Você consegue aquilo que queria muito e, alguns dias depois, percebe que falta alguma coisa. É uma experiência que quase todos nós já vivemos, e a explicação que se costuma dar para ela é que a gente nunca se contenta, ou que escolheu mal o que desejar. Platão tem outra explicação, no Banquete, e ela não é a que você imagina: conseguir não basta porque desejar nunca foi uma questão de ainda não ter conseguido.
Primeiro, o que o desejo é
Quem faz a pergunta no Banquete é Sócrates, e a faz do jeito que sempre faz: em vez de discursar, pergunta. O alvo é o anfitrião, Agatão, que acabara de fazer o discurso mais bonito da noite. O amor, pergunta Sócrates, é amor de alguma coisa ou de nada? De alguma coisa, claro, responde Agatão. E quem ama essa coisa deseja tê-la? Deseja.
Com poucas perguntas, Agatão admite o que parecia óbvio e ninguém tinha dito: nós desejamos o que nos falta. Na tradução de José Cavalcante de Souza (O Banquete, Abril Cultural), a passagem 200e fica assim:
"Não está então admitido que aquilo de que é carente e que não tem é o que ele ama?"
A consequência é maior do que parece. Se o amor deseja o belo, é porque ainda não o possui por inteiro. O amor não é o belo: é a falta do belo que se move na direção dele.
A objeção da saúde, e o amanhã que ninguém possui
Talvez você esteja pensando: "Isso não é bem assim. Eu tenho saúde e desejo continuar saudável. Eu amo alguém que já está comigo." A objeção é natural, e o próprio Sócrates a responde no texto, com mais sutileza do que parece.
Quem tem saúde e diz que deseja ter saúde, na verdade, deseja outra coisa: continuar amanhã o que tem hoje. E o amanhã é o que ninguém possui. Então até quem já tem o que ama continua desejando o que falta. Falta o tempo, falta a garantia de que aquilo não vai passar.
Daí a primeira resposta à pergunta do título. Conseguir não encerra o desejo, porque a coisa conquistada chega e, junto com ela, a consciência de que pode passar, de que pode ir embora. A falta que aparece depois da conquista não é sinal de que você conquistou a coisa errada. É o desejo mostrando que, na verdade, queria algo que nenhuma conquista entrega sozinha.
Eros, filho de Póros e Pênia
É aqui que Sócrates faz uma coisa rara: diz que aprendeu tudo aquilo com uma mulher, Diotima, uma sacerdotisa de Mantineia, e passa a contar a conversa que teve com ela quando era jovem. Diotima começa desmontando a ideia de que o amor seja um deus, porque os deuses não carecem de nada, e quem não carece de nada não deseja. Mas o amor também não é um mortal qualquer: é um intermediário, um ser que vive no meio entre o divino e o humano, entre a ignorância e o conhecimento.
E ela conta a origem dele como um mito. O amor seria filho de dois pais. A mãe é Pênia, a pobreza; o pai é Póros, o recurso, a engenhosidade de quem sempre encontra um caminho. Da mãe, Eros herdou a carência: nunca está satisfeito. Do pai, herdou o faro de caçador: nunca deixa de buscar. Na mesma tradução, na passagem 203e:
"o que consegue sempre lhe escapa, de modo que nem empobrece o Amor nem enriquece"
Tudo o que Eros consegue escorre entre os dedos. Ele nunca fica pobre de vez e nunca fica rico. O retrato explica a experiência da abertura: o desejo é um filho da falta com o recurso, e por isso conseguir e continuar buscando não se contradizem. São os dois pais dele.
O retrato de quem ama, e de quem estuda
Se você se reconheceu nesse retrato, não é por acaso. Diotima descreve a condição de quem ama, mas também a de quem estuda. O filósofo, para ela, é exatamente isso: alguém que sabe o bastante para saber o que lhe falta. Eros vive no meio entre a ignorância e o conhecimento, e o filósofo também.
O que procuramos não é a metade que nos completa
Diotima responde ainda, sem citar nome, à história das metades de Aristófanes, a ideia de que cada um busca a sua outra metade. Dizem por aí que quem ama busca a própria metade, mas ninguém ama a metade ou o inteiro somente por ser metade ou inteiro: ama se for bom. Tanto que as pessoas aceitam amputar o próprio pé ou a própria mão quando estão doentes. Ninguém ama o que é seu somente por ser seu. (A história das metades e a resposta de Diotima têm artigo próprio: o mito da alma gêmea, de Platão.)
Essa é a virada da aula. O que procuramos não é o pedaço que nos completa: é o bem, e não um bem qualquer. Queremos o bem para nós e queremos para sempre.
Gerar no belo
E é daí que vem uma das coisas mais bonitas que Diotima diz sobre o desejo. Como somos mortais e não temos o para sempre, fazemos o que todos os mortais fazem com o eterno: geramos, e geramos no belo, e deixamos algo que permanece depois de nós. Uns geram filhos, outros obras, outros poemas ou virtudes que ensinam. Esse é o jeito humano de tocar a eternidade por um instante.
A partir disso, Diotima mostra o caminho: o desejo começa num corpo belo, passa pela beleza das almas e do conhecimento, e chega ao próprio Belo (esse percurso está em a escada do amor, de Diotima). O ponto que interessa aqui é anterior: o desejo que não se esgota ao conseguir não é um defeito de fábrica. É o motor da subida.
Então, por que conseguir não basta?
Reunindo as peças, a resposta de Platão tem quatro passos. Primeiro, desejar é desejar o que falta, e o amor é a falta do belo que se move na direção dele. Segundo, até quem já tem o que ama continua desejando, porque lhe falta o amanhã e a garantia de que aquilo não passa. Terceiro, Eros, filho da pobreza e do recurso, nunca fica pobre de vez nem rico: o que consegue lhe escapa. Quarto, o que buscamos não é a metade que nos completa, e sim o bem, para nós e para sempre, e por isso geramos no belo.
A falta que você sente depois de ter adquirido aquilo que queria não é uma falta sua, não é um defeito seu. É o sinal de que aquilo era apenas um degrau.
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Ver as leituras recomendadasPerguntas frequentes
Eros é filho de quem, segundo Platão?
No Banquete, Diotima conta que Eros é filho de Póros e de Pênia. A mãe é Pênia, a pobreza; o pai é Póros, o recurso, a engenhosidade de quem sempre encontra um caminho. Da mãe, Eros herdou a carência, porque nunca está satisfeito; do pai, o faro de caçador, porque nunca deixa de buscar.
Por que Platão diz que o amor nasce da falta?
Porque, no raciocínio de Sócrates com Agatão, amar é sempre amar alguma coisa, e quem ama deseja essa coisa. Se o amor deseja o belo, é porque ainda não o possui por inteiro. O amor não é o belo: é a falta do belo que se move na direção dele. O texto está na passagem 200e.
Se eu já tenho o que amo, ainda desejo o que me falta?
Sim, e o Banquete responde a essa objeção. Quem tem saúde e diz que deseja ter saúde está desejando outra coisa: continuar amanhã o que tem hoje. E o amanhã é justamente o que ninguém possui. Até quem já tem o que ama continua desejando o que falta, o tempo e a garantia de que aquilo não vai passar.
O que significa "gerar no belo" em Platão?
Diotima diz que queremos o bem para nós e para sempre. Como somos mortais e não temos o para sempre, fazemos o que os mortais fazem com o eterno: geramos no belo e deixamos algo que permanece depois de nós. Uns geram filhos, outros obras, outros poemas ou virtudes que ensinam.
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Aula de origem: O Banquete, de Platão | O que é, de verdade, o amor platônico