Se Deus não existe, tudo é permitido? A resposta de Camus

Aula de origem: O Mito de Sísifo, de Albert Camus | Por que continuar se os dias são todos iguais?

"Se Deus não existe, tudo é permitido." Você provavelmente já ouviu a frase como uma sentença sobre o que acontece quando a moral perde o fundamento, ou já a usou, talvez, como argumento numa conversa. Camus conhecia essa leitura e a enfrentou de frente em O Mito de Sísifo. A resposta dele cabe numa linha: "Tudo é permitido não significa que nada é proibido."

Quem diz a frase

A frase é associada a Ivan Karamázov, o irmão intelectual de Os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski, e é Camus quem a traz para o ensaio. Ele abre o capítulo "O homem absurdo" com o grito de Ivan, "Tudo é permitido", e dali parte para dizer o que ela não autoriza.

Há um ganho de leitura aqui, e ele vem do próprio romance. A frase em forma de slogan, "se Deus não existe, tudo é permitido", é uma condensação. Ivan sustenta, no Livro 2 de Os Irmãos Karamázov, que sem imortalidade não há virtude, e a ideia vai reaparecendo em falas de outros personagens, com palavras que mudam de edição para edição. Na tradução inglesa mais difundida, a de Constance Garnett, o verbo usado é "lícito" e a sentença completa não aparece. Estudiosos que conferiram o original russo apontam "Sem Deus, tudo é permitido" na boca de Mitya, no Livro 11, retomando o que ouviu de Ivan. Em resumo: a frase resume bem o pensamento de Ivan, mas, ao citá-la entre aspas, convém conferir a edição que você tem em mãos.

A mesma premissa, levada até o fim

A frase de Ivan não é a única forma dessa premissa no ensaio. Camus recorre a outro personagem de Dostoiévski, Kirílov, o engenheiro de Os Demônios, que leva o raciocínio até a última consequência: se não existe uma instância acima de mim que define o que é o bem e o mal, quem define sou eu, e se eu defino, eu sou Deus.

Camus precisa de uma ficção para encontrar alguém que seja coerente até esse ponto, e essa admissão, escondida no meio de uma frase, é o dado que importa aqui: na vida real, ninguém leva a negação do sentido até o fim. As pessoas negam o sentido e continuam almoçando, trabalhando, amando, pagando conta. Camus não trata isso como covardia. Trata como dado, e é desse dado que sai o ensaio inteiro: existe alguma coisa no ser humano que continua mesmo quando o argumento diz que não deveria. É com essa premissa na mesa que a pergunta do título pede resposta.

A leitura que a frase costuma receber

A leitura mais comum, e a que Camus encontra pela frente, é a libertina: se não há sentido, tudo é permitido, então eu faço o que eu quiser. É tentador entender o absurdo assim. Se o universo não responde e nenhuma instância de fora define o que é certo e o que é errado, por que seguir regra alguma?

É a leitura errada mais comum do livro, e ela se apoia numa meia verdade. Camus realmente parte da ideia de que o mundo não oferece sentido pronto. O que ele não aceita é a conclusão que as pessoas tiram daí.

A resposta de Camus

O texto fecha a porta na cara de quem tenta: "O absurdo não liberta, amarra. Não autoriza todos os atos. Tudo é permitido não significa que nada é proibido." (Albert Camus, O Mito de Sísifo, tradução da Record, capítulo "O homem absurdo".)

A primeira frase da passagem já desarma a leitura libertina: o absurdo não liberta, amarra. E repare na precisão da última. Ela não afirma que existe uma lista de proibições. Diz que "tudo é permitido" não apaga a diferença entre permitido e proibido.

A experiência do dever

Camus vai além, e é aqui que ele diz o que os resumos costumam deixar de fora: se todas as experiências são igualmente indiferentes, então "a experiência do dever é tão legítima quanto qualquer outra". Escute de novo, porque é o contrário do que parece.

A aula do vídeo dá um exemplo para tornar isso concreto. Uma mãe atravessa a madrugada com um filho com febre. Ela não está sendo ingênua diante do absurdo, e não espera prêmio nenhum por isso. Escolheu aquilo, e faz de novo amanhã. Pela régua de Camus, esse gesto vale exatamente o mesmo que a noite mais livre de um sedutor. Não é resignação: é a mesma paixão pela vida que condenou Sísifo, gasta numa coisa que a pessoa escolheu carregar.

A frase de Ivan, lida assim, não abre uma porta para o vale-tudo.

O libertino também decidiu de vez

Há ainda um segundo golpe no argumento. Quem usa o absurdo para fazer o que quiser está fazendo uma escolha. Escolha exige critério. E critério é exatamente aquilo que, pelo mesmo raciocínio, não existe. Se nada tem peso, o que faria o libertino preferir uma noite a outra?

Por isso, para Camus, o libertino não é o homem absurdo. É mais um que decidiu de vez, e Camus tem um nome para isso: é o movimento que ele batiza de suicídio filosófico, o ato de fechar a pergunta em aberto, desta vez pelo lado do "tanto faz". O homem absurdo, ele define assim: "aquele que, sem negá-lo, nada faz pelo eterno". Não é quem nega o eterno. É quem para de fazer as contas.

O que fica

A frase de Ivan costuma ser lida como licença. Camus a cita para mostrar o que ela não autoriza: o absurdo amarra, a experiência do dever continua tão legítima quanto qualquer outra, e quem se declara livre de tudo fez uma escolha como qualquer outro. A aula do vídeo percorre esse trecho no meio do ensaio, entre o salto que Camus recusa e a imagem de Sísifo que fecha o livro.

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Perguntas frequentes

Quem disse "se Deus não existe, tudo é permitido"?

A ideia é de Ivan Karamázov, personagem de Os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski, e o ensaio O Mito de Sísifo a atribui a ele: Camus abre o capítulo "O homem absurdo" com o grito de Ivan, "tudo é permitido". A frase inteira, nessa forma de slogan, é uma condensação da posição de Ivan, e não uma fala dele palavra por palavra.

Em que livro está "se Deus não existe, tudo é permitido"?

Em Os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski, como ideia de Ivan, e citada por Camus em O Mito de Sísifo, no capítulo "O homem absurdo". A formulação exata varia conforme a tradução, e por isso vale conferir a edição que você tem em mãos antes de citá-la entre aspas.

Dostoiévski escreveu literalmente "se Deus não existe, tudo é permitido"?

Depende da edição. Na tradução inglesa de Constance Garnett, a sentença completa não aparece, e a ideia é distribuída em falas de personagens. No original russo, estudiosos que checaram o texto apontam "Sem Deus, tudo é permitido" na boca de Mitya, no Livro 11, retomando o que ouviu de Ivan. O mais seguro é tratar a frase como condensação do pensamento de Ivan.

O que Camus responde a "tudo é permitido"?

Que o absurdo não liberta, amarra. Em O Mito de Sísifo, no capítulo "O homem absurdo", ele escreve que o absurdo não autoriza todos os atos e que "tudo é permitido não significa que nada é proibido". Se todas as experiências são indiferentes, a experiência do dever é tão legítima quanto qualquer outra.

Sem Deus, a moral desaparece, segundo Camus?

Não, no sentido de que tudo passe a valer. Quem usa o absurdo como licença para fazer o que quiser está fazendo uma escolha, e escolha exige critério, que é justamente o que o raciocínio dele diz não existir. Para Camus, o libertino não é o homem absurdo: é mais um que decidiu de vez.

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