Duzentos e cinquenta anos separam Macbeth de Raskólnikov, o protagonista de Crime e Castigo. Mas os dois são o mesmo experimento: o que acontece com uma consciência que tenta viver depois de se trair?
Uma ideia que autoriza o crime
Macbeth tem a profecia: as bruxas lhe garantem o trono, e ele lê isso como permissão para tomá-lo à força. Raskólnikov tem a teoria: convence-se de que homens "extraordinários" estão acima da lei comum e podem eliminar uma velha usurária em nome de um bem maior. Em ambos, o crime começa numa abstração que parece dar licença. A faca vem depois da ideia.
A punição que não espera o tribunal
E aqui está o que Shakespeare e Dostoiévski descobriram, cada um a seu modo: a punição não espera o juiz. Ela chega primeiro por dentro. Em Macbeth, pela imaginação que não desliga, o punhal que flutua antes do crime, o fantasma de Banquo no banquete, a insônia, a esposa sonâmbula. Em Raskólnikov, pela febre, pelo delírio, pela angústia que o consome muito antes da confissão. O corpo cobra antes da lei.
O que é mais insuportável: ser descoberto, ou nunca ser descoberto e conviver para sempre com o que você sabe?
A consciência como tribunal
Os dois personagens provam que a consciência é um tribunal de onde não se foge. Não importa se o mundo descobre. O criminoso já sabe, e esse saber é a sentença. Por isso a pergunta da peça e do romance é a mesma: o pior castigo talvez não seja a prisão, e sim viver com aquilo que você fez. A confissão de Raskólnikov, no fim, é menos rendição à polícia e mais alívio diante de si mesmo.
Por que ler os dois
Macbeth comprime em cinco atos o que Dostoiévski expande em centenas de páginas: o roteiro da culpa. Um mostra a velocidade da tragédia; o outro, a lentidão da agonia moral. Juntos, desmontam a ilusão mais perigosa de todas, a de que uma boa justificativa transforma o mal em outra coisa.
Aula relacionada
Crime e Castigo, de Dostoiévski
A anatomia da culpa de Raskólnikov, analisada em detalhe no canal do Nous no YouTube.
Assistir à aula no YouTubePerguntas frequentes
O que Macbeth e Raskólnikov têm em comum?
Os dois acreditam que algo os autoriza a matar: Macbeth, uma profecia; Raskólnikov, uma teoria sobre homens extraordinários. E os dois descobrem que a punição não espera o tribunal externo, ela chega primeiro por dentro, pela culpa.
Como a culpa se manifesta nos dois personagens?
Pelo corpo e pela mente: insônia, alucinações e delírio em Macbeth (o punhal, o fantasma); febre, delírio e angústia em Raskólnikov. A consciência cobra antes de qualquer juiz.
Qual é a lição comum de Macbeth e Crime e Castigo?
Que nenhuma ideia ou profecia isenta a consciência. Tentar viver depois de trair os próprios princípios é o verdadeiro castigo, independentemente de ser descoberto ou não.
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