É preciso imaginar Sísifo feliz: a frase completa

Aula de origem: O Mito de Sísifo, de Albert Camus | Por que continuar se os dias são todos iguais?

Você já viu a frase em legenda de foto, em caneca, em post de segunda-feira de manhã: "É preciso imaginar Sísifo feliz." Quase sempre ela aparece sozinha, como se fosse a promessa de que, no fim, a vida compensa. É de Albert Camus, é a última frase do ensaio, a que fecha o capítulo que dá nome ao livro (o apêndice sobre Kafka vem depois), e anda com uma companheira que quase ninguém cita. Mais importante: a descoberta de Camus não está nela, está antes.

A frase completa, e onde ela está

A frase completa são duas sentenças, e elas fecham o capítulo que dá nome ao ensaio: "A própria luta para chegar ao cume basta para encher o coração de um homem. É preciso imaginar Sísifo feliz." Estão em O Mito de Sísifo, de Albert Camus (1942), no capítulo chamado também "O mito de Sísifo", na tradução da Record, que é a que vale para todas as citações de Camus neste artigo. No francês, a segunda sentença é Il faut imaginer Sisyphe heureux.

Repare no que a primeira sentença não diz. Não fala de topo alcançado, de recompensa, de pedra que finalmente fica no lugar. Fala da luta. Quando a frase é recortada e vira legenda, essa parte some, e o que sobra parece um conselho de otimismo. O texto de Camus é outra coisa.

A descoberta não está na caneca

O achado do capítulo vem antes, e fala de uma hora específica do dia. Camus não olha para a subida, olha para o intervalo que vem depois dela:

"Vejo esse homem descendo com passos pesados e regulares de volta para o tormento cujo fim não conhecerá. Essa hora, que é como uma respiração e que se repete com tanta certeza quanto sua desgraça, essa hora é a da consciência."

A hora da consciência: é esse o centro do capítulo, e a frase da caneca é a conclusão do raciocínio que ela abre. A imagem fica mais nítida quando você a divide em três momentos. Na subida, Sísifo está ocupado, e o esforço engole tudo. No topo, é só um instante. Na descida, ele está de mãos vazias e sabe exatamente o que vai acontecer de novo. É a esse intervalo que a aula do vídeo dá o nome de a hora de mãos vazias, e vale a pergunta que ela deixa: qual é a sua? O banho no fim do dia, o carro parado na garagem, os dez minutos antes de dormir.

É por causa dessa hora que a tragédia não está no castigo. Diz Camus: "Este mito só é trágico porque seu herói é consciente." Tire a consciência, e não sobra tragédia. Sobra um animal empurrando uma pedra.

Não é promessa de felicidade

Imaginar Sísifo feliz não é prometer que a pedra pesa menos. A objeção mais forte a essa leitura veio de uma leitora, num dos grupos de estudo do Nous: ela se colocou no lugar dele e disse que ia ficar louca. E acrescentou a diferença real: nós repetimos os mesmos dias, mas temos um pouco de liberdade, e ele não tinha.

A resposta está no próprio capítulo. Camus troca o mito por um homem comum, o operário que faz todos os dias os mesmos gestos diante da esteira, e escreve que o destino dele não é menos absurdo, mas que só é trágico nos raros momentos em que se torna consciente. A objeção não derruba o argumento, afina. A liberdade que temos e Sísifo não tem é a de escolher a pedra, não a de largá-la, porque trocar de emprego é trocar de pedra. E é por termos escolhido a nossa que a nossa dói de um jeito que a dele não dói.

Mais adiante no capítulo, o tom é duro: "Seu destino lhe pertence. A rocha é sua casa." Isso não é conformismo. Conformismo seria dizer que a pedra não é tão pesada, e não é isso que Camus escreve. O grupo que leu o livro com o Nous chegou, sem ninguém induzir, a uma leitura sem romantismo: ele aceitou, senão enlouquecia. Imaginar Sísifo feliz, nessa leitura, é a descrição do único estado em que um homem naquela situação não perde a razão. O que o mito ensina, e por que o operário é a metáfora da vida moderna, está em a moral do mito de Sísifo.

O outro Sísifo, o que descansa

Há um descanso de Sísifo na literatura antiga, e ele não está em Camus. Está nas Metamorfoses, de Ovídio, no Livro X. Orfeu desce ao mundo dos mortos para buscar Eurídice e canta diante dos reis do submundo. O canto atravessa o inferno inteiro: Tântalo esquece a sede, a roda de Íxion para de girar, as filhas de Dânao soltam as jarras, as Fúrias choram pela primeira vez. No meio da lista, um verso curto, dirigido a ele: "Tu, Sísifo, te assentas sobre a pedra." (Ovídio, Metamorfoses, Livro X, tradução de Bocage, seleta bilíngue da Concreta, 2016.)

Compare os dois com cuidado, porque a diferença é exata. Em Ovídio, o descanso vem de fora. Não é conquista de Sísifo, é concessão: alguém desceu até onde ele estava, cantou, e a beleza do canto de outro suspendeu a pena dele pelo tempo da música. Quando Orfeu se cala, a pedra volta a rolar. Em Camus não existe concessão nenhuma. Ninguém desce até você, ninguém canta. O que resta é a hora da descida, e ela é sua.

Um Sísifo é consolado. O outro é lúcido. E os dois estão certos sobre o mesmo homem: Ovídio descreve o que acontece quando alguém desce até você, Camus descreve o que sobra quando ninguém desce. A pergunta não é qual dos dois mentiu. É qual dos dois você viveu mais vezes.

Por onde ler o capítulo

O capítulo "O mito de Sísifo" fica quase no fim do ensaio, tem menos de dez páginas e é a única parte narrativa do livro. Vale lê-lo primeiro, fora de ordem, e só depois voltar à primeira página: ele entrega a imagem que todo o resto vai justificar. A ordem completa de leitura, com as passagens que costumam travar, está no resumo do ensaio e na rota para entrar nele.

Da próxima vez que você vir a frase na caneca, complete-a. A luta basta para encher o coração, e o que Camus pede é que você enxergue a hora da descida sem se enganar sobre ela. No vídeo, a aula percorre o capítulo inteiro, o operário, o verso de Ovídio e a pergunta que fica em aberto sobre se o descanso pode vir de fora e, se vier, se é consolo ou resposta.

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Perguntas frequentes

Qual é a frase completa de Camus sobre Sísifo?

São duas sentenças, que fecham o capítulo "O mito de Sísifo": "A própria luta para chegar ao cume basta para encher o coração de um homem. É preciso imaginar Sísifo feliz." A frase que circula sozinha é só a segunda. Tradução da Record.

Qual é a última frase de O Mito de Sísifo?

"É preciso imaginar Sísifo feliz." Ela fecha o capítulo que dá nome ao ensaio de Albert Camus (1942), precedida de "A própria luta para chegar ao cume basta para encher o coração de um homem". É a última frase do ensaio, a que fecha o capítulo que dá nome ao livro; o apêndice sobre Kafka vem depois.

Qual é a frase original de Camus em francês?

Il faut imaginer Sisyphe heureux. É a última sentença do capítulo que dá nome ao ensaio, publicado em 1942. Em português fica "É preciso imaginar Sísifo feliz".

O que quer dizer a frase "é preciso imaginar Sísifo feliz"?

Não quer dizer que a pedra pese menos nem que haja prêmio no topo. Camus localiza o achado na hora em que Sísifo desce de mãos vazias, sabendo o que vai acontecer de novo: essa hora, escreve ele, é a da consciência. A felicidade imaginada é a de quem enxerga o próprio destino sem se enganar.

Por que Sísifo é feliz?

Camus pede que o imaginemos feliz, e isso é diferente de afirmar que ele é. O mito só é trágico porque o herói é consciente, e o que sustenta a imagem é a lucidez: a luta basta para encher o coração, sem prêmio e sem consolo vindo de fora. Na leitura do grupo de estudos do Nous, é o único estado em que um homem naquela situação não perde a razão.

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