O maior guerreiro de Troia chega diante de Aquiles, foge e dá três voltas em toda a cidade, escapando do inimigo. Muita gente lê isso como covardia, e a leitura tem fundamento: Heitor corre, e corre de verdade. Só que Homero põe um detalhe no caminho dessa corrida, e é ele que faz da cena do Canto XXII uma das mais tristes do poema.
O que se vê na superfície: um herói que foge
O contexto ajuda a ver o tamanho do que se lê. Aquiles voltou à guerra, vingando Pátroclo, e avança como um incêndio na floresta. Os troianos fogem para dentro da cidade. Só Heitor fica do lado de fora. O pai o implora que entre, a mãe implora que entre, e ele permanece. Enfrenta Aquiles, ou melhor, permanece para enfrentar e, quando o inimigo se aproxima, foge.
Homero não disfarça. Ele escreve que Heitor tem medo, e o próprio Heitor, mais adiante, admite a fuga: diz que não fugirá mais, como fez nas três voltas. Quem lê o canto como a queda de um covarde está, portanto, lendo o que o texto escreveu.
O detalhe: as fontes onde se lavava roupa
O detalhe está em por onde se corre. Na descrição de Homero, a perseguição passa diante das fontes onde as mulheres de Troia lavavam as roupas em tempos de paz, antes de os gregos chegarem. O medo de Heitor não está escondido, mas repare onde o poeta o coloca: a cena mais violenta do livro atravessa o lugar que representava a calma, a vida comum, a vida doméstica.
É isso que muda a leitura. A corrida de dois guerreiros de armas na mão, de vida e morte, passa por onde as troianas lavavam as roupas, e a cidade que Heitor defende aparece naquilo que ela era antes da guerra. A vida normal está ali, ao lado do medo, e o leitor a vê no mesmo instante em que ela está perdida. Séculos depois, Virgílio também falaria desse aspecto, e o mesmo efeito reaparece no fim da Eneida.
Heitor sabia o que o esperava
A fuga fica mais compreensível quando se lembra do que Heitor já sabe. No Canto VI, ele diz à esposa, Andrômaca, que Troia vai cair, e que o seu maior medo não é a queda em si, mas ver a esposa escrava dos gregos. Ele volta para a guerra de olhos abertos. No Canto XXII, sozinho junto ao muro, discute consigo mesmo e rejeita a ideia de negociar: Aquiles não teria piedade e o mataria desarmado, como se mata uma mulher. Há a vergonha de ter perdido o exército, e a decisão de morrer com fama.
Depois das três voltas, quando já não há mais fuga possível, Heitor propõe um pacto: que o vencedor entregue o corpo do vencido para os ritos funerais. Aquiles recusa. Na tradução de Carlos Alberto Nunes (Nova Fronteira), ele diz que é impossível haver "paz e confiança" entre homens e leões (XXII, 261-262, numeração do original). Heitor cai e pede que o corpo não seja dado aos cães, e Aquiles nega.
Três voltas da fuga e o corpo arrastado: duas cenas
Há uma confusão comum que vale desfazer. As três voltas são da fuga de Heitor, vivo, ao redor da cidade de Troia. O corpo arrastado é outra cena, mais tarde: Aquiles fura os pés do morto, amarra-o ao carro e o arrasta pela cidade, diante dos pais, e depois, durante doze dias, todas as manhãs, em volta do túmulo de Pátroclo. Quem junta as duas cenas acaba atribuindo ao cadáver as voltas que pertencem ao homem vivo que corria.
Um detalhe do texto para quem confere: o poema diz que a corrida dá três voltas e, na quarta vez que chegam às fontes, Zeus estende a balança de ouro e pesa a sorte dos dois. O prato de Heitor desce. A fuga acaba nas fontes, no mesmo lugar onde o detalhe estava.
Por que a cena é triste
O medo de Heitor não o diminui. O que a cena faz é mostrar a que preço ele ficou fora dos muros: ele corre pela própria vida, passa diante do que perdeu antes de perder a vida, e ainda assim, no fim, para e enfrenta Aquiles. O narrador diz que não era uma corrida por um animal de sacrifício nem por um escudo, os prêmios habituais, mas pela vida de Heitor, domador de cavalos.
Por isso a pergunta do título tem uma resposta que não é nem sim nem não. Heitor teve medo, e Homero o conta. Mas o medo passa pelo lugar onde as mulheres lavavam roupa, e é essa a imagem que fica.
Para ler a Ilíada canto a canto
O guia de leitura da Ilíada no Clavis Libri traz o resumo e a análise de cada canto, com personagens e temas. Para esta cena, o passo seguinte é o guia do Canto XXII no Clavis Libri.
O que Aquiles faz com o corpo depois, e o que o faz parar, é assunto de outro artigo: por que Aquiles chora diante de Príamo.
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Ver as leituras recomendadasPerguntas frequentes
Heitor fugiu de Aquiles por covardia?
Homero não esconde que Heitor tem medo, e o próprio Heitor admite depois que fugiu. Mas ele havia ficado fora dos muros enquanto todos os troianos entravam, mesmo com o pai e a mãe implorando, para enfrentar Aquiles. A cena mostra um homem com medo que, ainda assim, não entrou.
Quantas voltas Heitor deu em volta de Troia?
Três voltas, na fuga do Canto XXII. É a cena das três voltas: Heitor corre ao redor da cidade, perseguido por Aquiles, e passa pelas fontes onde as mulheres lavavam roupa em tempos de paz.
As três voltas são as mesmas em que Aquiles arrasta o corpo de Heitor?
Não. São duas cenas diferentes. As três voltas são da fuga de Heitor, vivo, ao redor da cidade de Troia. O corpo é arrastado depois, no carro de Aquiles, em volta do túmulo de Pátroclo, durante doze dias, todas as manhãs.
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