Julien Sorel é o protagonista de O Vermelho e o Negro, de Stendhal: um rapaz de dezoito ou dezenove anos, filho de um carpinteiro dono de serraria em Verrières, que lê escondido o relato do exílio de Napoleão e descobre que a França em que nasceu fechou a porta por onde ele entraria. A palavra que melhor o define é uma que a aula do Nous repete: Julien vivia em campanha. Trata a casa de um patrão como território inimigo, a mão de uma mulher como batalha a vencer e a vida inteira como uma guerra em que ninguém pode baixar a guarda. Este artigo mostra quem ele foi, como esse hábito nasceu e por que o romance não o trata como hipócrita por natureza.
Um rapaz de dezoito ou dezenove anos em Verrières
Verrières é uma cidadezinha do interior da França, e o narrador entrega a régua dela em duas palavras, escritas em maiúsculas: dar lucro. É nesse lugar que Julien vive. É o filho mais fraco de um carpinteiro, desprezado pelo pai e pelos irmãos, e em vez de trabalhar, ele lê, escondido no alto da serraria.
Um dia o pai sobe, bate nele, e o livro cai no riacho. O romance diz que Julien
"olhou tristemente o riacho onde caíra o livro; de todos, era o que mais prezava, o Memorial de Santa Helena." (Stendhal, O Vermelho e o Negro, Livro I, cap. 4, edição Penguin Companhia, tradução de Raquel de Almeida Prado.)
O Memorial de Santa Helena é o relato do exílio de Napoleão Bonaparte, e é o livro de cabeceira de Julien. Ele guarda, além disso, escondido no colchão, um retrato do imperador. Para um filho de carpinteiro, Napoleão não é só um herói: é a prova de que alguém sem nome pode chegar ao topo.
A conta da farda e da batina
Só que Julien nasce tarde. Poucos anos antes, sob Napoleão, um filho de camponês podia virar general aos trinta anos, bastavam coragem e talento. Napoleão é vencido em 1815, os reis voltam, e a regra muda: os bons lugares passam a depender de nascimento, de dinheiro e de proteção.
O livro nunca explica o título, mas a leitura que ilumina o romance é esta: o vermelho é a farda, o caminho que levou Napoleão ao poder e que se fechou, e o negro é a batina, o caminho que sobrou. Julien faz essa conta friamente, logo no começo:
"Hoje em dia vemos padres de quarenta anos recebendo cem mil francos de vencimentos, ou seja, três vezes mais do que os famosos generais de divisão de Napoleão. [...] É preciso ser padre." (Livro I, cap. 5.)
Repare que ele não diz que sente vocação. Diz que é preciso. O que move Julien, nessa conta, é entrar num mundo que decidiu não deixá-lo entrar, e a escolha da batina é só o que a época deixou aberto. O desenho completo do título está em Do que trata O Vermelho e o Negro, de Stendhal.
O rapaz que vivia em campanha
Quando o prefeito, o senhor de Rênal, contrata Julien como preceptor dos filhos, o rapaz entra naquela casa como quem entra em território inimigo. E dá o nome certo ao que faz. Ao arrancar um aumento do patrão, corre para o bosque e diz, com as palavras do homem que admira:
"Ganhei uma batalha, disse a si mesmo tão logo se viu no bosque e longe do olhar dos homens. Ganhei uma batalha!" (Livro I, cap. 10.)
Não foi um aumento: foi a vitória de uma batalha. Para Julien, a vida inteira é uma campanha militar, e a mais difícil é dentro de casa, com a dona da casa, a sra. de Rênal. Sob a tília, no jardim, ele prometeu a si mesmo uma coisa: quando o relógio bater dez horas, ou segura a mão dela, ou sobe para o quarto e dá um tiro na cabeça. Não é paixão. É uma batalha que ele decidiu vencer.
O padrão se repete. Antes de partir para Paris, compra uma escada de um camponês e, de madrugada, sobe até a janela da sra. de Rênal. Em Paris, sobe de escada até o quarto de Mathilde, de pistola na mão, mais assustado do que apaixonado, desconfiado de uma armadilha. Ele não entra pela porta, entra pela janela, e quem entra pela janela, mesmo no quarto de quem o ama, entra calculando.
E para quem vive em campanha, nada basta. Quando recebe a patente de tenente, a farda que sempre quis, a vitória não dura dois dias: já calcula o posto seguinte.
Julien é hipócrita?
O romance usa a palavra, e sem eufemismo. Mas a aula do Nous faz aqui uma distinção que muda a leitura: Julien não é hipócrita por natureza. Ele entendeu o mecanismo da sociedade em que vivia, e nessa sociedade, quem baixa a guarda perde.
O próprio narrador, quando chega à palavra, pede paciência ao leitor:
"A palavra surpreende os leitores? Até chegar a essa palavra horrível, a alma do jovem camponês teve de percorrer um bom caminho." (Livro I, cap. 5.)
O caminho é o da carreira das armas, que fechou. No seminário de Besançon, a hipocrisia deixa de ser um truque de província e vira método, vira formação. Ali Julien descobre que a inteligência, a única arma dele, é perigo: ser o primeiro da turma é suspeito, e uma cara de fé cega vale mais do que saber. Os colegas lhe dão um apelido por causa da lógica com que ele argumenta, Martinho Lutero.
"Então a ciência não vale nada aqui? [...] Meu único mérito consistia em [...] captar essas baboseiras. [...] E eu era tolo em me orgulhar!" (Livro I, cap. 26.)
Quem aprende a fingir como se aprende uma língua não fingia desde o berço. E a prova de que o fingimento não é a natureza dele está nas horas em que cai. Na noite do jardim, depois que ela deixa a mão, o rapaz que passara o dia calculando relaxa, e o romance diz:
"[...] falou, esqueceu de fingir, pareceu um homem amabilíssimo às duas amigas que o escutavam." (Livro I, cap. 9.)
Do lado dela, a sra. de Rênal "não pensava em nada, deixava-se viver". Mas no mesmo capítulo Julien precisa queimar o retrato de Napoleão para que ninguém o descubra, e pensa:
"[...] minha reputação é o meu único bem, é só por ela que vivo… E ainda assim, que vida, meu Deus!" (Livro I, cap. 9.)
É esse o preço de viver em campanha. Uma das poucas horas em que Julien foi feliz foi aquela em que se distraiu do próprio plano. A aula do Nous fecha o paralelo com o que acontece conosco: estamos num jantar bom, numa conversa boa, e uma parte de nós continua contando pontos, vendo se causou boa impressão. Voltamos para casa sem ter estado na noite.
Como Julien termina
O que vem depois é contado com spoiler em O final de O Vermelho e o Negro: a felicidade na cela. Em resumo: uma carta derruba tudo às vésperas do triunfo, Julien atira na sra. de Rênal na igreja, recusa a defesa no julgamento e acusa o tribunal, e é condenado à morte. É na cela que o livro vira do avesso: sem futuro para calcular, ele deixa de fingir e diz que nunca terá sido tão feliz.
Julien Sorel existiu? O caso Berthet
Julien é invenção, mas o crime do enredo não foi. Em 1827, um ex-seminarista chamado Antoine Berthet atirou na antiga amante dentro de uma igreja, durante a missa. Ela sobreviveu, como a sra. de Rênal. Berthet foi julgado e guilhotinado em Grenoble, a cidade natal de Stendhal, em fevereiro de 1828. Stendhal leu o processo no jornal, e o que acrescentou foi tudo o que o processo não tinha: a ambição de Julien, os salões de Paris e o discurso ao júri.
Herói ou vilão: o que o livro responde
O Vermelho e o Negro não condena a ambição e também não a absolve. O que o romance mostra é um rapaz que acreditou na promessa do seu tempo, a de que cada um pode se fazer sozinho, e que fracassa apesar de todo o talento e de todo o esforço. O fracasso dele não está na queda. Está em ter passado a vida inteira em campanha, sem perceber que a felicidade que teve aconteceu nas horas em que deixou de fingir.
Daí a pergunta que a aula deixa para quem lê: o que nós perdemos quando passamos a vida inteira tentando provar o nosso valor? É o assunto de Ser alguém na vida: o que Julien Sorel quis e perdeu.
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Ver as leituras recomendadasPerguntas frequentes
Quem foi Julien Sorel?
É o protagonista de O Vermelho e o Negro, de Stendhal: filho de um carpinteiro dono de serraria em Verrières, leitor escondido do relato do exílio de Napoleão. Numa França em que os bons lugares passam a depender de nascimento, dinheiro e proteção, ele tenta subir pela batina, pelos salões e pela sedução, e vive a vida inteira, até o amor, como uma campanha militar.
Quantos anos tem Julien Sorel?
Dezoito ou dezenove anos quando o romance começa, em Verrières. No fim do livro, ele morre aos vinte e três.
Julien Sorel é hipócrita?
Não por natureza. O narrador usa a palavra hipocrisia sem eufemismo, mas mostra o caminho que a alma do rapaz percorreu até ela: Julien entendeu o mecanismo da sociedade em que vivia e aprendeu que, nela, quem baixa a guarda perde. No seminário, a hipocrisia vira método. E as poucas horas felizes dele são justamente as em que esquece de fingir.
Julien Sorel é herói ou vilão?
O romance não o condena nem o absolve. A aula do Nous lê O Vermelho e o Negro como a história de um rapaz que acreditou na promessa do seu tempo, a de que cada um pode se fazer sozinho, e que fracassa apesar de todo o talento e de todo o esforço. O fracasso dele não está na queda, está em ter vivido a vida inteira em campanha.
Julien Sorel existiu de verdade?
Não como personagem, mas o crime do enredo é real. Em 1827, um ex-seminarista chamado Antoine Berthet atirou na antiga amante dentro de uma igreja, durante a missa, e foi guilhotinado em Grenoble, a cidade natal de Stendhal, em fevereiro de 1828. Stendhal leu o processo no jornal e acrescentou o que ele não tinha: a ambição de Julien, os salões de Paris e o discurso ao júri.
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