Só sei que nada sei: o que Sócrates disse

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"Só sei que nada sei" é, provavelmente, a frase mais repetida atribuída a um filósofo. Ela aparece em legenda de foto, em citação motivacional, em qualquer lista pronta de sabedoria antiga, e atrai por um motivo simples: soa como a confissão mais franca que alguém já fez. O detalhe é que essa frase, com essas palavras, não está em nenhum texto que reste de Sócrates. E o que ele disse de fato, na Apologia, é mais preciso, e serve para muito mais coisa do que a versão que circula por aí.

Por que essa frase pegou

Existe uma razão para "só sei que nada sei" ter atravessado dois mil e quatrocentos anos: ela resolve, em seis palavras, uma tensão que qualquer pessoa sente perto de quem sabe muito. Coloca o homem mais lembrado da história da filosofia no mesmo chão de quem ainda está aprendendo, e isso soa como humildade genuína, o contrário da arrogância que se espera de um sábio. É curta, é citável, e carrega o prestígio do nome dele. Faz sentido que essa versão tenha vencido a disputa por espaço na memória coletiva, mesmo sem ser exatamente o que ele disse.

O que a Apologia diz, de fato

O relato mais próximo do julgamento de Sócrates é a Apologia de Sócrates, escrita por Platão, que esteve na plateia daquele tribunal. É lá, na passagem conhecida como 21d, que ele explica o que descobriu depois de percorrer Atenas interrogando políticos, poetas e artesãos, atrás de alguém mais sábio do que ele para devolver o título que o oráculo de Delfos lhe tinha dado. Na edição de referência que o Nous usa para citar Platão, "As Grandes Obras de Platão" (Mimética, 2019, tradução de Carlos Alberto Nunes), o núcleo dessa passagem é este: aquilo que ele não sabe, ele também não pensa saber.

Sinta a diferença entre as duas frases, porque ela é o eixo de toda leitura correta de Sócrates. "Nada sei" é uma confissão total, e por ser total é também inútil, porque quem não sabe absolutamente nada não tem de onde partir para investigar coisa alguma. O que Sócrates diz é mais estreito, e por isso funciona: ele apenas se recusa a somar, ao que ignora, a suposição de que não ignora.

A conta que ele fecha melhor

Ele contabiliza melhor do que os outros, não porque sabe mais, e sim porque não acrescenta ao próprio balanço um crédito que não tem. É exatamente esse pequeno excedente, a ignorância que se acredita saber, que vira o único obstáculo que o estudo sozinho não resolve. Quem já está convencido de que sabe não vai procurar, e é por isso que o risco nunca foi ignorar. Foi ignorar sem saber que se ignora.

Por que a versão real serve para mais coisa

"Nada sei" é uma frase que se admira e se guarda. "Aquilo que eu não sei, eu tampouco penso que sei" é uma frase que se usa: pede para você separar, dentro do que carrega como certeza, o que já examinou de fato daquilo que apenas herdou e nunca conferiu. É um critério de trabalho, não um elogio à própria modéstia, e é bem mais difícil de aplicar do que de repetir, porque exige ir devagar justamente sobre as convicções que você nunca parou para checar.

O que fica

A versão popular de Sócrates rende uma frase bonita para guardar. A versão real rende um método, o mesmo que sustenta a maiêutica e as perguntas que não afirmam nada, só investigam. É esse fio que atravessa a aula do Nous sobre Sócrates, a partir do dia em que um oráculo respondeu a uma pergunta que ninguém devia ter feito.

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Perguntas frequentes

Sócrates disse mesmo "só sei que nada sei"?

Não com essas palavras. A frase circula como resumo popular, mas não está na Apologia de Sócrates nem em nenhum outro texto que reste dele. O que está no texto, em 21d, é mais preciso: "aquilo que eu não sei, eu tampouco penso que sei".

O que Sócrates disse então, na Apologia?

Na passagem 21d, ele explica que não acrescenta, ao que ignora, a suposição de que não ignora. Ou seja, ele não afirma saber nada, apenas se recusa a supor que sabe aquilo que não sabe. É uma frase de método, não de desespero.

Por que a versão real é melhor do que a frase popular?

Porque "nada sei" é uma confissão total e, por isso, inútil: quem não sabe absolutamente nada não tem de onde partir. A frase real aponta o risco certo, que não é ignorar, e sim ignorar sem saber que se ignora, o único tipo de ignorância que o estudo sozinho não resolve.

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