Todo mundo conhece a pedra, mas qual foi o crime de Sísifo? A resposta curta: três atos com a mesma raiz. Ele entregou um deus por uma fonte de água, acorrentou a Morte e, depois de solto, não quis voltar ao mundo dos mortos. Não foi maldade. Na versão que Albert Camus resume em O Mito de Sísifo, e que o vídeo conta, o crime dele, do começo ao fim, é a paixão pela vida. Abaixo está a história do mito, na ordem em que acontece.
O crime em três atos
Sísifo era rei de Corinto e tinha fama de ser o mais astuto dos mortais. Os três atos, na ordem em que o mito os conta, são o da água, o da Morte e o do retorno.
Primeiro ato: entregar um deus por água
A história começa com uma testemunha. Sísifo vê Júpiter, nome romano que Camus escolhe e que corresponde a Zeus entre os gregos, raptar Egina, filha do deus-rio Asopo. O pai vem procurar a filha, e Sísifo faz um negócio: conta onde ela está e pede em troca uma fonte de água para a sua cidade. Camus registra a troca numa linha só, e essa linha é a chave do personagem: Sísifo preferiu a bênção da água aos raios celestiais. Ele entregou um deus, e por água.
Segundo ato: acorrentar a Morte
A punição veio na hora. Mandaram a Morte buscá-lo, e Sísifo, em vez de ir, acorrentou a Morte.
Pare aqui um segundo, porque isso não é anedota. Se a Morte está acorrentada, ninguém morre. O texto de Camus é seco: Plutão não suportou o espetáculo do seu império deserto e silencioso e mandou o deus da guerra soltar a Morte das mãos daquele que a venceu. Mas pense no que acontecia lá em cima enquanto ela esteve presa. Uma aldeia, uma doença, nenhum remédio. Os doentes não morrem, ficam. Os feridos ficam, os velhos ficam. Continua nascendo gente e ninguém se vai, e a comida que dava para mil precisa dar para três mil. E o doente que não aguenta mais sofrer quer morrer e não consegue.
A pergunta que o vídeo faz é séria: soltar a Morte, sabendo que aquelas pessoas todas vão morrer, é a coisa justa a fazer? Se a sua resposta foi sim, você acabou de dizer algo grande, que a morte faz parte da vida. E, se faz, a condenação de Sísifo não é arbitrária, é sob medida: quem tentou parar o tempo foi condenado a uma tarefa que não termina.
Terceiro ato: o pedido à mulher e a volta que não terminou
Ele ainda deu mais um golpe. Antes de descer, pediu à mulher que não o enterrasse. Lá embaixo, queixou-se de estar insepulto e pediu licença para voltar e resolver aquilo. Deram a licença. Sísifo voltou, reviu o mar e o sol e não quis mais descer. Foi preciso virem buscá-lo à força.
A tese: castigado por querer ficar
Os três atos dizem a mesma coisa. Camus escreve que foi o desprezo pelos deuses, o ódio à morte e a paixão pela vida que lhe valeram aquele suplício (O Mito de Sísifo, Albert Camus, tradução da Record, capítulo O mito de Sísifo). O crime de Sísifo, do começo ao fim, é sempre o mesmo: paixão pela vida. Ele não é castigado por ser mau. É castigado por querer ficar. A moral que se tira do mito, e como ela vira metáfora da vida moderna, está em A moral do mito de Sísifo: uma metáfora da vida moderna.
Isso muda a leitura da pedra. O castigo não é um erro cruel de dosagem: um homem que quis impedir que a vida terminasse recebe uma tarefa que também não termina. E essa leitura prepara o que vem depois no ensaio. Se o crime é amar a vida, a descida da montanha, a hora em que ele caminha de mãos vazias de volta à pedra, deixa de ser só pena e passa a ser o lugar onde ele sabe o que fez. O passo seguinte está em É preciso imaginar Sísifo feliz: a frase completa.
E se você leu outra versão do mito?
O mito de Sísifo existe em muitas versões, e é normal que a que você leu não bata com esta. A que está acima é a que Camus resume e o vídeo conta, com Júpiter, Egina, Asopo, a fonte, a Morte acorrentada, Plutão e o pedido à mulher. O episódio de Egina e da fonte tem tradição antiga: aparece em Apolodoro, na Biblioteca (livro I, capítulo 9). Já os detalhes de como Sísifo escapa da morte variam de autor para autor. A imagem da pedra, por sua vez, é antiga: já aparece na Odisseia, no canto XI. Se for estudar o mito, saiba qual versão está em suas mãos.
Por que isso importa para ler Camus
Quem só conhece a pedra lê Sísifo como um castigado qualquer, e a frase mais famosa do ensaio vira legenda de foto. Quem conhece o crime lê outro homem: alguém que negociou com os deuses, venceu a Morte e quis ficar, e que depois de tudo isso continua descendo a montanha. Para ver como esse homem entra no argumento do livro inteiro, o ponto de partida é O Mito de Sísifo, de Camus: resumo e por onde começar. E, se você quer ver a carga em vez de ouvir falar dela, há a tela que Ticiano pintou em 1548, comentada em Sísifo, de Ticiano: o quadro que mostra a carga.
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Qual foi o crime de Sísifo?
Na versão que Camus resume em O Mito de Sísifo, três atos: entregou Júpiter (Zeus) ao pai de Egina em troca de uma fonte de água, acorrentou a Morte quando ela veio buscá-lo e, depois de libertado, não quis voltar ao mundo dos mortos. Camus escreve que o desprezo pelos deuses, o ódio à morte e a paixão pela vida lhe valeram o suplício. Ele é castigado por querer ficar.
Como Sísifo enganou a morte?
Mandaram a Morte buscá-lo e, em vez de ir, Sísifo a acorrentou. Com ela presa, ninguém mais morria, até que Plutão, incomodado com o espetáculo do seu império deserto e silencioso, mandou o deus da guerra soltar a Morte das mãos de quem a tinha vencido.
Qual é a história do mito de Sísifo?
Sísifo, rei de Corinto e o mais astuto dos mortais, viu Júpiter raptar Egina, filha do deus-rio Asopo, e contou ao pai onde ela estava em troca de uma fonte de água. Mandaram a Morte buscá-lo e ele a acorrentou. Plutão mandou soltá-la. Antes de descer, ele pediu à mulher que não o enterrasse, voltou com licença, reviu o mar e o sol e não quis descer de novo. Foi preciso virem buscá-lo à força, e o suplício foi empurrar uma pedra montanha acima, sem fim.
Quem empurra a pedra no mito de Sísifo?
O próprio Sísifo, condenado pelos deuses depois de enganar a Morte. Camus o toma como herói absurdo, e o que lhe interessa não é a subida, é a descida de volta à pedra, a hora da consciência, em que ele sabe o que vai acontecer de novo.
Sísifo foi condenado por Zeus?
O castigo vem dos deuses, e o crime começa com Zeus, que Camus chama pelo nome romano, Júpiter. Sísifo viu o rapto de Egina e contou ao pai onde ela estava, pedindo em troca uma fonte para Corinto.
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Aula de origem: O Mito de Sísifo, de Albert Camus