O Fedro, de Platão, é o diálogo em que Sócrates sai de Atenas, fala contra o amor com o rosto coberto e depois, de rosto descoberto, faz a retratação que é o coração do livro. A primeira metade trata do amor e da beleza, e a segunda, da palavra: o que faz um discurso conduzir alguém à verdade, e por que Platão, no fim, desconfia da própria escrita. Parecem dois livros costurados, e este resumo segue a ordem do texto para mostrar que não são. Termina com um conselho prático de leitura.
Fora dos muros
A cena já começa estranha. Sócrates, que quase nunca saía de Atenas, atravessa os muros da cidade com um jovem chamado Fedro. Os dois estão descalços, caminham com os pés dentro do riacho, o Ilisso, e se sentam à sombra de uma árvore grande. O próprio Sócrates acha graça da situação: diz que os campos e as árvores não querem lhe ensinar nada, e que quem ensina são os homens da cidade (Fedro 230d).
Fedro traz na mão um texto que o encantou. É um discurso escrito por Lísias, um dos oradores mais famosos de Atenas, e a tese é provocadora: seria melhor ceder a quem não nos ama do que a quem nos ama. O apaixonado é ciumento, instável, perde a cabeça. O outro é prático, confiável, estável.
É um texto muito bem escrito. E é justamente aí que está o problema que vai atravessar o livro inteiro.
A cabeça coberta e o sinal que detém
Fedro pede que Sócrates faça um discurso melhor sobre a mesma tese, e Sócrates aceita, mas faz uma coisa curiosa: cobre a cabeça com o manto antes de começar. Diz que é para terminar logo e para não ter vergonha de olhar para o amigo (237a). E faz um discurso brilhante contra o amor.
Quando se levanta para ir embora, alguma coisa o segura. É o sinal interior de Sócrates, o daimónion, que nunca manda fazer nada e só impede, e que já tem artigo próprio. Ele aparece quando Sócrates vai atravessar o riacho (242b). Sócrates entende o recado: falou mal de Eros, e Eros é um deus. Então tira o manto da cabeça e faz uma retratação, a palinódia, que ele anuncia de cabeça nua (243b).
Guarde esse gesto. O primeiro discurso foi feito com o rosto escondido, e o verdadeiro, com o rosto à mostra. Um fala para vencer, o outro fala porque é verdade.
A loucura que vem dos deuses
A retratação começa virando do avesso o que Lísias tinha dito. O argumento dele era simples: o apaixonado é louco, e por isso é melhor evitá-lo. Sócrates responde que isso só valeria se toda loucura fosse um mal. Ele diz que os maiores bens nos vêm por meio da loucura, quando ela é dada por dom divino (244a).
Existe, portanto, uma loucura que não leva o homem para baixo, e sim para cima. Há a do profeta, que fala o que não sabia. Há a dos ritos que purificam. Há a do poeta possuído pelas Musas: sem ela, diz Sócrates, quem só tem técnica faz uma poesia que não vale nada (245a). E há a mais alta de todas, a do amante.
Repare que a tese de Lísias parecia sensata, do jeito que o cálculo é sensato. Ela protege você do sofrimento. Mas protege você também de subir.
As asas, a beleza e o aperto que é memória
Para explicar por que o amor é essa loucura, Sócrates conta o mito mais famoso do livro: a alma é como um carro alado, com um cocheiro e dois cavalos, um que obedece e outro que puxa para baixo (246a). O canal já contou esse mito na aula "Por que ler Platão?", e aqui importa o que vem depois.
Antes de nascer, as almas seguiam os deuses pelo céu e contemplavam as Formas. Depois caíram, perderam as asas e esqueceram. É a reminiscência, ideia que tem artigo próprio em Reminiscência em Platão: conhecer é reconhecer. E Sócrates diz uma coisa que muda a nossa relação com a beleza. Das coisas que a alma viu lá em cima, a justiça, a temperança e a sabedoria quase não deixam rastro visível aqui embaixo. A beleza deixa. Só ela recebeu o privilégio de ser a mais visível e a mais amável (250d).
Por isso, quando alguém vê um rosto verdadeiramente belo, acontece algo físico. Sócrates descreve arrepio, calor, febre. Diz que a alma está lembrando, e que as penas das asas, que estavam secas, começam a brotar de novo, e que isso dói e alegra ao mesmo tempo, como os dentes que nascem (251).
A aula lê esse trecho assim: o aperto sem nome que você talvez já tenha sentido diante de um rosto, de uma música, de uma paisagem bela, como se estivesse num lugar onde nunca esteve, é memória. E o amor verdadeiro, nessa leitura, não é o desejo de possuir aquele rosto, é o desejo de voltar para onde ele aponta. É por isso que o amante verdadeiro não arrasta o amado para baixo: os dois sobem juntos. Esse trecho tem artigo próprio, O que Platão dizia sobre a beleza.
Banquete ou Fedro
Quem chega ao Fedro depois do Banquete reconhece o assunto. O Banquete mostra, pela voz de Diotima, que o amor é desejo daquilo que falta, e que essa falta pode ser uma escada, que começa no amor por um rosto e sobe até a própria Beleza, aquela que não envelhece e não acaba. O resumo está em O Banquete, de Platão: resumo e como ler.
O Fedro fala do mesmo amor, mas por outro caminho. Em vez da escada, as asas. Em vez da falta, a memória: a beleza que faz a alma lembrar, e o amor como a loucura que a põe a caminho. E por trás dos dois livros fica a mesma pergunta, que a aula formula assim: o que é que move uma alma para cima? Não é uma escolha entre um e outro. Na Formação do Nous, o Fedro vem logo depois do Banquete, e quem já subiu a escada reconhece a pergunta quando ela volta de outro jeito.
A virada: o livro parece mudar de assunto
E então o livro parece mudar de assunto. Sócrates e Fedro passam a discutir o que é falar bem, o que faz um discurso ser bom, o que é a retórica. Muita gente já achou o Fedro mal costurado. Não é, e a chave está numa frase de Sócrates: a retórica é uma arte de conduzir almas por meio de palavras (261a).
Conduzir almas é exatamente o que a beleza fazia na primeira metade. O amor conduz pela beleza, o discurso conduz pela palavra, e tanto um quanto o outro podem levar para a verdade ou para o engano. A retórica que Sócrates critica é a dos manuais do tempo dele, e ele a resume numa frase: "Esses descobriram que o provável deve ser mais respeitado que o verdadeiro" (Fedro 267a). Provável, aqui, quer dizer o que parece verdade para a multidão. É a palavra que não precisa saber o que é justo, só o que convence. Você a conhece: é a que te convence em trinta segundos e desaparece no dia seguinte. O discurso de Lísias, bem escrito, era isso: beleza de forma a serviço de uma tese que não se sustenta.
E qual seria a palavra que conduz de verdade? Sócrates exige três coisas, na ordem do texto. Primeiro, que quem fala conheça a verdade sobre aquilo de que fala. Depois, que conheça a alma de quem ouve, porque há almas de muitos tipos (271c). E por último, que ajuste o discurso a essas almas, não para manipulá-las, mas para levá-las até a verdade. O método para chegar lá ele chama de dialética, um movimento duplo: reunir o que está disperso sob uma única ideia e depois dividi-la em suas partes, como faz o bom trinchador, que corta a carne pelas juntas e não quebra os ossos no meio (265e). Não é regra de oratória, é uma ética da palavra: falar bem começa por respeitar a forma que as coisas têm. Essa metade do livro é o assunto de Retórica de Platão: conduzir almas ou só convencer?.
O mito de Theuth e Thamus
Quase no fim vem o mito que abre a aula. O deus egípcio Theuth, inventor dos números, da geometria e das letras, apresenta as suas artes ao rei Thamus e diz que a escrita tornará os egípcios mais sábios e melhorará a memória deles. O rei responde que o inventor não é o melhor juiz da própria invenção, e que a escrita fará o contrário: quem confiar nas letras deixará de exercitar a memória e se lembrará de fora, por sinais alheios, e não de dentro. "Logo, tu não inventastes um auxiliar para a memória, mas apenas para a recordação" (Fedro 275a).
Memória é o que mora em você. Recordação é o lembrete que te avisa de fora. Pouco depois, Sócrates compara a escrita a uma pintura: as figuras pintadas parecem vivas, mas, se você lhes faz uma pergunta, ficam gravemente caladas. E aqui aparece o paradoxo do começo, o de um livro escrito para dizer que livro não ensina. Ele se desfaz quando se lembra de que Platão escreveu diálogos, conversas que obrigam quem lê a tomar parte, a discordar, a responder. O livro dele não quer ser o depósito do saber. Quer ser o começo de uma conversa. O mito tem artigo próprio, Mito de Theuth: por que Platão desconfiava da escrita, e a pergunta de quem lê muito e guarda pouco está em Esqueço tudo que leio.
Quatro séculos depois: Platão e Paulo
A aula termina aproximando Platão de um homem que escreveu muitas cartas. Cerca de quatro séculos depois, Paulo escreve aos cristãos de Corinto e diz que eles são a carta dele, escrita nos corações. É a ideia platônica da escrita na alma de quem aprende, levada a um lugar aonde Platão não podia chegar. A ponte entre os dois está em Vós sois a nossa carta: Platão, Paulo e a escrita na alma.
Como ler o Fedro
O Fedro tem uma dificuldade própria: parece dois livros costurados, um sobre o amor e outro sobre a arte de falar e de escrever, e muita gente larga na virada entre eles. Quando chegar ali e tiver a impressão de que o assunto mudou, segure uma única pergunta: o que é que conduz uma alma? Com ela, as duas metades viram uma.
Não pule os primeiros discursos, mesmo que pareçam um desvio. Eles são o exemplo do que o livro vai criticar depois. Leia com calma a parte do meio, a retratação de Sócrates: é o coração do livro e merece ser lida devagar. E vá até a última página, aquela que quase todo mundo pula. Antes de voltar para a cidade, Sócrates e Fedro fazem uma oração ao deus daquele lugar, Pã (279b-c), e pedem para ser belos por dentro e que o que mostram por fora combine com o que têm dentro. São poucas linhas, e resumem o livro inteiro.
Sobre a edição: as indicações entre parênteses neste artigo, como 244a ou 275a, são a numeração de Stephanus, que costuma vir na margem das edições e localiza a passagem em qualquer tradução que você tenha à mão. Há edições brasileiras de várias casas, entre elas as da Companhia das Letras, da Editora 34 e da UFPA. Escolher entre elas é questão de preço, de notas e do que você procura, e vale comparar o mesmo trecho em duas antes de comprar.
Para guardar
O Fedro começa com um discurso bonito e falso e termina com uma oração para ser belo por dentro. No meio, duas forças que movem uma alma para cima, a beleza e a palavra, e as duas podem ser falsificadas: a beleza em aparência, a palavra em algo que só convence. E é um livro que, sendo livro, avisa que livro não basta. O saber que conta, para Platão, é o que fica escrito dentro de você, na conversa com quem te ensina.
Fica a pergunta com que a aula termina: de tudo o que sabemos, quanto já está dentro do nosso coração, e quanto ainda está só dentro dos livros? Na Formação do Nous, a aula seguinte é o Timeu, em que Platão pergunta por que existe um mundo, e não o caos: Timeu, de Platão: resumo e como ler.
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O que é o Fedro de Platão?
É o diálogo em que Platão faz Sócrates sair de Atenas, de pés descalços, para conversar com um jovem chamado Fedro sobre duas coisas: o amor, com a beleza que o move, e a palavra, com o que faz um discurso levar alguém à verdade. No fim, o livro volta-se contra si mesmo e desconfia da escrita. A aula de origem o chama de uma das obras mais belas de Platão.
Qual o resumo do Fedro de Platão?
Fedro traz um discurso de Lísias, bem escrito, dizendo que é melhor ceder a quem não ama do que a quem ama. Sócrates fala contra o amor com o rosto coberto, é detido pelo seu sinal interior e se retrata de rosto descoberto: existe uma loucura que vem dos deuses, e a mais alta é a do amante, em que a beleza faz a alma lembrar do que viu antes de nascer. Na segunda metade, os dois discutem a retórica como arte de conduzir almas, e o diálogo termina com o mito de Theuth e Thamus e a desconfiança de Platão diante da escrita.
Por que o Fedro parece dois livros?
Porque a primeira metade trata do amor e da beleza, e a segunda, da retórica e da escrita, e muita gente larga a leitura na virada entre elas. A chave que une as duas está numa frase de Sócrates: a retórica é uma arte de conduzir almas por meio de palavras. É o que a beleza fazia na primeira metade. Quando o assunto parecer ter mudado, segure a pergunta que conduz o livro inteiro: o que move uma alma para cima?
Qual tradução do Fedro ler?
Há edições brasileiras de várias casas, entre elas as da Companhia das Letras, da Editora 34 e da UFPA, que aparecem quando se busca o título. Este artigo não escolhe uma por você. Uma forma prática de decidir é ler, em duas delas, o mesmo trecho curto, como o mito de Theuth e Thamus, e ficar com a que soar mais clara para a sua leitura. As indicações entre parênteses, como 244a ou 275a, são a numeração de Stephanus e ajudam a achar a passagem em qualquer edição que a traga na margem.
Por onde começar a ler o Fedro?
Do começo, sem pular os primeiros discursos, porque eles são o exemplo do que o livro critica depois. Leia devagar a parte do meio, a retratação de Sócrates, que é o coração do livro. E vá até a última página, que muita gente pula: uma oração curta em que Sócrates e Fedro pedem para ser belos por dentro.
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Aula de origem: Fedro, de Platão