"Ser alguém na vida" é uma frase que quase todos nós já dissemos ou ouvimos, e O Vermelho e o Negro, de Stendhal, a pega pelo avesso. No romance, "chegar a ser alguém" é o que uma carta diz que Julien Sorel tentou, e é a carta que o derruba. Este artigo segue o que Julien quis quando quis ser alguém, o que perdeu no caminho e a pergunta que o livro deixa. Não é um guia de sucesso: é a leitura de um romance sobre o que a corrida custa.
A frase está no livro
No Livro II, Julien chega ao que quis a vida inteira. O marquês de La Mole cede ao casamento com a filha e lhe dá terras, um nome de nobre e uma patente de tenente. Vermelho, enfim: a farda. E o romance mede, de imediato, o tamanho da vitória:
"Mal se tornara tenente, por favor e havia dois dias, já calculava que para ser comandante em chefe aos trinta anos, ao mais tardar, como todos os grandes generais, era necessário ser mais do que tenente aos vinte e três anos." (Stendhal, O Vermelho e o Negro, Livro II, cap. 35, edição Penguin Companhia, tradução de Raquel de Almeida Prado.)
A vitória não chega a durar dois dias. Para quem vive em campanha, nada basta. Então chega uma carta. O marquês tinha pedido informações sobre Julien à sra. de Rênal, e a resposta diz:
"Pobre e ambicioso, foi com a ajuda da mais consumada hipocrisia e pela sedução de uma mulher fraca e infeliz, que esse homem tentou alcançar uma posição e chegar a ser alguém." (Livro II, cap. 35.)
Repare em quem usa a expressão. Na passagem que a aula traz, ela está na carta, na boca de quem o acusa. "Chegar a ser alguém", ali, é o nome que a sociedade dá ao que Julien tentou: alcançar uma posição. E a carta é verdadeira o bastante para destruí-lo.
O que ele quis: a imagem da coroa
O que Julien queria, no fundo, cabe numa imagem. É a de A Coroação de Napoleão, de Jacques-Louis David: um general nascido na Córsega, coroando a imperatriz Josefina diante de todos. A aula do Nous o diz com cuidado, em primeira pessoa: eu imagino que, na cabeça de Julien, essa era uma imagem que ele conhecia perfeitamente. O romance não afirma que Julien viu a tela. O que a aula faz é usar o quadro como retrato do desejo: estar naquele lugar, ter aquela coroa. Os detalhes do quadro estão em A Coroação de Napoleão, de David: o que o quadro mostra.
E então a aula faz a pergunta que importa: o que seria ele com aquela coroa?
Alguém ou uma coisa
Aqui entra uma frase em inglês. O professor José Monir Nasser, que fez várias aulas sobre os clássicos e tem uma aula somente sobre este romance, a usa para resumir a situação de Julien: someone or something. Alguém ou uma coisa. A aula do Nous recomenda anotá-la, porque este é um dos eixos da obra. (A transcrição da aula dele é automática, por isso o que está aqui é paráfrase, não citação literal.)
Veja como a frase organiza o livro. Julien é, ao longo dele, uma sucessão de papéis: o camponês que finge vocação para a batina, o preceptor, o seminarista de cara de fé cega, o secretário de um marquês, o cavaleiro de La Vernaye, o tenente. Cada um é uma coisa que ele veste para subir. E o outro polo, alguém, só aparece nos intervalos, quando ele esquece de fingir. É nesses termos que a aula descreve a cela: não mais um camponês fingindo de padre, nem o secretário fingindo de nobre. A mesma aula atribui ao professor a lição que ele tira de Dom Quixote: a primeira obrigação é sermos quem somos.
O que ele perdeu
O romance mostra o custo da corrida em cenas pequenas. A primeira é a noite do jardim, em que Julien segura a mão da sra. de Rênal debaixo da tília. O rapaz que passara o dia inteiro calculando relaxa, e o narrador diz:
"[...] falou, esqueceu de fingir, pareceu um homem amabilíssimo às duas amigas que o escutavam." (Livro I, cap. 9.)
Mas no mesmo capítulo ele precisa queimar o retrato de Napoleão, para ninguém descobrir, e pensa:
"[...] minha reputação é o meu único bem, é só por ela que vivo… E ainda assim, que vida, meu Deus!" (Livro I, cap. 9.)
A segunda cena é a da janela. Antes de partir para Paris, Julien compra uma escada de um camponês e, de madrugada, sobe até o quarto da sra. de Rênal. Ela o recebe, e o narrador avisa o que ele fez daquela noite:
"Se a volta aos sentimentos ternos e o eclipse dos remorsos da sra. de Rênal tivessem chegado um pouco antes, teriam sido uma felicidade divina; obtidos assim, mediante artifício, não passaram de um prazer." (Livro I, cap. 30.)
Felicidade divina, antes. Prazer, depois do artifício. É a conta de quem entra pela janela, mesmo no quarto de quem o ama.
A aula fecha esse trecho com uma observação que sai do livro e chega a nós. Acontece conosco também: estamos num jantar bom, numa conversa boa, e uma parte de nós continua pensando se estamos dizendo coisas interessantes, se causamos boa impressão, se as pessoas ficaram entusiasmadas. Voltamos para casa sem levar nada, porque não estivemos na noite. É a campanha de Julien, em escala de jantar.
Quando ele foi alguém
A resposta do romance vem tarde, e vem da cela. Preso, Julien perde a ambição de uma vez. Não pensa mais em Paris, nem em Mathilde, nem na farda, só nos passeios no bosque de Vergy. E estranha o que sente:
"Contudo, é estranho que eu só tenha conhecido a arte de gozar a vida depois de ver seu termo se aproximar." (Livro II, cap. 40.)
Quando a sra. de Rênal vem vê-lo e os dois se perdoam, ele diz: "Não poderíamos passar dois meses juntos de uma maneira deliciosa? Dois meses são muitos dias. Nunca terei sido tão feliz." (Livro II, cap. 43.) Quando Julien deixa de fingir, já não tem nenhum futuro para calcular.
A aula guarda uma segunda pintura para esse momento: Napoleão em Fontainebleau, de Paul Delaroche, de 1840. O mesmo homem do primeiro quadro, mas sentado, desleixado, de botas sujas, num salão cheio de luxo, e a aula pergunta: luxo para quê? Julien carregou a vida inteira a primeira imagem, a do homem coroado. E termina como a segunda: sentado numa cela, sem uma farda que valha alguma coisa, sem nada mais a conquistar. É ali, e só ali, que ele experimenta a felicidade.
O que o romance responde, e o que deixa
O Vermelho e o Negro não condena a ambição e também não a absolve. O que ele mostra é um rapaz que acreditou na promessa do seu tempo, a de que cada um pode se fazer sozinho, e que fracassa apesar de todo o talento e de todo o esforço. O fracasso dele não está na queda: está em ter passado a vida inteira em campanha, sem perceber que a felicidade que teve aconteceu nas horas em que deixou de fingir.
Por isso a pergunta, a aula sugere, talvez não seja se devemos querer subir. Talvez seja outra: nas horas em que tudo vai bem, nós estamos lá, ou continuamos contando pontos? E o que a aula não resolve, e o livro deixa com quem lê, é se dá para deixar de fingir antes da cela, no meio da vida, com tudo ainda em jogo. Para conhecer o rapaz por inteiro, comece por Quem foi Julien Sorel? O rapaz que vivia em campanha. O desfecho, com spoiler, está em O final de O Vermelho e o Negro: a felicidade na cela.
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O que quer dizer "ser alguém na vida" em O Vermelho e o Negro?
A expressão aparece na carta da sra. de Rênal que derruba Julien Sorel: ele teria tentado, por hipocrisia e sedução, "alcançar uma posição e chegar a ser alguém". No romance, ser alguém é ocupar uma posição, e Julien passa o livro medindo-se por elas: o aumento, a patente de tenente, o posto seguinte. A felicidade dele aparece em outro lugar, nas horas em que esquece de fingir.
O que significa someone or something na aula sobre O Vermelho e o Negro?
É a frase em inglês que o professor José Monir Nasser usa, em uma aula sobre o romance, para resumir a situação de Julien: ser alguém ou ser uma coisa. A aula do Nous a toma como um dos eixos da obra. Ao longo do livro Julien veste papéis, camponês fingindo de padre, secretário fingindo de nobre, e só na cela deixa de fingir e é quem é.
Julien Sorel foi feliz?
Só quando deixou de fingir. Uma das poucas horas felizes do primeiro livro é a noite do jardim, em que ele se distrai do plano. A felicidade plena vem na cela, sem futuro para calcular, quando diz à sra. de Rênal que nunca terá sido tão feliz.
O Vermelho e o Negro condena a ambição?
Não condena e também não absolve. O romance mostra um rapaz que acreditou na promessa do seu tempo, a de que cada um pode se fazer sozinho, e que fracassa apesar de todo o talento e de todo o esforço. O fracasso dele não está na queda, está em ter passado a vida inteira em campanha.
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Aula de origem: O Vermelho e o Negro, de Stendhal