Platão e o Mundo das Ideias: a medida que ninguém te deu

Aula de origem: Platão e o Mundo das Ideias: você já sabe o que ninguém te ensinou

Imagine dois gatos brancos, deitados um do lado do outro. Você olha e diz, sem pensar duas vezes: são iguais. Só que não são. Um é um pouco maior. O pelo de um puxa mais para o creme. Um tem uma falha perto da orelha que o outro não tem, e se você medir com um instrumento melhor, bate menos ainda. Mesmo assim, você chamou os dois de iguais, e não errou: fez isso com segurança, e faria de novo agora. A pergunta que sustenta a aula do professor Rodrigo Bitencourt sobre Platão é esta: de onde você tirou essa igualdade?

Uma medida que o mundo nunca te deu

No mundo que você enxerga, ela não está. Nenhum par de coisas que você já viu na vida foi perfeitamente igual, nenhum. E, mesmo assim, você reconhece a igualdade quando ela aparece pela metade, e sabe dizer que os dois gatos chegam perto, e que um gato e um armário não chegam. Você tem na cabeça uma medida que o mundo nunca te deu.

Quem fez essa pergunta primeiro foi Platão, e ele não usou gatos: usou pedras e pedaços de madeira, o que estava à mão em Atenas. Ele herdou o problema de mestres anteriores, entre eles Heráclito, para quem tudo escorre, tudo muda, nada permanece o mesmo em dois instantes seguidos. Se isso for levado até o fim, a consequência é dura: não há nada estável para conhecer, e se não há nada estável para conhecer, não existe conhecimento nenhum, existe apenas opinião. Opinião sortuda, quando acerta.

Só que a igualdade que você enxerga nos dois gatos não deveria existir, se essa consequência estivesse certa. E existe. Você não hesita ao dizer que os dois se parecem, e não hesita ao dizer que um gato e um armário não se parecem em nada. Alguma coisa em você já sabe medir uma igualdade que nunca viu por inteiro em lugar nenhum. Essa é a fresta por onde entra a Teoria das Formas.

O que eidos realmente quer dizer

Quando você ouve "mundo das ideias", a sua cabeça provavelmente vai para um lugar dentro de você: ideia é o que eu tenho na cabeça, é o que eu penso, é minha. Todos caem nisso, porque em português a palavra puxa para lá. Mas não é disso que Platão está falando.

A palavra grega é eidos, e ela significa aparência, significa essência. Eidos é a estrutura metafísica de uma coisa, a sua estrutura ontológica. Aqui se fala de forma e de essência da realidade, não de uma ideia que está na sua cabeça. Mais adiante o professor Rodrigo Bitencourt, na aula, distingue ainda a forma substancial da forma intencional: a mesma forma presente na substância, no gato de verdade, é a forma presente na sua mente quando você pensa nele, só que ali ela é intencional. É por isso que, para Platão, a realidade está no eidos, na essência, e as coisas concretas participam dessa essência.

Então, quando Platão fala de um "igual em si", ele não está se referindo ao seu conceito pessoal de igualdade. Ele está dizendo que existe uma coisa chamada Igualdade, que não é nenhum par de objetos iguais, que não muda quando você muda de humor, e que é exatamente o que permite você reconhecer a igualdade nos dois gatos.

O Igual em si, no Fédon

É no Fédon que Platão desenvolve o argumento com mais cuidado. Na edição de Maria Teresa Schiappa de Azevedo (Coimbra, Livraria Minerva), ele afirma "a existência de algo «igual» [...] não quero dizer um tronco de madeira igual a outro tronco ou uma pedra igual a outra pedra nem nada desse género, mas uma realidade distinta de todas estas e que está para além delas [...] o Igual em si mesmo" (Fédon, 74a).

E completa, algumas linhas adiante, que as coisas iguais deste mundo tendem a se identificar com esse Igual em si, mas "lhe fiquem bastante aquém" (Fédon, 75a-b). Ficam devendo. E ninguém consegue ficar devendo uma coisa que não existe.

Repare que o argumento nem precisa dos seus olhos para funcionar, e é por isso que ele é mais forte do que parece à primeira leitura. Platão pergunta, ainda no Fédon 74b, se não é verdade que as mesmas pedras e os mesmos troncos "parecem por vezes iguais aos olhos de uns e não aos olhos de outros". Se a igualdade dependesse só do que cada olho capta, ela mudaria de pessoa para pessoa, e de instrumento para instrumento, exatamente como aconteceu com os seus dois gatos quando você foi medir de perto. O padrão que permite chamar duas coisas de iguais, mesmo quando os sentidos discordam entre si, não pode vir dos sentidos.

Mais real do que os gatos

Aqui está o passo audacioso, o que atravessa dois mil anos: aquilo, a Igualdade em si, é mais real do que os gatos. E não é uma metáfora. Platão quer dizer real mesmo.

Os dois gatos brancos vão morrer. A igualdade entre eles não é perfeita hoje, e vai ser menos perfeita amanhã, por exemplo quando um deles engordar. Tudo que você aponta com o dedo está a caminho de deixar de ser o que é. A Igualdade, não: ela não engorda, não envelhece, não muda dependendo do dia. Dois mil e quatrocentos anos depois daquela conversa em Atenas, ela continua sendo exatamente a mesma coisa.

Então responda: qual dos dois merece mais o nome de real? O que existe hoje e some, ou o que nunca deixa de existir?

Um novo critério de real

Temos o hábito de chamar de real o que se pode ver e tocar. Platão propõe outro critério: real é aquilo que permanece, aquilo que não muda. E, por esse critério, o que você toca não é nada mais nada menos que a sombra, e o que você só alcança pensando é o corpo.

Se a Igualdade não está em nenhum objeto deste mundo, você não aprendeu ela olhando o mundo. Nenhum professor te ensinou, você não decorou, e mesmo assim você tem. Essa é a conta que abre a próxima pergunta da aula, a de onde vem exatamente esse conhecimento que ninguém te deu, e é para ela que vale a pena voltar depois de ver o vídeo inteiro.

Isso também explica por que a mudança de critério não é um detalhe de vocabulário. Se real fosse só o que se toca, os dois gatos venceriam a Igualdade sem disputa, porque eles estão ali, deitados, e a Igualdade não está em lugar nenhum que você aponte com o dedo. Mas se real é o que permanece, a disputa se inverte: os gatos vão mudar até deixarem de existir, e a Igualdade, não. Platão não está pedindo para você desprezar o que vê. Está pedindo para você reparar que aquilo que vê nunca fica parado o suficiente para sustentar sozinho a palavra "real".

Volte aos dois gatos. Eles continuam não sendo iguais, e nada nisso muda. O que muda é que agora você sabe o que estava fazendo quando disse que eram: você estava usando uma medida que ninguém te deu, que você não comprou, e que não está registrada no seu nome.

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Perguntas frequentes

O que é o mundo das ideias de Platão?

É a tese de que existe uma realidade permanente, o eîdos ou Forma, da qual as coisas que você vê e toca apenas participam, sem nunca igualá-la por completo. Não é um lugar de fantasia: é a resposta de Platão para uma pergunta concreta, a de onde vem a igualdade que você reconhece entre duas coisas que, medidas de perto, não são iguais.

O que significa eidos, a palavra que Platão usa para ideia?

Eidos (εἶδος) não é o que está na sua cabeça. Significa aparência, essência, a estrutura pela qual uma coisa é o que ela é. Platão fala de forma, não de pensamento: a realidade está no eidos, e as coisas concretas participam dele.

Por que Platão diz que as ideias são mais reais do que as coisas?

Porque ele muda o critério de real. Se real é o que se toca, os gatos vencem. Se real é o que permanece, vence a Igualdade, que não engorda, não envelhece e não muda de um dia para o outro. Tudo que você aponta com o dedo está a caminho de deixar de ser o que é, e ela não.

Onde Platão fala do Igual em si?

No Fédon, por volta de 74a a 75b. Ele diz que existe uma realidade distinta de qualquer par de pedras ou troncos iguais, e que as coisas iguais deste mundo tendem a se identificar com o Igual em si, mas ficam sempre aquém.

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Aula de origem: F&T 2.4 - Platão I: o Mundo das Ideias e a busca pela transcendência