Por que Hamlet não mata Cláudio rezando

Aula de origem: Hamlet, de William Shakespeare

Hamlet tem o assassino do pai desarmado, ajoelhado, de costas para ele. É a chance que a peça inteira construiu. E ele guarda a espada. Quase todo leitor lê essa cena como mais um adiamento do indeciso. Não é. O cálculo que Hamlet faz ali é teológico, preciso, e a peça já tinha provado, segundos antes, que ele estava errado.

As contas do pai continuam em aberto

O ponto de partida é o que o espectro contou no primeiro ato: o pai de Hamlet morreu dormindo, envenenado pelo próprio irmão, sem confissão, sem comunhão e sem a unção dos enfermos. Morreu com todas as contas em aberto diante de Deus, e é por isso que está preso num fogo que purga, o purgatório, até que essas culpas sejam expiadas.

Agora Hamlet encontra Cláudio de joelhos, sozinho, rezando. E faz a conta em voz alta: se matar o tio agora, no meio da oração, a alma de Cláudio sai lavada e vai direto para o céu. Vingar o pai naquele instante não seria cobrar uma dívida, seria pagar um salário. Premiaria o assassino com a única coisa que o pai não teve, uma morte em estado de graça, e deixaria a vítima continuar queimando.

Hamlet guarda a espada. E o motivo não é medo. É que ele leva a vida depois da morte tão a sério que ela entra no cálculo como um fato concreto, com peso igual ao de qualquer outro.

A confissão que Cláudio faz e Hamlet não escuta

Aqui está a ironia dramática que é o coração da cena, e que quase nenhuma leitura popular menciona. A plateia, e só a plateia, acabou de ouvir Cláudio orando sozinho, antes de Hamlet entrar. E o que ele diz desfaz, na raiz, o cálculo de Hamlet.

Cláudio reconhece que não consegue se arrepender de verdade, porque ainda possui tudo aquilo pelo qual matou:

"Não posso, pois que possuo os objectos que me induziram ao assassínio, coroa, trono e consorte. Poder-se-á obter o perdão, quando se conservam os frutos do crime?" (Cláudio, Hamlet, Ato III, cena 3, tradução de D. Luís I)

E fecha a oração com uma confissão ainda mais direta sobre o próprio fracasso espiritual:

"Sobem as minhas palavras, o pensamento não, e as palavras sem o pensamento não chegam ao Céu." (Cláudio, Hamlet, Ato III, cena 3, tradução de D. Luís I)

Ou seja: Cláudio mesmo diz que aquela oração não sobe. Não há graça ali, porque não há arrependimento real, e não há arrependimento real porque ele se recusa a devolver o que o crime lhe deu. Hamlet entra na cena logo depois. Vê um homem de joelhos. E supõe um homem em estado de graça.

Aquele era exatamente o momento em que Cláudio estava mais longe do céu em toda a peça, e é justo o momento em que Hamlet decide que ele está perto demais para ser morto.

Um escrúpulo tecnicamente errado

O ponto não é dizer que a teologia de Hamlet é absurda. É dizer que, naquele instante específico, ela partiu de uma informação errada, que só o espectador tinha. O escrúpulo religioso era, ali, tecnicamente equivocado: a oração de Cláudio era vazia, e vazia não muda o destino de ninguém.

A peça constrói essa distância de propósito. Shakespeare deixa você, que assiste, saber uma coisa que o herói não sabe, e é justo essa distância que faz a cena doer.

A acusação mais dura que a peça faz contra Hamlet

Guarde o contraste, porque ele é o argumento mais forte contra qualquer leitura que trate Hamlet como simplesmente cauteloso ou covarde. Diante do rei culpado, provado culpado, ajoelhado e desarmado, Hamlet para, pensa, calcula a eternidade da alma do inimigo e decide não agir.

Diante de um vulto atrás de uma cortina, minutos depois, ele não pensa em nada. Crava o florete e pergunta só depois: "Que é isso? Um rato?" (Hamlet, Ato III, cena 4, tradução de D. Luís I). Era Polônio, desarmado e inocente do crime que Hamlet precisa vingar.

O mesmo homem que trata a alma do assassino comprovado com esse cuidado teológico mata, sem hesitar um segundo, quem não tinha culpa nenhuma naquele crime específico. A cautela de Hamlet não é uniforme. Ela aparece exatamente onde a peça mais precisa que ela apareça, para que a espada não desça no momento em que desceria certo, e falta exatamente onde custa mais caro.

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Perguntas frequentes

Por que Hamlet não mata Cláudio enquanto ele reza?

Porque matar um homem em oração, no cálculo teológico da peça, o mandaria em estado de graça direto para o céu. Isso premiaria o assassino e deixaria a vítima, o pai de Hamlet, continuar queimando no purgatório sem ter sido vingada.

A oração de Cláudio é sincera?

Não, e é isso que faz a cena doer. Segundos antes, o próprio Cláudio reconhece em voz alta que suas palavras sobem mas o pensamento não acompanha, porque ele ainda possui tudo o que o crime lhe deu. Hamlet não ouve essa confissão.

Hamlet teve medo de matar Cláudio?

A peça não sustenta essa leitura. O mesmo Hamlet que hesita diante do rei ajoelhado mata, sem pensar um segundo, um homem escondido atrás de uma cortina. O escrúpulo era teológico, não covardia.

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