O Fédon é o diálogo da última tarde de Sócrates, e tem fama de peso: a maior parte dele é ocupada por quatro argumentos técnicos sobre a imortalidade da alma, densos até para quem já leu outros textos de Platão. Se o que você quer é entender de onde vem a Teoria das Formas, não precisa entrar por aí. Três passagens bastam como porta de entrada, porque são exatamente as que sustentam a aula do Nous sobre o mundo das ideias, e porque, lidas nessa ordem, formam um argumento inteiro: o que existe, como se chega até lá e o que ainda fica em aberto.
A edição usada aqui é a de Maria Teresa Schiappa de Azevedo, publicada pela Livraria Minerva, em Coimbra, com introdução, tradução do grego e notas. É dessa edição que saem as três passagens abaixo.
1. O Igual em si (74a-75b)
É aqui que Platão argumenta que existe algo chamado Igualdade, distinto de qualquer par de pedras ou troncos que alguém chame de iguais. Na edição de Maria Teresa Schiappa de Azevedo, ele fala de "uma realidade distinta de todas estas e que está para além delas [...] o Igual em si mesmo", e completa que as coisas iguais deste mundo tendem a se identificar com esse Igual, mas "lhe fiquem bastante aquém". É o argumento que abre a discussão sobre o que merece, de fato, o nome de real: não o que se toca, e sim o que não muda enquanto tudo o resto muda ao redor.
2. A segunda navegação (99c-d)
Antes de qualquer tese, Platão explica o método, e é fácil pular direto para a conclusão sem notar esse passo. Ele conta que temia ficar cego, "como quem contempla e observa o Sol em momentos de eclipse", e que por isso passou a examinar a verdade dos seres através das ideias, e não olhando diretamente para as coisas. Ele chama essa mudança de "uma segunda via", o deúteros ploûs, expressão náutica para o recurso aos remos quando o vento falha e a vela já não serve. É a passagem que explica como Platão chega até onde chega, não só onde ele chega, e é por isso que ela costuma ficar de fora dos resumos mais rápidos do livro.
3. A participação, e o que ele não resolve (100c-d)
Se existe uma Beleza em si e existem coisas belas concretas, o que liga uma coisa à outra? Nesta passagem, Sócrates propõe que "o que faz a beleza de um objecto não é outra coisa senão o Belo em si, seja por uma presença, seja por uma participação ou por qualquer outro processo que torne essa relação possível", e completa: "Não é, aliás, nisso que faço propriamente questão, mas sim em que é graças ao Belo que todas as coisas belas são belas." Ele não sabia explicar o como da participação, e disse que não sabia, no meio da própria tese mais audaciosa que estava propondo. Vale ler essa passagem devagar, no original, antes de esperar que qualquer resumo feche essa conta por você.
Antes de abrir o livro
Nenhuma dessas três passagens substitui o Fédon inteiro, e este texto não é um resumo do livro nem dos quatro argumentos sobre a alma, que pedem outro espaço e outra leitura. O que elas dão é uma entrada organizada: primeiro o que existe (o Igual em si), depois como se chega até lá (a segunda navegação), e por fim o ponto exato em que Sócrates larga a explicação, sem pressa de fechar o que ainda não fechou.
Se o seu ponto de entrada é a Teoria das Formas, essas três páginas são o caminho mais curto até o texto original, na mesma edição usada aqui. Depois delas, o resto do diálogo, inclusive a cena da morte de Sócrates que dá nome ao livro, fica mais fácil de acompanhar, porque você já sabe o que Platão está tentando provar antes mesmo de chegar lá.
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Do que trata o Fédon, de Platão?
É o diálogo em que Platão narra a última tarde de Sócrates, condenado à morte em Atenas. Boa parte do texto discute quatro argumentos técnicos sobre a alma, mas ele também guarda as passagens em que Platão apresenta, pela primeira vez com esse cuidado, a existência de realidades permanentes como o Igual em si.
Por onde começar a ler o Fédon?
Não pelo começo. Se o seu interesse é a Teoria das Formas, três passagens bastam como porta de entrada: 74a-75b, sobre o Igual em si; 99c-d, sobre o método que Platão chama de segunda navegação; e 100c-d, sobre como as coisas participam das Formas.
O que é o argumento do Igual em si, no Fédon?
Está em 74a-75b. Platão argumenta que existe uma realidade, o Igual em si, distinta de qualquer par de pedras ou troncos que você chame de iguais, e que essas coisas concretas tendem a se identificar com ela, mas sempre ficam aquém.
Qual é uma boa edição do Fédon em português?
A tradução de Maria Teresa Schiappa de Azevedo, publicada pela Livraria Minerva, em Coimbra, com introdução e notas. É a edição usada como referência neste artigo e na aula do Nous sobre o tema.
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Aula de origem: F&T 2.4 - Platão I: o Mundo das Ideias e a busca pela transcendência