Gramsci e a hegemonia cultural

Aula de origem: A Revolução dos Bichos, de George Orwell

Antonio Gramsci, filósofo pensador italiano e fundador do Partido Comunista italiano, argumenta em sua obra mais importante, os Cadernos do Cárcere, que o poder não se sustenta apenas pela força, mas pela hegemonia cultural. É uma das chaves menos óbvias, e mais úteis, para entender A Revolução dos Bichos.

Por que a Europa não podia copiar a Rússia

Gramsci pensava que não era possível começar uma revolução na Europa usando o mesmo método dos russos, a luta de classes e a revolução operária, ou seja, a transformação pela infraestrutura econômica direta. Ele defendia que era preciso aplicar uma metodologia diferente, mais eficaz para o contexto europeu: a cultura. É por isso que ele é considerado o grande pensador da revolução cultural, distinto da tradição marxista mais ortodoxa.

Para Gramsci, chegar ao poder e à verdadeira transformação social exige passar antes pela cultura. É dele a ideia do intelectual orgânico: uma figura ligada organicamente a uma classe, capaz de moldar a visão de mundo de uma sociedade a partir de dentro, não apenas de criticá-la de fora.

O que é hegemonia cultural

A hegemonia cultural é a maneira como a classe dominante molda a visão de mundo da sociedade para manter seu domínio, sem depender exclusivamente da coerção. Gramsci explica que a burguesia usa instituições como a empresa e a escola para criar consenso, um consentimento fabricado que faz com que as pessoas aceitem, e até defendam, um sistema que não favorece seus próprios interesses.

O controle do discurso é uma ferramenta essencial de dominação política.

Esse é o ponto em que Gramsci e Orwell, escrevendo de tradições e décadas diferentes, chegam a conclusões notavelmente próximas.

Garganta de Bocão como hegemonia em ação

Em A Revolução dos Bichos, o mecanismo de Gramsci aparece com clareza na figura de Garganta de Bocão, o porco que controla a informação e reescreve a história para sustentar o poder de Napoleão. Assim como a burguesia gramsciana usa a escola e a empresa, Napoleão manipula a narrativa da fazenda para manter os animais submissos, sem precisar recorrer apenas à violência dos cães.

O conceito de consentimento fabricado, de Gramsci, também aparece na forma como as ovelhas repetem slogans sem reflexão, reforçando a ideologia dominante mesmo sem compreendê-la. Orwell e Gramsci concordam nesse ponto essencial: o controle do discurso é uma ferramenta de dominação tão poderosa quanto a força bruta, e muitas vezes mais duradoura.

A ponte com a América Latina

É importante conhecer o pensamento de Gramsci para entender uma diferença que costuma passar despercebida: o socialismo da União Soviética não é o mesmo que o socialismo, ou comunismo, praticado na América Latina. Muitos líderes políticos de partidos comunistas e socialistas latino-americanos entraram no poder começando pelos ministérios da educação, da cultura e da saúde, precisamente porque são esses ministérios que criam cultura, e é a cultura, na leitura gramsciana, que muda uma sociedade a partir do pensamento, antes mesmo de qualquer mudança na infraestrutura econômica.

Entender essa distinção é essencial para não ler toda experiência socialista como uma repetição idêntica do modelo soviético que A Revolução dos Bichos satiriza. A fábula de Orwell mira um regime específico; o conceito de hegemonia cultural de Gramsci explica uma estratégia diferente, que continua moldando a política de países inteiros até hoje. Para ver como esse mecanismo de controle da linguagem se radicaliza na obra posterior de Orwell, vale conferir o que é a novilíngua, e para acompanhar como tudo isso se conecta à Revolução Russa original, o artigo sobre a Revolução Russa espelhada na fazenda fecha o quadro histórico completo.

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Perguntas frequentes

O que é hegemonia cultural para Gramsci?

É a ideia de que o poder não se sustenta apenas pela força, mas pela maneira como a classe dominante molda a visão de mundo da sociedade inteira, usando instituições como a escola, a empresa e a mídia para criar consenso em torno de seus próprios interesses.

O que é o intelectual orgânico de Gramsci?

É a figura pensada por Gramsci como agente da transformação cultural: um intelectual ligado organicamente a uma classe social, capaz de difundir uma nova visão de mundo através da cultura, e não apenas de teorizar de fora sobre a sociedade.

Como Gramsci influenciou a política na América Latina?

Gramsci argumentava que, na Europa, a revolução não podia ser feita pelo mesmo método dos russos, luta de classes e revolução operária, mas por uma transformação cultural mais lenta. Essa lógica influenciou líderes latino-americanos, que priorizaram ministérios de educação, cultura e saúde como via de acesso e consolidação do poder.

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