Como termina a Ilíada

Aula de origem: Ilíada, de Homero

Quem chega à Ilíada esperando o fim da guerra de Troia não o encontra. O poema não termina com a queda da cidade, nem com o cavalo de madeira, nem com a morte de Aquiles. Termina com um funeral, o de Heitor. Essa escolha de Homero é a chave para entender o que o poema quis dizer desde o primeiro verso.

O que a Ilíada não conta

Para entender o final, vale saber primeiro o que a Ilíada deixa de fora. Ela não conta o rapto de Helena, não conta o cavalo de madeira oferecido pelos gregos, não conta a morte de Aquiles e tampouco o calcanhar de Aquiles. O poema cobre somente as últimas semanas do último ano de guerra. Quem ouvia Homero já conhecia a história de Troia; o que o prendia era como as coisas aconteciam.

E o poema já diz, no primeiro verso, qual linha vai tomar toda a obra: mênin áeide, "canta, ó deusa, a cólera". Não é a guerra em geral, nem um herói qualquer. É a ira de Aquiles.

O final: do funeral de Heitor ao último verso

A ira de Aquiles chega ao fim no Canto XXIV. Depois de matar Heitor, ele arrasta o corpo em volta do túmulo de Pátroclo durante doze dias, e só para quando Príamo, o velho rei de Troia, entra de noite na tenda dele e pede o filho de volta. O que acontece ali é assunto de outro artigo, por que Aquiles chora diante de Príamo. O que importa aqui é o que vem depois.

Aquiles devolve o corpo a Príamo e concede uma trégua para o funeral. Pelo que Príamo pede e Aquiles aceita, são nove dias de pranto em casa, a pira no décimo, o túmulo no décimo primeiro, e a guerra só volta no décimo segundo, se for preciso. Os troianos cumprem tudo: levam Heitor à pira, apagam o fogo com vinho, recolhem os ossos brancos numa urna de ouro, cobrem-na de pedras e erguem o túmulo, com vigias postos para o caso de os gregos atacarem antes da hora. Depois, banquete no palácio de Príamo.

O poema fecha assim, na tradução de Carlos Alberto Nunes (Nova Fronteira): "Os funerais estes foram de Heitor, domador de cavalos." (Ilíada, XXIV, 804, numeração do original). É um verso sem vitória e sem cidade em chamas.

O que esse fim diz

O poema que começa com a ira, com a cólera de um guerreiro, termina com o enterro do próprio inimigo. Quem abre e quem fecha o livro é a mesma figura, Aquiles, mas o que o fecha não é o grito dele: é o rito dos que perderam.

Há duas coisas a notar. A primeira é que o final devolve a Heitor o que o poema lhe tinha tirado, o funeral. No Canto XXII, Aquiles havia recusado qualquer acordo e negado o corpo aos cães; negar o enterro era, para os gregos, uma ofensa enorme. É o direito de enterrar os próprios mortos, tema que Sófocles retomaria na Antígona. A segunda é que o último verso fala de Heitor, em Troia, com os troianos. O epíteto "domador de cavalos" é o mesmo que o poema usara para ele em vida, no meio da corrida pelas fontes. O livro dos gregos termina honrando um troiano.

O que o final deixa em aberto

O fim não resolve tudo. A queda de Troia e a morte de Aquiles são anunciadas dentro do poema, e o próprio Heitor, morrendo, diz que Aquiles cairá junto às Portas Ceias, mas nenhuma das duas é narrada. Fica também em aberto se a escolha de Aquiles, a glória em troca de uma vida curta, valeu a pena. Quem levanta a dúvida é o próprio Aquiles, que reaparece na Odisseia quando Odisseu o encontra no Hades. Esse encontro faz parte da leitura do outro poema, e está no artigo sobre a Odisseia, de Homero: resumo e análise.

Se a Ilíada termina assim, a pergunta que ela deixa não é quem ganhou a guerra. É o que fazer com a raiva que tem razão: ela fere até quem não merece, e só cede quando alguém olha o sofrimento do outro.

Para ler a Ilíada canto a canto

Para ver o final no texto, o Clavis Libri tem um guia de leitura da Ilíada com resumo e análise de cada canto, personagens e temas. O último canto está no guia do Canto XXIV no Clavis Libri.

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Perguntas frequentes

Como termina a Ilíada?

Com o funeral de Heitor. Aquiles devolve o corpo ao pai, Príamo, e concede uma trégua para os ritos; os troianos queimam o corpo, recolhem os ossos numa urna e erguem o túmulo. O último verso é: "Os funerais estes foram de Heitor, domador de cavalos".

A Ilíada termina com a queda de Troia?

Não. A queda de Troia, o cavalo de madeira e a morte de Aquiles ficam fora do poema, que cobre apenas as últimas semanas do último ano de guerra. A morte de Aquiles é anunciada dentro do texto, mas não narrada.

Qual é o último verso da Ilíada?

Na tradução de Carlos Alberto Nunes: "Os funerais estes foram de Heitor, domador de cavalos". É o verso 804 do Canto XXIV, numeração do original grego.

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