Você abriu O Mito de Sísifo, avançou algumas páginas e largou no meio. Não é um livro longo, cabe numa tarde, e mesmo assim trava cedo. O motivo não é você: é a porta por onde se entra. O livro não tem a cadência de um romance, não há enredo para puxar de uma página à outra. Ele empilha ideias e cobra que você acompanhe. O que segue é o resumo do argumento na ordem em que ele avança, e uma rota de leitura que não é a da ordem impressa.
O que é O Mito de Sísifo, e quando foi escrito
O Mito de Sísifo é um ensaio filosófico de Albert Camus, de 1942, que parte de uma pergunta: vale a pena viver num mundo que não responde por quê? O autor se diz Camü, com o u francês, e não "Cami". Era argelino, filho de uma mãe faxineira e de um pai morto na Primeira Guerra antes de ele completar um ano, e cresceu pobre em Argel: a primeira coisa que viu foi o sol e o mar, não uma biblioteca. Isso importa: o homem que escreveu o ensaio mais seco da literatura sobre a falta de sentido gostava de viver. Em 1942 ele tem 28 anos, está tuberculoso, vive na França em guerra e escreve quase ao mesmo tempo um romance, O Estrangeiro, e este ensaio. São a mesma pergunta em duas línguas: o romance mostra, o ensaio argumenta.
O absurdo: a palavra que trava todo mundo
Absurdo, em Camus, é o atrito entre duas superfícies: um ser humano que precisa que as coisas tenham razão de ser e um universo que não responde. No português do dia a dia a palavra quer dizer disparate, e não é isso. O absurdo não está no mundo nem em você, está no encontro entre os dois.
"O irracional, a nostalgia humana e o absurdo que surge de seu encontro, eis os três personagens do drama que deve necessariamente acabar com toda a lógica de que uma existência é capaz." (O Mito de Sísifo, Albert Camus, tradução da Record, capítulo Os muros absurdos)
Tire um dos lados, um universo que responda ou uma pessoa que não pergunte, e o absurdo desaparece.
O argumento de Camus, em cinco passos
Do problema à recusa de duas saídas e, daí, a uma imagem: um homem descendo uma montanha.
1. A pergunta
O livro abre assim: "Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia." (capítulo O absurdo e o suicídio). Camus não fala de psiquiatria nem de tristeza: diz que toda outra pergunta da filosofia vem depois desta, e que o resto é conversa de quem já decidiu que vale a pena continuar acordando.
Vem então um fato contraintuitivo, que é o eixo do capítulo. Camus vira do avesso a lógica ingênua de que quem acha a vida sem sentido se mata: quem se mata, na maior parte dos casos, tinha certeza do sentido da vida, e é a ruína dessa certeza que pesa, não a ausência dela. Entre os que negaram o sentido, praticamente nenhum levou a própria lógica ao fim, e a exceção não é um filósofo, é um personagem: Kirílov, o engenheiro de Os Demônios, de Dostoiévski. Camus precisa de uma ficção para achar alguém coerente: na vida real ninguém leva a negação do sentido até o fim. As pessoas negam o sentido e continuam almoçando, amando, pagando conta. Ele trata isso como dado, não como covardia, e é desse dado que sai o livro inteiro: "Cultivamos o hábito de viver antes de adquirir o de pensar." (capítulo O absurdo e o suicídio)
(Se a pergunta deixou de ser de livro e virou sua, converse com alguém de confiança. No Brasil, o CVV atende pelo 188, a qualquer hora.)
2. O salto
Kierkegaard, Chestov, Jaspers, Husserl: todos enxergaram o absurdo com uma lucidez que Camus elogia e, no momento seguinte, deram um salto, recuperando do outro lado do abismo algo que resolve o problema. Ele chama isso de suicídio filosófico e avisa que o nome não é xingamento: o suicídio físico e o salto eliminam, cada um, um dos dois lados do confronto para acabar com a tensão. Um mata o homem, o outro cala o mundo. A pergunta que mais incomoda quem tem fé está em Suicídio filosófico, segundo Camus: e quem tem fé?.
3. A revolta
Se o salto está fora e o suicídio também, sobra a revolta, que aqui não é protesto nem revolução: é a recusa de largar qualquer um dos dois lados. Viver com plena consciência do absurdo, sem esperança de resolvê-lo e sem a resignação de fingir que ele não existe. "Uma das poucas posturas filosóficas coerentes é a revolta." (capítulo A liberdade absurda)
4. O que "tudo é permitido" não quer dizer
A leitura errada mais comum do livro é esta: se não há sentido, tudo é permitido, então eu faço o que quiser. Camus fecha a porta a quem tenta: "Tudo é permitido não significa que nada é proibido." (capítulo O homem absurdo). Há ainda uma consequência que os resumos deixam de fora: se todas as experiências são indiferentes, a experiência do dever vale tanto quanto qualquer outra. A discussão completa está em Se Deus não existe, tudo é permitido? A resposta de Camus.
5. A descida
O capítulo que dá nome ao livro mostra Sísifo empurrando a pedra e vendo-a rolar de volta. Essa é a imagem que ficou, mas Camus não olha para a subida. Olha para o intervalo depois dela:
"Vejo esse homem descendo com passos pesados e regulares de volta para o tormento cujo fim não conhecerá. Essa hora, que é como uma respiração e que se repete com tanta certeza quanto sua desgraça, essa hora é a da consciência." (capítulo O mito de Sísifo)
Na subida o esforço engole tudo; na descida ele está de mãos vazias e sabe o que vai acontecer de novo. Por isso a tragédia não está no castigo: "Este mito só é trágico porque seu herói é consciente." (capítulo O mito de Sísifo). Camus troca então o mito por um homem comum, o operário, cujo destino, diz ele, só é trágico nos raros momentos em que se torna consciente. O capítulo fecha com uma frase dura: "Seu destino lhe pertence. A rocha é sua casa." Não é conformismo, que diria que a pedra não é tão pesada.
A frase famosa, "É preciso imaginar Sísifo feliz", é a última linha desse capítulo, e a descoberta não está nela, está na frase anterior. O caminho completo está em É preciso imaginar Sísifo feliz: a frase completa.
Por onde começar a ler O Mito de Sísifo
Comece pelo capítulo que dá nome ao livro. Ele fica quase no fim e tem menos de dez páginas. Leia-o primeiro, fora de ordem mesmo: é a única parte narrativa do ensaio e entrega a imagem que todo o resto vai justificar. Depois, e só depois, volte à primeira página.
O que vai travar é o capítulo O suicídio filosófico, em que Camus cita nomes que dá por descontado que você conhece. Não pare para estudar cada um. Guarde uma chave só: todos eles viram o mesmo abismo, e todos deram um salto para o outro lado. Camus se recusa a saltar.
O apêndice sobre Kafka deixe para a segunda leitura: é ali que a maior parte das pessoas desiste. E vale ler em companhia: muitas vezes a dificuldade diminui quando o livro é lido em grupo, porque alguém entende melhor uma frase e, ao compartilhar, o texto abre para todos. Veja também Livro difícil de entender: quando o desconforto ajuda. A edição que indicamos, na tradução da Record, está na descrição do vídeo.
O que o ensaio deixa em aberto
Camus fecha a porta do consolo e, em nenhuma linha, prova que ela não existe: prova que não vai atravessá-la sem estar convencido, e é outra coisa. A pergunta que o vídeo deixa é se aceitar a pedra é a conquista de um homem lúcido ou a maior racionalização da história da filosofia, um sujeito chamando a própria prisão de liberdade. Os dois lados se defendem com o que o livro traz. E há um dado que não está em Camus: nas Metamorfoses, de Ovídio, Sísifo para uma vez, e o descanso vem de fora. Um Sísifo é consolado, o outro é lúcido, e o vídeo termina nessa diferença.
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Sobre o que é O Mito de Sísifo, de Camus?
É um ensaio filosófico de 1942 sobre uma pergunta: se a vida vale a pena ser vivida quando o mundo não responde por quê. Camus chama de absurdo o atrito entre a necessidade humana de sentido e o silêncio do universo, recusa as duas saídas fáceis, o suicídio e o salto de fé, e propõe a revolta: viver com plena consciência do absurdo, sem esperança de resolvê-lo e sem fingir que ele não existe.
Por onde começar a ler O Mito de Sísifo?
Pelo capítulo que dá nome ao livro, que fica quase no fim e tem menos de dez páginas. É a única parte narrativa do ensaio e entrega a imagem que o resto vai justificar. Depois você volta à primeira página. O capítulo que mais trava é O suicídio filosófico, e o apêndice sobre Kafka vale deixar para a segunda leitura.
O que é o absurdo para Camus?
Não é o disparate do uso cotidiano. Para Camus, o absurdo não está no mundo nem em você: está no encontro entre os dois, entre um ser humano que precisa que as coisas tenham razão de ser e um universo que não responde. Tire um dos lados e o absurdo desaparece.
O Mito de Sísifo é difícil de ler?
É, e por um motivo que não é falta de capacidade do leitor: o ensaio não tem a cadência de um romance, nenhum enredo puxa de uma página para a outra. Ele empilha ideias e cobra que você acompanhe. A rota de leitura ajuda (o capítulo que dá nome ao livro primeiro, o salto com uma chave só, Kafka na segunda leitura), e muitas vezes a dificuldade diminui quando o livro é lido em grupo.
Vale a pena ler O Mito de Sísifo?
Vale, se você aceita entrar pela porta certa. É um ensaio curto, que cabe numa tarde, e o capítulo que dá nome ao livro, com menos de dez páginas, é a única parte narrativa e entrega a imagem que o resto justifica. Quem tenta ler na ordem impressa costuma largar no meio, e o problema não é o leitor, é a porta por onde entrou.
Qual é a última frase de O Mito de Sísifo?
A frase mais famosa é "É preciso imaginar Sísifo feliz", e ela fecha o capítulo que dá nome ao livro. A descoberta de Camus, porém, está na frase anterior, sobre a hora da descida. O ensaio ainda tem o apêndice sobre Kafka depois desse capítulo. A explicação completa está no artigo É preciso imaginar Sísifo feliz: a frase completa.
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Aula de origem: O Mito de Sísifo, de Albert Camus