O fantasma de Hamlet: purgatório ou inferno?

Aula de origem: Hamlet, de William Shakespeare

Elsinore, uma noite de sentinela. Uma alma diz que está doente antes de qualquer crime ter sido mostrado ao público. E então aparece o espectro, dizendo ser o pai de Hamlet, e pedindo vingança.

A leitura comum reduz tudo a uma pergunta: Hamlet vai vingar o pai, ou não? Mas o texto organiza a peça em torno de uma pergunta anterior, e mais perigosa. De onde veio aquela voz?

O que o espectro diz sobre si mesmo

O fantasma não pede só vingança, ele também conta o que está sofrendo. Diz que foi condenado a caminhar de noite e a jejuar em fogo durante o dia, até que as culpas cometidas em vida sejam queimadas e purificadas:

"Sou a alma de teu pai, condenada a penar durante um tempo certo, a jejuar num cárcere de chamas, até que as culpas que mancharam a minha vida estejam completamente expiadas e purificadas pelo fogo." (Hamlet, Ato I, cena 5, tradução de D. Luís I)

Repare no que essa fala diz e no que ela não diz. É um fogo que purga, e sobretudo um fogo com prazo: "durante um tempo certo". Isso não é o inferno, de onde ninguém sai. É o purgatório, um lugar de expiação temporária. A primeira leitura possível, portanto, é a mais simples: o espectro é mesmo o pai de Hamlet, penando por pecados não confessados, e a ordem que ele dá é legítima.

A outra leitura, igualmente sustentada pelo texto

Só que existe um problema teológico que a plateia de 1601 reconhecia de imediato. Uma aparição que pede vingança é, por definição, uma aparição suspeita. A vingança é exatamente o que a lei de Deus reserva para si, não para os homens. Um espírito que empurra alguém a matar está pedindo uma coisa que nenhuma alma no purgatório, orientada para Deus, teria autoridade para pedir.

Se o espectro é o pai, a ordem é legítima e a demora de Hamlet é uma falha. Se o espectro é um demônio que tomou emprestada a voz e a memória do pai, então obedecer é cair direto na armadilha, e a demora é a única coisa que salva Hamlet de se condenar por instigação infernal.

A peça nunca escolhe entre as duas. E não escolher já é, ela mesma, a resposta que Shakespeare dá.

O argumento que quase ninguém conta: a geografia do palco

Existe uma pista que não é interpretação, é encenação. No Ato I, cena 5, depois de dar a ordem ao filho, o espectro não sai de cena. Ele continua falando, só que agora de um lugar que o texto marca com insistência: debaixo do tablado.

A rubrica registra a posição sem rodeios:

"A SOMBRA (debaixo da terra) Jurem." (Hamlet, Ato I, cena 5, tradução de D. Luís I)

E Hamlet responde para o chão, chamando o próprio pai de velha toupeira que cava depressa. No teatro elisabetano, esse endereço tinha um sentido fixo. O espaço embaixo do tablado era, por convenção do próprio teatro, o inferno, e o alçapão por onde os atores subiam e desciam era a boca do inferno. Quem assistia em 1601 não precisava de nenhuma explicação: reconhecia a posição do espectro antes mesmo de julgar suas palavras.

Shakespeare não resolve o dilema teológico com um argumento. Ele resolve com um lugar no palco, e deixa o espectador decidir o que fazer com aquilo.

O contraste que a própria peça sugere: Macbeth

Para medir o tamanho dessa hesitação, vale olhar para outro herói de Shakespeare que também recebe uma mensagem que parece vir de outro mundo. Macbeth ouve a profecia das bruxas e age quase de imediato. Não questiona de onde veio aquilo, não testa a fonte, não exige prova nenhuma antes de agir. E a peça inteira que se segue é o desmoronamento de um homem que acreditou depressa demais.

Hamlet faz o caminho inverso. Ele desconfia da própria visão. Passa dois atos inteiros tentando descobrir se pode confiar no espectro que fala com a voz do pai, antes de decidir qualquer coisa. Onde Macbeth pergunta "o que eu ganho com isso", Hamlet pergunta "quem está falando comigo". A diferença entre as duas tragédias nasce ali.

Uma pergunta que a peça deixa em aberto

Não decidir a origem do espectro não é um defeito de construção. É o motor da peça inteira. Toda a hesitação de Hamlet, que quatro séculos de leitura apressada chamaram de indecisão, nasce de uma pergunta que a própria plateia elisabetana levava a sério: será que uma voz que fala com a autoridade de um pai morto merece ser obedecida sem prova?

Hamlet resolve testar antes de agir. E é essa demora, não a covardia, que organiza tudo o que vem depois.

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Perguntas frequentes

O fantasma de Hamlet é bom ou mau?

A peça nunca decide, e as duas leituras têm apoio no texto. O espectro descreve um fogo que purga e que termina, o que aponta para o purgatório, não para o inferno. Mas na teologia da época, uma aparição que pede vingança também é suspeita, porque a vingança é reservada a Deus. Pode ser o pai penando, ou um demônio com a voz dele.

De onde vem o fantasma de Hamlet?

A resposta mais esquecida está na geografia do palco. No Ato I, cena 5, depois de dar a ordem, o espectro continua falando debaixo do tablado, e Hamlet responde para o chão. No teatro elisabetano, o espaço embaixo do palco era, por convenção, o inferno, e o alçapão era a boca do inferno. Quem assistia em 1601 reconhecia a posição antes de ouvir qualquer palavra.

Por que Hamlet demora tanto para agir?

Porque ele testa a fonte da ordem antes de obedecer a ela. Se o espectro for o pai, a demora é falha. Se for um demônio, a demora é o que salva Hamlet de matar por instigação infernal. A peça compara isso com Macbeth, que ouve uma profecia e age quase imediatamente, sem nunca perguntar de onde ela vinha.

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