O purgatório na Inglaterra de 1601

Aula de origem: Hamlet, de William Shakespeare

Hamlet estreou por volta de 1601. E para entender o quanto uma única fala do espectro pesava naquela plateia, é preciso lembrar em que país aquele palco estava montado.

O que é o purgatório, como doutrina

Na doutrina católica, o purgatório é um estado de purificação para almas que morrem em graça, mas ainda carregam culpas não plenamente expiadas. Não é uma segunda chance, e não é o inferno. É uma passagem, com um traço que a distingue de tudo o mais que existe depois da morte: ela termina. Quem está lá vai, ao fim da purificação, para a visão de Deus.

Por ser uma passagem, e não um destino final, a doutrina sustentava uma prática concreta havia séculos: rezar pelos mortos. Era considerada uma obra de misericórdia, um modo de a comunidade dos vivos ajudar a comunidade dos que ainda estavam sendo purificados.

O que a Reforma fez com essa ideia

A Reforma Protestante rejeitou o purgatório por não encontrar base suficiente nas Escrituras para sustentá-lo como doutrina. E a Inglaterra, que rompeu com Roma nas décadas anteriores, seguiu esse caminho: quando Hamlet chegou ao palco, o país já era protestante havia mais de sessenta anos.

A consequência prática foi direta. Rezar pelos mortos, que era obra de misericórdia dentro da moldura católica, passou a ser tratado como superstição, e a prática chegou a ser objeto de punição pelas autoridades religiosas do reino. Não era uma questão de gosto teológico, era uma fronteira vigiada.

Um fantasma católico num palco que já não deveria admiti-lo

É nesse contexto que a fala do espectro de Hamlet pesa mais do que parece à primeira leitura. Ele descreve exatamente o mecanismo do purgatório: um fogo que purga, e que tem prazo, até que as culpas da vida estejam expiadas.

"Sou a alma de teu pai, condenada a penar durante um tempo certo, a jejuar num cárcere de chamas, até que as culpas que mancharam a minha vida estejam completamente expiadas e purificadas pelo fogo." (Hamlet, Ato I, cena 5, tradução de D. Luís I)

Tecnicamente, esse é um fantasma católico, falando a linguagem de uma doutrina que a Inglaterra oficial já tinha abolido. Um público de 1601 não ouvia essa fala como um simples recurso dramático. Ouvia uma doutrina banida sendo pronunciada em voz alta, num palco público, por uma figura que reivindicava autoridade sobre o próprio filho.

Por que a peça pisa num campo minado

Colocar essa fala na boca do espectro não era um detalhe neutro de ambientação. Era pôr em cena, deliberadamente, uma crença que a religião oficial do reino já tinha declarado supersticiosa. A peça não resolve isso, e talvez não pudesse resolver sem se comprometer com um dos dois lados. Mas o simples fato de a fala existir, naquele palco, naquele ano, já é um sinal de como aquela geração ainda vivia dentro da fratura religiosa que a Reforma tinha aberto sessenta anos antes: capaz de escrever, ouvir e sentir o peso de uma doutrina que a lei já não reconhecia mais.

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Perguntas frequentes

Por que o purgatório foi abolido na Inglaterra?

Porque a Reforma inglesa, que rompeu com Roma nas décadas anteriores a 1601, rejeitou o purgatório como doutrina sem base bíblica suficiente. Rezar pelos mortos, que era uma obra de misericórdia católica, passou a ser tratado como superstição, e chegou a ser objeto de punição.

O que é o purgatório, como doutrina?

É o ensino de que algumas almas, ao morrer em graça mas com culpas ainda não purificadas, passam por um estado temporário de expiação antes de alcançar a plena visão de Deus. A diferença central diante do inferno é o prazo: o purgatório termina, o inferno não.

Por que um fantasma de purgatório era perigoso num palco de 1601?

Porque a Inglaterra era protestante havia mais de sessenta anos quando Hamlet estreou, e o purgatório tinha sido oficialmente rejeitado. Um espectro que descreve exatamente essa doutrina, com um fogo que purga e tem prazo, é tecnicamente um fantasma católico, encenado num palco onde essa crença já não deveria existir.

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