Você jurou que não compraria mais livros este ano, e no mês passado comprou seis. Há trechos grifados, anotações, vídeos salvos para ver depois. E quando alguém lhe pergunta o que ficou de um desses livros, falta a palavra. Isso acontece com quase todos nós, e uma coisa vale dizer logo: não é falta de capacidade. Platão descreveu essa estante no Fedro, há mais de dois mil anos, e o que ele diz muda a pergunta. Em vez de "por que eu esqueço?", ele pergunta onde o saber de uma pessoa está guardado.
A cena da estante
Repare no que a estante tem. Livros que você comprou, trechos que você marcou, anotações que você fez, vídeos que você salvou. Tudo isso é seu, e tudo isso está fora de você. Se alguém lhe pedisse hoje que falasse de um deles sem abrir nada, só o que está dentro de você poderia falar.
A aula de origem deste artigo abre com essa cena de propósito, e com uma frase de Platão que parece não combinar com ela: ele escreveu um livro para dizer que livro não ensina. É um dos livros mais bonitos que ele escreveu, e dentro dele há uma história sobre um rei que recusa um presente. O presente é a escrita.
O rei que recusou a escrita
A história está no fim do Fedro e cabe em um parágrafo. Um deus egípcio, Theuth, inventor dos números, da geometria e das letras, mostra as suas artes ao rei Thamus. Sobre a escrita, diz que ela tornará os egípcios mais sábios e melhorará a memória deles. O rei responde que quem inventa uma arte não é o melhor juiz do que ela vai causar, e que a escrita produzirá o contrário: quem confiar nas letras deixará de exercitar a memória e se lembrará de fora, por sinais alheios, e não de dentro. O mito inteiro, com o paradoxo de Platão ter escrito justamente isso, tem artigo próprio: Mito de Theuth: por que Platão desconfiava da escrita. Aqui interessa o outro lado dele, o do leitor.
Memória é o que mora em você
A frase do rei que importa para quem esquece é esta: "tu não inventastes um auxiliar para a memória, mas apenas para a recordação" (Fedro, 275a). Parece um jogo de palavras, e não é.
Memória, nesse sentido, é o que mora em você. Recordação é o lembrete que te avisa de fora. Um grifo é um lembrete. Uma anotação é um lembrete. O vídeo salvo é um lembrete que ainda nem foi aberto. Todos eles funcionam, e nenhum deles é o saber. São sinais de que existe algo a saber, postos numa superfície.
O rei continua, e o que ele diz depois é desconfortável para quem tem muitos livros: a escrita dará aos alunos "uma aparência de sabedoria, e não a verdade", porque eles receberão muitas informações sem instrução e se julgarão sábios (Fedro, 275a). Não é um insulto a quem lê. É a descrição de uma sensação que quase todo leitor conhece, a de que, tendo passado pelo livro, já se está do outro lado dele.
A palavra grega que o rei usa para a invenção é phármakon, que quer dizer remédio, e também veneno. Para o rei, a escrita tem os dois lados.
Acumular não gira ninguém, e também não faz ficar
Se você leu o artigo Ler muitos livros faz bem? O que Platão diria, reconhece o terreno. Lá a questão era a direção do olhar: acumular não faz ninguém virar o rosto para a luz. O Fedro dá o passo seguinte, e ele é este: além de para onde olhamos, importa onde o saber mora. Um saber que mora na estante, nos grifos e na lista de leituras do ano não é ainda o seu. São duas perguntas diferentes, e as duas valem para quem sente que lê muito e muda pouco.
A pintura que não responde
Sócrates explica por que a escrita falha com uma imagem. O texto, diz ele, se parece com a pintura: as figuras pintadas têm a atitude de pessoas vivas, mas, se alguém as interroga, "conservar-se-ão gravemente caladas" (Fedro, 275d). Um texto diz sempre a mesma coisa. Não sabe com quem fala, não se defende, não explica.
Agora volte à pergunta que lhe fizeram sobre o livro. Se o que você tem dele é só o que está na página, você está na situação da pintura: ele diz o que diz, e quando alguém pergunta algo um pouco ao lado, fica calado. A diferença entre o livro e você é que você pode ter outra coisa além dele.
O saber que responde
Sócrates conhece essa outra coisa e a chama de outra escrita, a legítima: a que se escreve, com conhecimento, na alma de quem aprende (Fedro, 276a). É esse o saber que responde. É aquilo que você consegue dizer com a sua própria boca e defender quando alguém discorda.
Há um teste simples dentro dessa ideia, e ele não exige técnica nenhuma. Pergunte-se, de um livro que você leu: o que eu diria sobre ele se alguém duvidasse dele diante de mim? Se a resposta existe, o livro entrou. Se o que vem é "tenho grifado, deixa eu ver", você tem o lembrete e ainda não tem a memória. Platão não dá método para passar de um a outro, e é melhor não inventar um em nome dele. O que ele indica é o lugar onde isso acontece.
Por que o problema nunca foram os livros
Esse lugar é a conversa. O paradoxo do começo se desfaz aí: Platão escreveu, sim, mas escreveu diálogos, conversas que exigem de quem lê uma resposta e uma justificativa. O livro dele não quer ser o depósito do saber. Quer ser o começo de uma conversa.
E o que vale para o livro dele vale para os que estão na sua estante. O problema nunca foram os livros. É que eles não conversam com você. O que defende, o que explica, o que discute é o que está dentro de você, e isso quase sempre acontece na presença de outra pessoa: alguém que discorda, que pergunta, que tem uma posição diferente da sua e o obriga a dizer o que entendeu. Por isso, no Nous, a experiência que propomos é a de lermos juntos, conversar, dialogar, ver as impressões que cada um teve da própria leitura, aquilo que ficou escrito.
O que fazer com a estante
Nada disso é motivo para deixar de comprar livros, de grifar ou de anotar. Os lembretes têm valor, e Platão, que escreveu uma obra inteira, é o último a recomendar abandoná-los. A mudança é de lugar. A estante é onde o saber começa, e a pergunta que fica, a do fim da aula, é esta: de tudo o que lemos, quanto já foi escrito em nós, e quanto ainda está só na estante?
Uma advertência sobre as passagens: as indicações entre parênteses são a numeração Stephanus, que localiza cada trecho do Fedro em qualquer edição que você tenha à mão, e as palavras podem variar de uma tradução para outra. Para ver o mesmo diálogo por inteiro, comece por Fedro, de Platão: resumo e como ler, e para a ponte entre essa ideia e a de São Paulo, Vós sois a nossa carta: Platão, Paulo e a escrita na alma.
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Ver as leituras recomendadasPerguntas frequentes
Por que eu esqueço tudo que leio?
Platão não responde com neurociência, e este artigo também não. A resposta que o Fedro oferece é uma distinção: o que você guarda em marcas de fora, como grifos, anotações e vídeos salvos, é recordação, um lembrete que avisa de fora. Memória é o que mora em você. Quando alguém pergunta o que ficou de um livro e falta a palavra, quase sempre o que existe é só o lembrete.
Como lembrar do que li, segundo Platão?
Platão não dá uma técnica de memorização, e prometer uma seria inventar. O que o Fedro diz é onde o saber precisa morar para ser seu: no que você consegue dizer com a própria boca e defender quando alguém discorda. Na prática, isso aponta para conversar sobre o que se leu, com alguém que pergunte e que não concorde com você.
Qual a diferença entre memória e recordação em Platão?
No Fedro, memória é o que mora dentro de você, e recordação é o lembrete que te avisa de fora. Platão põe a distinção na boca de um rei egípcio, que diz ao inventor da escrita que ele não inventou um auxiliar para a memória, mas só para a recordação (Fedro, 275a).
O que é a escrita legítima de que Sócrates fala no Fedro?
É a que se escreve, com conhecimento, na alma de quem aprende. Sócrates a contrapõe ao texto escrito, que se parece com uma pintura: parece vivo, mas, se você pergunta, fica calado. A escrita legítima é o saber que responde, o que você consegue dizer e defender.
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Aula de origem: Fedro, de Platão