Quem chega ao fim de O Vermelho e o Negro fica com duas perguntas: por que um rapaz que estava a um passo de tudo atira na mulher que amou, e por que o romance dá a ele, numa cela de condenado, a felicidade que a carreira inteira não deu? Este artigo conta o final inteiro, com spoiler, na ordem do livro: a carta, o tiro na igreja, o discurso ao júri, a cela e os dois últimos capítulos. Se você ainda não leu o romance, guarde-o para depois.
O que acontece antes: a vitória que dura dois dias
Julien Sorel está no auge. Mathilde de La Mole, a filha do marquês, espera um filho dele, e o marquês, furioso, acaba cedendo: dá a Julien terras, um nome de nobre, cavaleiro de La Vernaye, e uma patente de tenente. É o vermelho, enfim, a farda que ele quis a vida inteira. Dois dias depois, Julien já calcula o posto seguinte. Para quem vive em campanha, nada basta.
Então chega uma carta. O marquês tinha pedido informações sobre Julien à sra. de Rênal, e a resposta dela diz:
"Pobre e ambicioso, foi com a ajuda da mais consumada hipocrisia e pela sedução de uma mulher fraca e infeliz, que esse homem tentou alcançar uma posição e chegar a ser alguém." (Stendhal, O Vermelho e o Negro, Livro II, cap. 35, edição Penguin Companhia, tradução de Raquel de Almeida Prado.)
Tudo cai.
Por que Julien atira na sra. de Rênal?
Julien corre para Verrières, compra pistolas e entra na igreja durante a missa. O romance conta o que se segue em uma linha só:
"Julien não a reconhecia mais tão bem; atirou uma vez e errou; atirou uma segunda vez, ela caiu." (Livro II, cap. 35.)
A sra. de Rênal sobrevive, ferida. E a pergunta que todo leitor faz é por que ele atirou. O livro não responde com uma frase, e há duas leituras que o texto sustenta.
A primeira é a de vingança: a carta descreve Julien como pobre, ambicioso, hipócrita, sedutor de uma mulher fraca, e vem da mulher que ele mais amou, no dia em que tudo estava ganho. A segunda é a de uma explosão sem cálculo. O tiro foi premeditado, com pistolas compradas e carregadas, mas a mão dele treme antes, e o narrador diz que ele já não a reconhecia bem. É o gesto de um rapaz que passou anos reprimindo tudo e que, de uma vez, destrói a única coisa que perseguiu até ali, a ascensão. Quem calcula não faz isso.
O próprio Julien não sabe. Na prisão, pensando nela, ele se pergunta:
"Depois de uma ação dessas, como persuadi-la de que é a ela que amo, unicamente? Pois, afinal, quis matá-la por ambição ou por amor a Mathilde." (Livro II, cap. 42.)
O livro ainda revela, mais adiante, um dado que muda quem ele acreditava ter ferido: a carta que o atingiu foi escrita pelo jovem padre que era conselheiro espiritual da sra. de Rênal, e depois copiada por ela (Livro II, cap. 43).
E há o lado de fora do romance. Stendhal não inventou o tiro do nada. Em 1827, um ex-seminarista chamado Antoine Berthet atirou na antiga amante dentro de uma igreja, durante a missa. Ela sobreviveu, como a sra. de Rênal. Berthet foi julgado e guilhotinado em Grenoble, a cidade natal de Stendhal, em fevereiro de 1828. Stendhal leu o processo no jornal, e o que acrescentou foi tudo o que o processo não tinha: a ambição de Julien, os salões de Paris e o discurso ao júri. Ou seja, o porquê do tiro, no romance, é invenção de Stendhal, e é por isso que ele pesa tanto.
O discurso no tribunal
Preso, Julien declara ao juiz que premeditou o crime e merece a morte. O narrador marca o instante em que o remorso nasce: só quando o carcereiro lhe conta que a sra. de Rênal não morreu, "Só então Julien começou a se arrepender do crime cometido" (Livro II, cap. 36). A culpa, para ele, é pessoal antes de ser legal.
No julgamento, ele recusa a defesa que o advogado sugere, alegar ciúme, e deixa o advogado falar. Passada a meia-noite, quando o presidente pergunta se tem algo a acrescentar, levanta-se e acusa o tribunal:
"Senhores, não tenho a honra de pertencer à sua classe, os senhores veem em mim um camponês que se revoltou contra a baixeza de sua sorte." (Livro II, cap. 41.)
Em vez de pedir clemência, ele assume a premeditação, aceita a pena como justa e diz aos jurados que o que querem punir nele é a origem: o jovem pobre que teve a audácia de se misturar ao que os ricos chamam de boa sociedade. O júri o declara culpado, e a pena de morte é pronunciada.
Repare no que o gesto tem de estranho. O rapaz que passou o livro inteiro fingindo para agradar a quem decidia sobre ele, o seminarista, o secretário, o amante, diz diante de todos o que é: um camponês.
A cela: a felicidade que ele não calculou
É na cela que o livro vira do avesso. Julien perde a ambição de uma vez. Não pensa mais em Paris, nem em Mathilde, nem na farda. Só pensa em Vergy, a casa de campo dos Rênal, e nos passeios no bosque. E estranha o que sente:
"Contudo, é estranho que eu só tenha conhecido a arte de gozar a vida depois de ver seu termo se aproximar." (Livro II, cap. 40.)
Então a sra. de Rênal vem vê-lo. Os dois se perdoam, e ele diz:
"Não poderíamos passar dois meses juntos de uma maneira deliciosa? Dois meses são muitos dias. Nunca terei sido tão feliz." (Livro II, cap. 43.)
Compare com a noite do jardim, no começo do livro, em que Julien segura a mão dela contando as batidas do relógio. Lá, a felicidade veio e foi embora na hora em que ele voltou a calcular. Aqui não há o que calcular. Nos últimos capítulos, o texto diz que Julien "não tinha o menor amor-próprio perante ela e lhe contou todas as suas fraquezas" (Livro II, cap. 45), e ele mesmo faz a conta do que a ambição lhe tomou:
"[...] quando poderia ter sido tão feliz em nossos passeios nos bosques de Vergy, uma impetuosa ambição transportava minha alma para regiões imaginárias. [...] Não, eu morreria sem conhecer a felicidade se você não tivesse vindo me ver nesta prisão." (Livro II, cap. 45.)
É o que a aula do Nous chama de virada: pela primeira vez, Julien é quem ele realmente é. Não é mais o camponês fingindo de padre, nem o secretário fingindo de nobre. E a imagem que fecha a cena é a de um quadro, o de Napoleão sentado em Fontainebleau, de botas sujas, cercado de um luxo que já não serve para nada. Julien carregou a vida inteira a imagem de Napoleão coroado, e termina no segundo quadro: sentado numa cela, sem uma farda que valha alguma coisa, sem nada mais a conquistar. As duas pinturas estão em A Coroação de Napoleão, de David: o que o quadro mostra.
O que o romance conta depois
A aula termina na cela, onde a leitura se decide. O livro continua por mais alguns capítulos, e vale saber o que há neles.
Julien recusa a conversão com alarde que o confessor lhe aconselha como meio de obter clemência e proíbe a sra. de Rênal de ir pedir perdão ao rei. Na manhã da execução, é guilhotinado, e morre sem afetação, sob um lindo sol. Antes, exige dela o juramento de que viverá para o filho de Mathilde. Fouqué, o velho amigo, compra o corpo e o leva para uma gruta na montanha que domina Verrières. Mathilde acompanha o enterro e pega a cabeça de Julien para beijá-la na testa, repetindo a lenda do antepassado dela, o La Mole decapitado cuja memória a fascinava desde o salão de Paris.
E o romance fecha a sra. de Rênal assim:
"A sra. de Rênal se manteve fiel a sua promessa. Não tentou de modo algum atentar contra sua vida; mas, três dias depois morreu abraçada aos filhos." (Livro II, cap. 45.)
O que o final quer dizer
Para a aula, tudo cabe em uma frase: Julien passou a vida fingindo para subir, e só foi feliz quando deixou de fingir. O romance não condena a ambição e também não a absolve. Mostra um rapaz que acreditou na promessa do seu tempo, a de que cada um pode se fazer sozinho, e que fracassa apesar de todo o talento e de todo o esforço. E o fracasso dele não está na queda: está em ter passado a vida inteira em campanha, sem perceber que a felicidade que teve aconteceu nas horas em que deixou de fingir.
Por isso a cela não é um castigo. É o único lugar do livro em que Julien não tem nada a provar a ninguém. E a pergunta que a aula deixa em aberto, e o livro com ela, é se dá para chegar a isso antes da cela, no meio da vida, com tudo em jogo.
Quem ainda não leu e quer começar pela edição certa encontra o caminho em Qual tradução de O Vermelho e o Negro ler?. Quem quer o romance inteiro na ordem, sem pular o que costuma travar, tem Do que trata O Vermelho e o Negro, de Stendhal e O Vermelho e o Negro é bom? Onde o livro trava.
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Como termina O Vermelho e o Negro?
Julien Sorel atira na sra. de Rênal durante a missa, depois de uma carta dela o descrever como pobre, ambicioso e hipócrita. Ela sobrevive. Julien é preso, acusa o tribunal em vez de se defender e é condenado à morte. Na cela, perde a ambição, reencontra a sra. de Rênal e diz que nunca terá sido tão feliz. Ele é guilhotinado, e ela morre três dias depois, abraçada aos filhos.
Por que Julien atira na sra. de Rênal?
O romance não responde numa linha. A carta da sra. de Rênal, escrita a pedido do marquês de La Mole, destrói num dia o futuro que Julien montou o livro inteiro, e ele reage com um tiro, não com um plano. O texto sustenta duas leituras, a de vingança e a de explosão do que ele reprimia, e o próprio Julien, na prisão, diz não saber se quis matá-la por ambição ou por amor a Mathilde.
Julien Sorel morre no final?
Sim. Condenado à morte pelo júri, é guilhotinado na manhã da execução, sem afetação. A sra. de Rênal, que tinha jurado viver para o filho de Mathilde, cumpre o juramento e morre três dias depois, abraçada aos filhos.
Por que Julien é feliz na prisão?
Porque ali já não tem futuro para calcular. Julien perde a ambição, pensa só nos passeios no bosque de Vergy e, diante da sra. de Rênal, conta todas as suas fraquezas sem fingir nada. É nessa cela que ele diz que nunca terá sido tão feliz, e a leitura do final é essa: ele só foi feliz quando deixou de fingir.
O que Julien diz no julgamento de O Vermelho e o Negro?
Recusa a defesa que o advogado sugere e acusa o tribunal. Começa assim: "Senhores, não tenho a honra de pertencer à sua classe, os senhores veem em mim um camponês que se revoltou contra a baixeza de sua sorte." Assume a premeditação, aceita a pena e diz que querem puni-lo pela origem. O júri o declara culpado.
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Aula de origem: O Vermelho e o Negro, de Stendhal