A segunda navegação de Platão: o método das Ideias

Aula de origem: Platão e o Mundo das Ideias: você já sabe o que ninguém te ensinou

Há uma passagem no Fédon em que Sócrates explica por que mudou de método antes de chegar a qualquer tese. Ele diz que temia ficar cego, como quem olha direto para o sol durante um eclipse, e que por isso passou a examinar as coisas nos discursos, nas palavras, nos raciocínios. Ele dá um nome a essa mudança de rota: chama de segunda navegação. É a chave da aula do professor Rodrigo Bitencourt sobre Platão, e é também o ponto em que a maioria dos resumos da Teoria das Formas erra: começam pela tese, e pulam o método que sustenta ela.

Essa lacuna tem um custo. Sem o método, o mundo das ideias soa como uma hipótese que Platão escolheu por gosto, um cenário que ele preferiu imaginar em vez de aceitar o mundo comum. Com o método, a mesma tese aparece como o que ela é: a conclusão de alguém que tentou o caminho direto primeiro, viu que não chegava a lugar nenhum, e só depois mudou de rota.

O medo de olhar direto para o sol

Na edição de Maria Teresa Schiappa de Azevedo, Sócrates conta, no Fédon (99c-d), que "uma vez desiludido da observação dos seres, achei por bem acautelar-me, não viesse a acontecer-me a mim o mesmo que àqueles que contemplam e observam o Sol em momentos de eclipse: é sabido que alguns chegam a perder a vista, se não é através da água ou de qualquer outro meio que observam a sua imagem". Por isso, "receei ficar irremediavelmente cego de espírito, caso persistisse em fixar os olhos nas coisas, em tentar tocar-lhes directamente com os meus cinco sentidos. Pensei então que o melhor que tinha a fazer era refugiar-me do lado das ideias e, através delas, inquirir da verdade dos seres". Foi por isso, diz ele, que "tive de tentar uma segunda via para me lançar na sua busca".

Uma expressão de marinheiro

A imagem que dá nome a essa mudança é de marinheiro, e é concreta. Quando o vento morre e a vela não serve mais, o navio não fica parado no meio do mar: você pega os remos. É mais lento, é mais trabalhoso, e chega até o destino.

No grego, essa mudança de rota é o deúteros ploûs, literalmente "segunda viagem". Schiappa de Azevedo explica, em nota à sua tradução, que era "uma expressão proverbial da linguagem náutica para designar o recurso aos remos, quando os ventos não sopravam", e opta por traduzir por "segunda via", no sentido de segunda melhor via, ou seja, de método. A aula, seguindo a leitura de Giovanni Reale, chama a mesma imagem de "segundo navegar" e de "segunda navegação". Registrar essa escolha de tradução é parte de entender o termo, não só decorá-lo, porque cada versão em português ilumina um lado diferente da mesma imagem: "via" acentua que é um caminho alternativo, e "navegação" mantém viva a cena do barco, dos remos, do vento que faltou.

Nenhuma das duas traduções está errada. As duas partem da mesma expressão de marinheiro, usada por gente que sabia que um barco parado no meio do mar não é o fim da viagem, só a hora de trocar de instrumento.

O que o método não é

Toda vez que alguém diz que Platão inventou um mundo de fantasia, está supondo que ele saiu inventando. Não saiu. Ele fez o contrário: reconheceu que o caminho direto, o de olhar para a natureza com os próprios sentidos, não levava a lugar nenhum, e foi a remo.

Vale entender por que o caminho direto falhou primeiro. Os filósofos que vieram antes de Platão tinham tentado exatamente isso: olhar para a natureza e explicar do que ela é feita, observando o mundo com atenção. E um deles, Heráclito, tinha chegado a uma conclusão desconfortável: tudo escorre, tudo muda, nada permanece o mesmo em dois instantes seguidos. Se isso for levado a sério, não sobra nada estável para se conhecer, e todo conhecimento vira opinião, às vezes certa, às vezes não, sem meio de saber qual é qual enquanto se está olhando só para as coisas. Foi esse beco sem saída, e não um capricho, que fez Platão largar a vela.

Primeiro navegar, segundo navegar

O primeiro navegar era olhar diretamente para a natureza e perguntar do que ela é feita, a pergunta que já tinha ocupado os filósofos anteriores a Platão. O segundo é perguntar o que faz uma coisa ser o que ela é, uma pergunta de outra natureza, que não se responde olhando, e sim raciocinando.

Guardar essa distinção evita o erro mais comum sobre Platão: tratar o mundo das ideias como se fosse um cenário que ele imaginou primeiro, para depois procurar argumentos. Foi ao contrário. O método vem antes, e é o remo que leva até lá.

Repare também que a segunda navegação não descarta a primeira pergunta, só muda de instrumento para respondê-la. Platão continua querendo saber do que as coisas são feitas, e por que elas são o que são. O que ele deixa de fazer é confiar só na observação direta para chegar lá, porque foi justamente olhando direto que os que vieram antes dele encalharam no "tudo muda".

O livro que a aula recomenda para aprofundar o método

No fim da aula, o professor recomenda, para quem quer um guia mais didático e mais sintético sobre Platão, a "História da Filosofia Antiga", de Giovanni Reale. É esse mesmo livro que trata com cuidado a segunda navegação como uma chave de leitura de todo o pensamento platônico, e não apenas como um detalhe de um diálogo isolado. Vale como indicação para quem terminou este artigo e quer o argumento completo, com todo o contexto que uma aula ou um artigo não têm espaço para dar.

O que muda quando você troca a vela pelos remos

Guarde a imagem do barco a remo. Ela explica por que a Teoria das Formas, quando você chega até ela pelo caminho certo, deixa de soar como invenção e passa a soar como conclusão. Platão não decidiu que existia um mundo mais real antes de perguntar como se conhece alguma coisa de verdade. Ele perguntou primeiro, viu que olhar direto cegava, e foi a remo. A tese, o mundo das ideias, é o que se encontra depois dessa travessia, não antes dela.

E essa mesma imagem volta no fim da aula, quando o professor retoma os dois gatos brancos do início. Nada neles mudou durante a explicação inteira. O que mudou foi que agora existe um caminho, remado e não inventado, até a pergunta de onde vem a igualdade que você já enxergava neles sem saber explicar.

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Perguntas frequentes

O que é a segunda navegação de Platão?

É o método que Platão descreve no Fédon para investigar a realidade depois de desistir de olhar direto para as coisas. Em vez de observar a natureza com os sentidos, ele passou a examiná-la nos discursos, nas palavras, nos raciocínios. É o método que sustenta toda a Teoria das Formas, antes de qualquer tese sobre o mundo das ideias.

Onde Platão fala da segunda navegação?

No Fédon, por volta de 99c-d. Sócrates conta que temia ficar cego, como quem observa o sol de frente durante um eclipse, e por isso decidiu se refugiar do lado das ideias para, através delas, investigar a verdade dos seres.

O que significa deúteros ploûs, a expressão grega para segunda navegação?

Era uma expressão proverbial da linguagem náutica grega para o recurso aos remos, quando os ventos não sopravam mais. A tradutora Maria Teresa Schiappa de Azevedo, em nota à sua edição do Fédon, verte por "segunda via": a segunda melhor via para chegar ao destino, quando a primeira (a vela) falhou.

Qual a diferença entre o primeiro e o segundo navegar, em Platão?

O primeiro navegar é olhar direto para a natureza e perguntar do que ela é feita, a pergunta dos filósofos que vieram antes dele. O segundo é perguntar o que faz uma coisa ser o que ela é, e é essa pergunta que leva Platão até a Teoria das Formas.

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