Suicídio filosófico, segundo Camus: e quem tem fé?

Aula de origem: O Mito de Sísifo, de Albert Camus | Por que continuar se os dias são todos iguais?

Se você tem fé e ouviu dizer que Camus chama de "suicídio filosófico" o salto de fé, talvez tenha chegado aqui com uma objeção na ponta da língua: a minha fé não é fuga. A objeção tem razão de existir, e a resposta que o texto de Camus permite é mais exata do que a definição de manual. O nome é duro, mas designa um movimento do pensamento, não um estado de ninguém.

O que Camus chama de suicídio filosófico

Suicídio filosófico é o movimento pelo qual um pensamento reconhece o absurdo e, em seguida, o elimina: decide de vez qual é o sentido e deixa de sustentar a pergunta. Quem batiza o movimento é o próprio Camus, no capítulo "O suicídio filosófico" de O Mito de Sísifo, e ele avisa que o nome não é xingamento: "Tomo aqui a liberdade de chamar de suicídio filosófico a atitude existencial. Mas isto não implica um julgamento. É uma maneira cômoda de designar o movimento pelo qual um pensamento nega a si mesmo e tende a superar-se no que diz respeito à sua negação." (Albert Camus, O Mito de Sísifo, tradução da Record.)

O capítulo trava muita gente, porque Camus cita nomes que trata como se você já os conhecesse: Kierkegaard, Chestov, Jaspers, Husserl. A chave para atravessá-lo cabe numa frase. Todos eles enxergaram o absurdo com uma lucidez que Camus elogia, todos viram o mesmo abismo, e todos, no momento seguinte, deram um salto, recuperando do outro lado alguma coisa que resolve o problema. Camus se recusa a saltar.

Por que "suicídio": os dois lados do confronto

O absurdo, para Camus, não está no mundo e não está em você: está no encontro entre os dois. De um lado, um ser humano que precisa que as coisas tenham uma razão de ser. Do outro, um universo que não responde. O absurdo é o atrito entre essas duas superfícies, e só existe enquanto as duas se tocam.

É daí que vem a palavra. Camus abre o ensaio dizendo que só existe um problema filosófico realmente sério, o de julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida, e não está falando de psiquiatria nem de tristeza: está dizendo que toda outra pergunta da filosofia vem depois desta. Dentro desse enquadramento, o chamado suicídio físico elimina um dos lados do confronto, o de quem pergunta. O salto elimina o outro, o do silêncio do mundo, que passa a ser calado por uma resposta. Os dois acabam com a tensão. Um tira o homem, o outro cala o mundo, e o resultado é o mesmo: acabou o atrito, acabou o absurdo.

Repare que a comparação é de estrutura, não de gravidade nem de intenção. Por isso Camus precisa dizer que o nome não implica julgamento: ele descreve o que um pensamento faz com a tensão, e é ao pensamento, não à pessoa, que a palavra se aplica.

E quem tem fé?

Aqui a conversa muda. Quando um grupo de estudos do Nous chegou a este capítulo, a leitura que saiu dali foi mais exata do que a de manual: suicídio filosófico não é só o salto de fé desses quatro nomes, é qualquer ato de decidir de vez qual é o sentido da vida. Pela fé, ou pela conclusão oposta, o "não tem sentido nenhum, tanto faz". Nos dois casos a pessoa parou de viver a pergunta em aberto.

O critério de Camus nunca foi a crença. É para onde a pessoa desloca o peso da decisão. Quem diz "tanto faz" também fechou a pergunta, só que para o outro lado, e é por isso que a descrença convicta não escapa do suicídio filosófico por ser descrença.

A consequência é que nada impede um cristão de ser um homem absurdo no sentido de Camus, se faz o bem porque é o certo, e não como pagamento adiantado pelo eterno. A definição está no capítulo "O homem absurdo": homem absurdo é "aquele que, sem negá-lo, nada faz pelo eterno". Não é quem nega o eterno. É quem para de fazer as contas.

A porta que Camus fecha, e não prova que não existe

Há uma leitura do livro que a aula do vídeo propõe, e que vale guardar antes que ela soe como veredito sobre a sua fé: Camus fecha a porta do consolo e, em nenhuma linha, prova que ela não existe. O que ele prova é que não vai atravessá-la sem estar convencido. É outra coisa, e é bem mais respeitável do que negar.

Dito de outro modo, o alvo do argumento é a fé que decidiu de vez para parar de perguntar. A fé que continua perguntando, essa Camus não derruba.

O homem que foi conferir

O rigor dele aparece num detalhe. Quando Chestov cita Hamlet para sustentar o próprio salto, Camus interrompe e escreve: "Mas não é assim que Hamlet a pronuncia ou que Shakespeare a escreve." Ele foi conferir a citação antes de aceitar o argumento. O rigor faz parte do método: quem critica o salto dos outros começa por checar o que cada um escreveu.

O que sobra quando o salto e a saída estão fora

Se o salto está fora e o suicídio físico também, sobra a revolta. Revolta, aqui, não é protesto nem revolução: é a recusa de largar qualquer um dos dois lados do confronto, viver com plena consciência do absurdo, sem a esperança de resolvê-lo e sem a resignação de fingir que ele não existe. No capítulo "A liberdade absurda", Camus escreve: "Uma das poucas posturas filosóficas coerentes é a revolta. Ela é um confronto perpétuo do homem com sua própria escuridão."

Sem o salto e sem o suicídio físico, a revolta é viver com a pergunta em aberto. A aula completa mostra como o capítulo se encaixa no resto do ensaio e por onde entrar no livro sem travar nele.

Se este assunto toca em algo que você está vivendo, o CVV conversa com quem precisa, a qualquer hora e com sigilo, pelo telefone 188 ou em cvv.org.br.

Leituras do Nous

Leia os clássicos com profundidade

A nossa lista de mais de 230 livros recomendados, comentados e organizados por tema, para você não ler no escuro.

Ver as leituras recomendadas

Perguntas frequentes

O que é suicídio filosófico segundo Camus?

É o movimento pelo qual um pensamento reconhece o absurdo e, em vez de sustentá-lo, o elimina, decidindo de vez qual é o sentido da vida. Camus usa a expressão como uma maneira cômoda de designar esse movimento, e avisa que ela não implica um julgamento. É um conceito sobre como um pensamento se comporta, não sobre o estado de uma pessoa.

Por que Camus chama o salto de fé de suicídio filosófico?

Porque a estrutura é a mesma do suicídio físico, no raciocínio dele: os dois eliminam um dos dois lados do confronto para acabar com a tensão. O absurdo nasce do encontro entre a pergunta humana e o silêncio do mundo. Um dos movimentos tira quem pergunta, o outro cala o mundo, e em ambos o atrito desaparece.

Quem tem fé pratica suicídio filosófico?

Não necessariamente. O critério de Camus não é a crença, é para onde a pessoa desloca o peso da decisão. A leitura do grupo de estudos do Nous vai além: suicídio filosófico é qualquer ato de decidir de vez qual é o sentido da vida, pela fé ou pela conclusão oposta, o "tanto faz". Nos dois casos a pessoa parou de viver a pergunta em aberto.

Camus prova que Deus não existe?

Não. Na leitura da aula, Camus fecha a porta do consolo e em nenhuma linha prova que ela não existe. O que ele afirma é que não vai atravessá-la sem estar convencido, e isso é outra coisa.

Quais filósofos Camus acusa de suicídio filosófico?

Kierkegaard, Chestov, Jaspers e Husserl. Camus elogia a lucidez com que enxergaram o absurdo e critica o salto que deram em seguida, recuperando do outro lado do abismo algo que resolve o problema. A crítica está no capítulo "O suicídio filosófico" de O Mito de Sísifo.

Continue: O Mito de Sísifo, de Camus: resumo e por onde começar · Qual é o Sentido da Vida? · Apologia de Sócrates: a frase que não é de calendário · Ler não é concordar: o trecho mais difícil da Odisseia
Aula de origem: O Mito de Sísifo, de Albert Camus