A moral do mito de Sísifo: uma metáfora da vida moderna

Aula de origem: O Mito de Sísifo, de Albert Camus | Por que continuar se os dias são todos iguais?

Debaixo da pergunta de Camus existe outra, mais simples e mais dura, que quase todo mundo já fez sozinho e quase ninguém diz em voz alta: se os meus dias são todos iguais, por que eu continuo? É por ela que muita gente chega ao mito de Sísifo, procurando a moral e a metáfora. A resposta curta é que a moral é dupla: há a do mito grego e há a que Camus tira dele, e a metáfora da vida moderna é do próprio Camus, que põe um operário no lugar do rei de Corinto.

A moral do mito grego: castigado por querer ficar

Na versão que Camus resume, Sísifo era rei de Corinto e o mais astuto dos mortais. Entregou a Asopo, o deus-rio, o paradeiro da filha Egina, raptada por Júpiter, e pediu em troca uma fonte de água para a sua cidade. Quando mandaram a Morte buscá-lo, acorrentou-a. Antes de descer, pediu à mulher que não o enterrasse, e lá embaixo se queixou de estar insepulto e conseguiu licença para voltar. Voltou, reviu o mar e o sol, e não quis mais descer: foi preciso virem buscá-lo à força. O episódio inteiro, com a Morte acorrentada, está em Qual foi o crime de Sísifo.

A moral que o mito carrega, nessa versão, não é a de que o mau é punido. Camus escreve que foi o desprezo pelos deuses, o ódio à morte e a paixão pela vida que valeram a Sísifo o suplício. Ele não é castigado por maldade. É castigado por querer ficar. E a pena é sob medida: quem tentou parar o tempo ganhou uma tarefa que não para.

A moral que Camus tira: lucidez, sem consolo e sem resignação

Camus lê o mesmo homem de outro jeito. Para ele, o absurdo não está no mundo nem em você, está no encontro entre a necessidade humana de sentido e o silêncio do universo. Duas saídas desfazem esse atrito: o salto, que cala o mundo com uma resposta, e o suicídio, que tira quem pergunta. Camus recusa as duas, e o que sobra é a revolta, viver com plena consciência do absurdo, sem a esperança de resolvê-lo e sem a resignação de fingir que ele não existe.

A moral de Camus, portanto, não é uma lição de conduta sobre a pedra. É uma exigência sobre o olhar: enxergar. O mito só é trágico porque o herói é consciente, e é nessa hora, a da descida, que se decide o que se faz com a repetição. Essa hora, e a frase que fecha o capítulo, são o tema de outro artigo, É preciso imaginar Sísifo feliz. Aqui interessa o que vem a seguir: a metáfora.

A metáfora: o operário da fábrica de sapatos

A metáfora da vida moderna não foi inventada por quem lê Camus hoje. Está no capítulo. Camus troca o mito por um homem comum, o operário, e a aula do vídeo reconstrói a cena: uma fábrica de calçados, uma esteira. O homem pega a peça, passa a cola, gruda, larga. De novo. Oito horas por dia, em pé, com o barulho da máquina.

Camus escreve que o destino desse homem não é menos absurdo do que o de Sísifo, mas que só é trágico nos raros momentos em que ele se torna consciente. O resto do tempo, o gesto repetido o engole, como a subida engole Sísifo.

Você não empurra pedra nenhuma montanha acima. Você abre o mesmo aplicativo, faz o mesmo trajeto, responde o mesmo tipo de mensagem. Quando esse hábito deixa de ser invisível, ele passa a ser exatamente a pergunta do começo: se os meus dias são todos iguais, por que eu continuo? A metáfora funciona porque a esteira de hoje mudou de forma e a estrutura ficou.

A objeção: "eu tenho um pouco de liberdade"

A melhor objeção a esse quadro veio de uma leitora, num dos grupos de estudo do Nous. Ela se colocou no lugar de Sísifo, disse que ia ficar louca e deu a diferença real: nós fazemos as mesmas coisas, mas temos um pouco de liberdade, e ele não tinha. Ela tem razão, e a resposta está no próprio livro: o operário é o contraexemplo, alguém que tem a liberdade que Sísifo não tem e ainda assim vive uma esteira.

A objeção, então, não derruba o argumento, afina. A liberdade que temos é a de escolher a pedra, não a de largá-la, porque trocar de emprego é trocar de pedra. E é por termos escolhido a nossa que a nossa dói de um jeito que a dele não dói. Camus fecha o capítulo com uma frase dura sobre isso: "Seu destino lhe pertence. A rocha é sua casa." (Albert Camus, O Mito de Sísifo, tradução da Record, capítulo "O mito de Sísifo".)

Isso não é conformismo. Conformismo seria dizer que a pedra não é tão pesada, e não é isso que Camus escreve: a pedra continua pesada, o topo não chega, e mesmo assim ela é sua.

O que o mito representa hoje

Se você precisa de uma moral em poucas linhas, ela é esta: o mito não pede que você suporte a repetição sorrindo, pede que você a veja. A primeira moral diz que querer ficar na vida tem preço, e a segunda diz que o preço só pesa de verdade quando se sabe de quem é a pedra. Entre as duas fica a pergunta que divide os grupos de leitura toda vez que o livro entra na roda: aceitar a pedra é a conquista de um homem lúcido, ou é a maior racionalização da história da filosofia, um sujeito chamando a própria prisão de liberdade? Os dois lados são defensáveis. A hora da consciência é real, e chamar de casa uma rocha que não se pode largar também é uma coisa que fazemos.

Para ler o capítulo antes de decidir, vale seguir a rota do resumo e por onde começar: ele fica quase no fim do ensaio, tem menos de dez páginas e é a única parte narrativa do livro. No vídeo, a aula percorre o mito, o operário, a objeção da leitora e a pergunta que fica em aberto.

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Perguntas frequentes

Qual é a moral do mito de Sísifo?

Há duas, e convém separá-las. A do mito grego, na versão que Camus resume: Sísifo não é castigado por ser mau, e sim por querer ficar, por paixão pela vida. A que Camus tira dele: o que importa é a lucidez, viver sabendo que a pedra volta a rolar, sem o consolo de uma resposta pronta e sem a resignação de fingir que o problema não existe.

Qual é a metáfora de Sísifo?

Sísifo é a metáfora de uma vida repetida sem recompensa à vista. Camus a leva para o chão da fábrica: um operário diante de uma esteira, fazendo todos os dias os mesmos gestos, tem um destino que não é menos absurdo do que o do mito. Para o leitor de hoje, a esteira pode ser o mesmo aplicativo, o mesmo trajeto, o mesmo tipo de mensagem.

O que o mito de Sísifo representa hoje?

A suspeita de que os dias são todos iguais e ninguém vai dizer para quê. Em Camus, esse destino só é trágico nos momentos em que a pessoa se torna consciente dele, e o ensaio propõe encarar essa consciência em vez de anestesiá-la.

Qual é a história do mito de Sísifo?

Sísifo, rei de Corinto, o mais astuto dos mortais, conta onde está Egina, raptada por Júpiter, em troca de uma fonte de água para a sua cidade. Quando a Morte vem buscá-lo, ele a acorrenta. Depois pede à mulher que não o enterre, obtém licença para voltar à terra e não quer mais descer. O castigo é empurrar uma pedra montanha acima para sempre.

Aceitar a pedra é conformismo?

Não, nesta leitura. Conformismo seria dizer que a pedra não é tão pesada, e Camus não diz isso. A pedra continua pesada, o topo não chega, e mesmo assim ela é sua: a liberdade que temos é a de escolher a pedra, não a de largá-la.

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