa conversa é outro diálogo curto de Platão, o Críton, e vale ler os dois seguidos.
Por que vale a pena ler o texto inteiro
O que a Apologia entrega, e nenhum resumo substitui, é o tom: a serenidade de quem já decidiu o que uma vida vale antes de saber se vai perder a dele. São poucas páginas, e ela está entre as nossas leituras recomendadas para quem quer conhecer Sócrates pelas próprias palavras, não pelas frases que sobraram dele.
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Do que trata a Apologia de Sócrates?
É o relato de Platão do julgamento de Sócrates em Atenas, em 399 a.C. Reúne o discurso de defesa contra as acusações, a contraproposta de pena depois da condenação e o discurso final ao tribunal.
O que significa "uma vida não examinada não vale a pena ser vivida"?
É a frase com que Sócrates justifica recusar o exílio em troca da vida. Dita por um homem de setenta anos, já condenado, ela diz que viver calado, sem examinar a própria vida, não é viver de verdade.
A Apologia de Sócrates é difícil de ler?
Não. É um dos textos mais curtos de Platão, sem aparato técnico, porque é um discurso de defesa, feito para ser ouvido por um tribunal comum. Dá para ler inteiro em uma tarde.
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