Le notti bianche: Visconti filma Dostoiévski em Roma

Aula de origem: Noites brancas, de Fiódor Dostoiévski

Em 1957, o diretor italiano Luchino Visconti levou Noites Brancas ao cinema. Chamou o filme de Le notti bianche, e para filmá-lo não foi à Rússia, nem escolheu uma cidade italiana qualquer para representá-la. Construiu a cidade inteira dentro de um estúdio, em Roma.

Uma Livorno que nunca existiu num porto de verdade

Visconti transpôs a história de São Petersburgo para Livorno, no fim dos anos 1950, com roteiro assinado por ele e por Suso Cecchi d'Amico. No elenco, Marcello Mastroianni, Maria Schell e Jean Marais. Mas é preciso corrigir de imediato um engano comum: o filme não se passa em Roma. Roma é onde ele foi construído, não onde a história acontece.

Essa Livorno foi reconstruída inteira dentro do Teatro 5 da Cinecittà, obra dos cenógrafos Mario Chiari e Mario Garbuglia. Pontes, canais, um porto inteiro, tudo erguido sob teto, sob luz artificial, à distância segura de qualquer rua real. O filme levou o Leone d'Argento em Veneza, em 1957, e no ano seguinte trouxe três Nastri d'Argento, com Mastroianni eleito o melhor ator do cinema italiano.

O artifício como resposta ao livro

Aqui está o motivo pelo qual essa escolha não é só uma curiosidade de produção, e sim o coração deste artigo. Noites Brancas é o livro mais interior de Dostoiévski. Sua cidade é um limbo entre o dia que insiste em ficar e a noite que reluta em começar, o cenário exato de um homem que vive mais dentro da própria cabeça do que no mundo. O sonhador da novela habita um mundo fabricado por ele mesmo, que lhe parece mais real do que o real.

Visconti não ilustrou essa ideia. Ele a repetiu no próprio método de trabalho. Ao erguer um porto mediterrâneo inteiro dentro de um estúdio romano, ele fez com a câmera o que o sonhador de Dostoiévski faz com a imaginação: construiu um mundo que substitui o mundo. A ponte entre o filme e Roma não é a cidade retratada na tela, porque a tela não mostra Roma. É a fábrica da ilusão, o próprio ofício de Cinecittà, que se torna espelho do livro.

Duas cidades, dois silêncios

Vale notar o contraste entre as duas cidades. A São Petersburgo do livro é quase vazia, silenciosa, íntima, uma cidade de poucos personagens e muitas pausas. O cenário construído por Visconti é outra coisa: um porto de vida mediterrânea, movimentado, quase teatral. Nenhuma das duas é uma cidade real filmada na rua. Uma existe só na prosa de Dostoiévski, a outra só dentro de um teatro de estúdio em Roma. E é justamente por não serem reais que ambas conseguem ser tão fiéis ao que a história pede: um espaço que pertence mais ao sonho do que ao mapa.

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Perguntas frequentes

Onde se passa o filme Le notti bianche, de Visconti?

Em Livorno, para onde Visconti transpôs a história, deixando de lado a São Petersburgo original do livro de Dostoiévski. O filme não se passa em Roma.

Le notti bianche foi filmado em Livorno de verdade?

Não. A cidade foi reconstruída inteira dentro do Teatro 5 da Cinecittà, em Roma, pelos cenógrafos Mario Chiari e Mario Garbuglia, com portos e canais de estúdio.

Quem estrelou Le notti bianche, de Luchino Visconti?

Marcello Mastroianni, Maria Schell e Jean Marais, com roteiro do próprio Visconti e de Suso Cecchi d'Amico a partir da novela de Dostoiévski.

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