Por que Hamlet não herdou o trono

Aula de origem: Hamlet, de William Shakespeare

Quase todo leitor de Hamlet tropeça na mesma pergunta e nunca recebe a resposta inteira: se Hamlet era o filho do rei morto, por que quem subiu ao trono foi o tio? A sensação é de buraco no enredo, uma injustiça óbvia que a peça simplesmente ignora. Não é isso. É que a Dinamarca da peça não funciona como a França ou a Inglaterra da época de Shakespeare.

Uma coroa que se vota, não se herda

Nas monarquias hereditárias que o público de 1601 conhecia, o trono passa automaticamente do pai para o filho mais velho. Não é o caso na Dinamarca de Hamlet. Ali, um conselho de nobres escolhe o novo rei entre os candidatos da casa real. O filho do rei morto é o favorito natural dessa escolha, o nome mais forte na mesa, mas não é o herdeiro automático. A coroa depende de um voto.

É uma diferença que muda o peso de tudo o que acontece depois. Não há usurpação no sentido jurídico estrito quando Cláudio assume o trono, porque não havia, para começar, um direito automático de Hamlet sobre ele.

O que Cláudio de fato fez

Isso não absolve Cláudio, e a peça não deixa dúvida sobre o que ele fez: matou o próprio irmão. Mas o crime dele não foi tomar algo que já pertencia a Hamlet por direito. Foi manobrar a eleição.

Cláudio mata o rei, casa depressa com a rainha viúva, ainda dentro do primeiro mês de luto, para consolidar sua posição diante do conselho, e vence a votação enquanto o sobrinho ainda está voltando da universidade, longe do castelo, sem poder fazer campanha nenhuma por si mesmo. Quando finalmente lista as contas que tem a acertar com o tio, o próprio Hamlet nomeia essa manobra com precisão: acusa Cláudio de ter se interposto entre a eleição e as esperanças que ele tinha.

Não é a linguagem de um herdeiro roubado. É a linguagem de um candidato que perdeu para um adversário que jogou sujo.

Por que essa distinção muda o peso da hesitação

Aqui está o ponto que costuma passar despercebido, e que muda o peso moral de tudo o que Hamlet hesita em fazer. Se ele fosse um herdeiro legítimo despojado do que é seu, matar Cláudio seria reaver um direito, uma correção. Mas ele não é isso.

Hamlet é um candidato que perdeu uma eleição, ainda que ela tenha sido vencida por manobra e por crime. Se ele matar o rei que hoje ocupa o trono, mesmo sendo esse rei um assassino, ele não está corrigindo uma ilegalidade anterior. Está cometendo uma nova, contra a ordem política que a própria Dinamarca reconhece como legítima, o mesmo conselho que aclamou Cláudio.

Isso ajuda a explicar por que a peça inteira trata a vingança como algo carregado de peso, e não como um acerto de contas simples. Hamlet não teria, ao matar o tio, apenas cobrado uma dívida de sangue. Teria derrubado, por conta própria, um rei que uma instituição escolheu, mesmo que essa escolha tenha nascido de uma trapaça.

Quem, no fim, fica com o trono

A ironia final é que o trono da Dinamarca não volta para nenhum dos dois. No último ato, com Hamlet, Cláudio, Gertrudes e Laertes mortos, quem chega ao castelo vazio é Fortimbrás, príncipe da Noruega, estrangeiro à casa real dinamarquesa inteira. Ele assume o poder e manda erguer o corpo de Hamlet como o de um soldado, dizendo:

"Se vivesse teria sido um grande rei." (Fortimbrás, Hamlet, Ato V, cena 2, tradução de D. Luís I)

A coroa que era eletiva, que Hamlet tinha esperança razoável de vencer, e que Cláudio venceu por manobra, termina nas mãos de quem não disputou eleição nenhuma. É o desfecho mais coerente possível para uma peça que já tinha mostrado, desde o primeiro ato, que aquele trono nunca foi automaticamente de ninguém.

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Perguntas frequentes

Cláudio usurpou o trono de Hamlet?

Não no sentido jurídico. A Dinamarca da peça é uma monarquia eletiva: um conselho de nobres escolhe o rei entre os candidatos da casa real. Cláudio venceu essa eleição enquanto Hamlet estava fora, na universidade. Não houve usurpação, houve manobra.

Por que Hamlet não virou rei quando o pai morreu?

Porque na Dinamarca da peça o trono não passa automaticamente de pai para filho. O filho mais velho é o candidato favorito, não o herdeiro por direito. Cláudio, já dentro do castelo e recém-casado com a rainha, tinha vantagem diante do conselho.

Isso muda a culpa de Hamlet se ele matar Cláudio?

Sim, e é o ponto central do argumento. Hamlet não é um herdeiro roubado reavendo o que é seu por direito. É um candidato derrotado numa eleição legítima. Matar o rei eleito não corrige uma ilegalidade anterior, comete uma nova.

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