O que Platão dizia sobre a beleza: o arrepio é memória

Aula de origem: F&T 3.4 - Fedro, de Platao

Você já sentiu isso diante de alguma coisa bela. Um rosto, uma música, uma paisagem, uma página. Um aperto que não tem nome, como se aquilo lembrasse um lugar onde você nunca esteve. A maioria de nós trata esse aperto como um detalhe do gosto, algo que passa. Platão o leva a sério, e no Fedro ele dá uma explicação que parece estranha e que quase ninguém esquece depois de ouvir: esse aperto é memória.

Um discurso que parecia sensato

Para chegar à beleza, o Fedro começa por um discurso que a rejeita. Um jovem chamado Fedro traz um texto do orador Lísias, e a tese é provocadora: seria melhor entregar-se a quem não te ama do que a quem te ama. O apaixonado é ciumento, instável, perde a cabeça. O outro é calmo, prático, confiável.

Sócrates responde com um discurso brilhante contra o amor, feito com a cabeça coberta pelo manto, e na hora de ir embora é detido pelo seu sinal interior (o daimónion, de que tratamos em O daimônio de Sócrates não mandava, só freava). Então faz uma retratação com o rosto à mostra. Ela começa virando do avesso o argumento de Lísias. O raciocínio dele era que o apaixonado é louco e, por isso, é melhor evitá-lo. Isso só valeria, responde Sócrates, se toda loucura fosse um mal. Mas há uma loucura dada por dom divino, e por meio dela, diz ele, nos vêm os maiores bens (Fedro, 244a). Existe a do profeta, a dos ritos que purificam, a do poeta tomado pelas Musas. E existe a mais alta de todas, a de quem ama.

Repare no que a tese de Lísias tinha de convincente. Era sensata do jeito que o cálculo é sensato: protegia você do sofrimento, e protegia também de subir.

A alma que tinha asas

Para explicar por que o amor é essa loucura, Sócrates conta o mito mais famoso do livro. A alma é como um carro alado, com um cocheiro e dois cavalos, um que obedece e outro que puxa para baixo. O que importa aqui é o que vem depois. Antes de nascer, as almas seguiam os deuses pelo céu e contemplavam as Formas. Depois caíram, perderam as asas e esqueceram (Fedro, 248a-c).

É a reminiscência de que falamos em Reminiscência em Platão: reconhecer o que nunca se viu. Conhecer é reconhecer. E é aqui que Sócrates diz uma coisa que muda a nossa relação com o belo.

A única Forma que se deixa ver

Das coisas que a alma viu lá em cima, a justiça, a temperança e a sabedoria quase não deixam rastro visível aqui embaixo. Você não aponta o dedo para a justiça como aponta para um rosto. Mas a beleza deixa. É a única das realidades de lá que ainda chega aos olhos, a mais visível e a mais amável (Fedro, 250d).

Isso muda o lugar da beleza. Nesse trecho do Fedro, ela deixa de ser enfeite do mundo e passa a ser o ponto em que aquilo que a alma conheceu antes ainda se oferece aos olhos. Para ver como a tradição depois tratou a beleza ao lado da verdade e do bem, leia Verdade, bem e beleza: os transcendentais.

O arrepio, o calor, as penas

Então, quando alguém vê um rosto verdadeiramente belo, alguma coisa física acontece. Sócrates descreve arrepio, suor, calor, uma espécie de febre, e diz que é a alma lembrando. As penas das asas, que estavam secas, começam a brotar de novo (Fedro, 251a-c). Isso dói e alegra ao mesmo tempo, como a dor dos dentes que nascem.

A imagem é de corpo, e vale notar isso. Para Platão, a beleza não passa primeiro pela ideia e só depois pelo corpo. Passa pelo corpo, e é o corpo que avisa. O arrepio é a primeira notícia, e a alma é quem a lê.

O aperto que não tem nome

Agora volte ao começo. Aquele aperto que você sente diante de uma música ou de uma paisagem, como se lembrasse um lugar onde você nunca esteve, é exatamente a coisa que o texto está descrevendo. Para Platão, esse aperto é memória. A alma está reconhecendo algo que ela já viu e que o corpo nunca viu, e é por isso que parece vir de lugar nenhum.

Você pode ter as suas dúvidas sobre almas que voam e ainda assim reconhecer a experiência. O que o texto oferece é uma explicação para algo que quase todo mundo sente e quase ninguém consegue nomear.

O amor que não possui

Daí vem a consequência para o amor, e ela é a mais surpreendente do trecho. O amor, quando é verdadeiro, não é o desejo de possuir aquele rosto. É o desejo de voltar para onde ele aponta. O rosto belo funciona como uma indicação, e quem a segue não quer guardar a placa.

É por isso que o amante verdadeiro não arrasta o amado para baixo. Os dois sobem juntos. O que o Fedro descreve é o amor como parceria na subida, e nunca como posse. Esse é o mesmo amor de que o Banquete fala, por outro caminho: lá, a escada que parte do amor por um rosto e vai até o Belo em si, contada em A escada do amor: o que Diotima ensina a Sócrates e O que é ter um amor platônico, segundo Platão. Aqui, o primeiro degrau sentido por dentro, no arrepio.

Quando a beleza engana

O Fedro não é ingênuo sobre isso. O próprio discurso de Lísias, com o qual o diálogo começa, era um texto muito bem escrito: beleza de forma a serviço de uma tese que não se sustenta. Há uma beleza que conduz e há uma que apenas convence, e o livro mostra as duas. A segunda metade do diálogo trata justamente da diferença, e ela tem artigo próprio: Retórica de Platão: conduzir almas ou só convencer?.

Belos por dentro

O diálogo termina com um gesto pequeno que resume o resto. Antes de voltar para a cidade, Sócrates e Fedro fazem uma oração ao deus do lugar, que é Pã (Fedro, 279b-c). Pedem para ser belos por dentro, e que o que mostram por fora combine com o que são por dentro. São poucas linhas, e quase todo mundo as pula, mas elas resumem o livro inteiro: a beleza que se mostra por fora pedindo para combinar com a que há por dentro.

Uma advertência sobre as passagens: as indicações entre parênteses são a numeração Stephanus, que localiza cada trecho do Fedro em qualquer edição que você tenha à mão, e as palavras variam de uma tradução para outra. Para ver o diálogo inteiro na ordem em que acontece, comece por Fedro, de Platão: resumo e como ler.

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Perguntas frequentes

O que Platão dizia sobre a beleza?

No Fedro, que a beleza é a única das realidades que a alma contemplou antes de nascer e que ainda podemos ver com os olhos aqui embaixo. A justiça, a temperança e a sabedoria quase não deixam rastro visível. A beleza deixa, e por isso é a mais visível e a mais amável das Formas (Fedro, 250d).

Por que a beleza arrepia, segundo Platão?

Porque, para ele, a alma está lembrando. Diante de um rosto verdadeiramente belo, Sócrates descreve arrepio, suor, calor e uma espécie de febre: as penas das asas da alma, secas desde a queda, começam a brotar de novo (Fedro, 251a-c). É por isso que o aperto parece vir de um lugar onde nunca estivemos.

O amor platônico do Fedro é desejo de possuir?

Não. O amor verdadeiro, no Fedro, não é o desejo de possuir aquele rosto, é o desejo de voltar para onde ele aponta. Por isso o amante verdadeiro não arrasta o amado para baixo: os dois sobem juntos.

A beleza do Fedro é a mesma do Banquete?

É o mesmo amor por outro caminho. O Banquete conta uma subida em degraus, do corpo belo até o Belo em si. O Fedro mostra o que acontece no corpo de quem vê a beleza: o arrepio, o calor, as penas que brotam. Um fala da escada, o outro do primeiro degrau sentido por dentro.

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