Platão escreveu um livro para dizer que livro não ensina. Esse é o paradoxo que o mito de Theuth e Thamus, no Fedro, deixa na porta de quem lê: se a escrita é tão perigosa, por que ele escreveu? Este artigo segue o mito, a imagem da pintura que não responde e a saída que o próprio Platão encontrou, que foi escrever diálogos.
O rei que recusou o presente
A cena é egípcia. O deus Theuth, inventor dos números, da geometria e das letras, apresenta as suas artes ao rei Thamus e diz que elas devem ser ensinadas ao povo. Em algumas edições o deus aparece como Thoth e o rei como Tamuz, mas é o mesmo mito (Fedro 274c-275b). Chega a vez da escrita, e Theuth a anuncia como uma conquista: ela tornará os egípcios mais sábios e melhorará a memória deles.
O rei não aceita. Responde que o inventor de uma arte não é o melhor juiz do que ela fará a quem a usar. E que a escrita produzirá justamente o contrário do que o inventor espera.
O que o rei vê: lembrar de fora
O argumento de Thamus é sobre onde a lembrança mora. Quem confiar nas letras vai deixar de exercitar a memória, e vai se lembrar das coisas "exteriormente e por meio de sinais, e não em si mesmos". Daí a frase que ficou: "Logo, tu não inventastes um auxiliar para a memória, mas apenas para a recordação" (Fedro 275a).
Memória é o que mora em você. Recordação é o lembrete que te avisa de fora. E o rei acrescenta o efeito que mais pesa: a escrita transmite aos alunos "uma aparência de sabedoria, e não a verdade", porque eles recebem muitas informações sem instrução e se julgam sábios. Ficam, nas palavras do rei, "sábios imaginários ao invés de verdadeiros sábios". O que isso significa para quem lê hoje, com a estante cheia e a palavra faltando na hora de contar o que leu, é assunto de Esqueço tudo que leio: o que Platão diz sobre isso, e aqui fica fora.
Phármakon: remédio e veneno
A palavra grega em jogo é phármakon, e ela guarda a tensão do mito. Quer dizer remédio, e quer dizer também veneno. Theuth oferece a escrita como remédio. O rei responde que, para quem a usa, ela vai agir ao contrário. Em português a palavra pode chegar como "remédio" ou como "auxiliar", e perder a outra metade do sentido: em grego, a mesma palavra diz as duas coisas.
A pintura que não responde
Sócrates então explica por que a escrita falha, com uma imagem. "O uso da escrita, Fedro, tem um inconveniente que se assemelha à pintura. Também as figuras pintadas têm a atitude de pessoas vivas, mas se alguém as interrogar conservar-se-ão gravemente caladas. O mesmo sucede com os discursos" (Fedro 275d).
Pense num retrato bem pintado. Parece olhar para você. Faça uma pergunta a ele, e nada. É o que acontece com um texto: diz sempre a mesma coisa, a quem quer que o leia. Não sabe com quem fala, não se defende quando alguém discorda, não explica quando alguém não entendeu. O alvo do mito, portanto, não é o livro em si, e sim o livro tomado como depósito do saber, o texto que se basta.
A outra escrita
Sócrates diz, em seguida, que existe outra escrita, a legítima: a que se faz, com conhecimento, na alma de quem aprende (Fedro 276a). É esse o saber que responde. É aquilo que você consegue dizer com a sua própria boca, e defender quando alguém discorda. Um saber assim não depende de abrir o livro para ser consultado, porque já foi escrito em quem o carrega.
O paradoxo se desfaz: Platão escreveu diálogos
E aqui o paradoxo do começo se desfaz. Platão escreveu, sim, mas escreveu em diálogos. Conversas que exigem uma explicação, uma resposta, uma justificação da própria afirmação. O texto continua mudo, como toda pintura, mas o diálogo coloca dentro da página a pergunta e a resposta que a página, sozinha, não consegue dar. O livro dele não quer ser o depósito do saber. Quer ser o início de uma conversa.
Há uma consequência prática nisso, e a aula a diz no fechamento: o saber que responde quase sempre aparece na presença de outra pessoa, alguém que discorda, que pergunta, que tem uma posição diferente da sua e te obriga a dizer com a sua boca o que entendeu. Por isso, mais do que ler sozinho, vale ler junto.
Quatro séculos depois
Cerca de quatro séculos depois, um homem que escreveu muitas cartas disse algo muito parecido sobre o que fica escrito em quem aprende. A ponte entre Platão e Paulo está em Vós sois a nossa carta: Platão, Paulo e a escrita na alma.
Onde ler o mito
O mito está perto do fim do Fedro, em 274c-275b, e a pintura e a escrita legítima vêm logo depois, em 275d-276a. Se você ainda não leu o diálogo, o ponto de partida é Fedro, de Platão: resumo e como ler, que mostra como esse trecho se liga ao amor e à beleza da primeira metade do livro. O mito é breve, e é daqueles trechos que rendem mais quando lidos com alguém.
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O que é o mito de Theuth e Thamus?
É um mito egípcio contado por Sócrates perto do fim do Fedro, de Platão. O deus Theuth, inventor dos números, da geometria e das letras, apresenta as suas artes ao rei Thamus e diz que a escrita tornará os egípcios mais sábios e melhorará a memória deles. O rei recusa: quem confiar nas letras deixará de exercitar a memória e se lembrará de fora, por sinais, e não de dentro. Em algumas edições o deus aparece como Thoth e o rei como Tamuz.
Por que Platão era contra a escrita?
Mais do que ser contra, ele desconfiava de uma coisa específica: o texto tomado como depósito do saber. Pelo Fedro, um texto parece vivo, mas, se você lhe faz uma pergunta, fica em silêncio. Diz sempre a mesma coisa, não sabe com quem fala, não se defende e não explica. Por isso um livro pode dar a impressão de que você sabe sem que você saiba de verdade.
Se Platão criticava a escrita, por que ele escreveu?
Porque escreveu diálogos. Conversas escritas obrigam quem lê a tomar parte, discordar e responder, e o livro dele não quer ser o depósito do saber, mas o começo de uma conversa. Para Sócrates existe também outra escrita, a legítima, a que se faz com conhecimento na alma de quem aprende.
O que significa phármakon no mito de Theuth?
Phármakon é a palavra grega que quer dizer remédio e também veneno. No mito, é a palavra em jogo na invenção da escrita: Theuth a oferece como ajuda para a memória, e o rei responde que ela vai produzir o contrário. A tensão entre remédio e veneno é a do mito inteiro.
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